Espaço Pensar +

NÓS CONTRA ELES - 04.02.22


por Percival Puggina
 
         A ideia de que a polarização faz mal à política e ao país nasceu no mesmo dia em que a esquerda perdeu as eleições nacionais de 2018; foi parida em berço petista e se tornou peça retórica para transmitir a impressão de que a vitória dos conservadores deteriorou a política, transformando-a numa guerra.

Não chega a ser surpreendente que o estratagema tenha integrado o discurso do ministro Fux ao abrir os trabalhos do ano judiciário. Em sua fala, o ministro afirmou que “a democracia não comporta disputas baseadas no ‘nós contra eles’” e que “todos os concidadãos brasileiros devem buscar o bem-estar da nação, imbuídos de espírito cívico e de valores republicanos” (palmas do auditório).

Contudo, se dermos uma olhada para traz, o “nós contra eles” saiu da boca de Lula e instigou as sucessivas vitórias do PT. Alias, para a esquerda, desde todo sempre, a política foi assim. Mesmo em regimes totalitários, de partido único, há uma política e ela se faz contra “eles”, os que vão para as covas rasas, ou para os gulags, ou para os cárceres.

Nas democracias, principalmente naquelas em que a sistema de governo é presidencialista, toda eleição majoritária é disputada entre um conjunto “nós” e um ou mais conjuntos de “eles”. Dada a magnitude das divergências ideológicas, torna-se difícil imaginar-se, hoje, uma eleição não polarizada.

O próprio STF, quando se forem renovando os ocupantes das cadeiras, também se irá polarizar e essa polaridade se fará notória, motivando grande júbilo nacional. A ampla maioria esquerdista ali formada já deixou bem clara sua animosidade em relação à maioria conservadora da sociedade brasileira.

Colegas do presidente do Supremo, em excessivas, abusivas e perturbadoras manifestações, não escondem o antagonismo ao presidente da República e, por via de consequência, a seus apoiadores. Quantas vezes “milícias” e seus derivados são palavras pronunciadas por membros da Corte? Não surpreende, por isso, que tais cidadãos sejam “eles” para muitos ministros e que esses ministros sejam “eles” para os mesmos cidadãos que se veem injustamente atingidos.

Por fim, é bom lembrar que no caso brasileiro saímos de uma hegemonia  política – de um monopólio esquerdista, poderíamos dizer – para uma polarização que, vista a situação anterior, se revela muito, muito saudável.


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O SENADO E AS FICHAS SOBRE A MESA - 01.02.22


Por Percival Puggina
 
         O presidente cumpriu o que dissera: não atende mais determinações do ministro Alexandre de Moraes. Ao considerar extemporâneo o pedido da AGU para que o presidente, em vez de comparecer à delegacia como estabelecera o ministro, se manifestasse por escrito, Alexandre dobrou a aposta. Bolsonaro, por sua vez, dobrou também, silenciando.

Que outras fichas tem o ministro para pôr sobre a mesa? Os colegas do Pleno. Irão cobrir a aposta dele e ordenar o comparecimento do presidente a uma delegacia?

Há alguns meses, isso não surpreenderia. Hoje, não sei não. O jogo roda sob os olhos da sociedade e esta já percebeu o empenho com que o ministro e a maior parte de seus colegas dão curso à tarefa de destruir a harmonia entre os poderes e desestabilizar o governo.

“Tanto vai o cântaro à fonte que um dia lá se quebra”, diz um bem aplicável provérbio. A fúria persecutória contra o presidente da República e seus apoiadores se tornou tão evidente que ele, tudo indica, resolveu dar um basta. De fato, quando se pensa em todas as violações do sistema acusatório que vigem em inquéritos abertos dentro do STF e se percebe o quanto esses inquéritos são pernetas, puxando sempre para o mesmo lado, não há como a sociedade não se escandalizar.  

Enquanto os dias passam, olho para o Senado e percebo que o Senado não olha para mim. Nem para você, leitor. O Senado olha para os senadores e estes só atentam para si mesmos. Com a mais generosa boa vontade, as exceções a esse quadro egocêntrico não chegam a vinte.

Eis uma das grandes missões da ação política em favor do Brasil ao longo deste ano eleitoral. Vinte e sete senadores serão escolhidos pelos eleitores no primeiro domingo de outubro. Cada estado deve passar um pente fino na atuação dos que se apresentarem buscando renovar os mandatos. É preciso conhecer e tornar conhecidas, entre outras, as respectivas posições em relação à CPI da Lava Toga, à CPI da Covid, à prisão após condenação em segunda instância, à governabilidade do país, ao pacote anticrime.

A rigor, toda a insegurança jurídica causada por excessos monocráticos e colegiados do STF, apontados por Marco Aurélio Mello quando ministro, podem ser atribuídos ao desequilíbrio causado pelas décadas em que coube à esquerda política (mais precisamente a José Dirceu) apontar ao Senado os ocupantes dessas cadeiras. Agora, é o que temos, um poder de estado fazendo política sem voto.
 

Poderia ser tarefa de gincana encontrar um esquerdista, investido de poder, que se mantenha dentro de seu quadrado.


Para o Senado, diferentemente do Supremo, a vida segue outro curso. Nossa Câmara Alta é um poder cujos membros se submetem à manifestação periódica de seus eleitores. Então, em outubro, sela-se o destino de 27 senadores. Salvem-se os raros bons e renovação já! Os restantes 54 entram na contagem regressiva para 2026. Também a estes deve ir o recado dos cidadãos de seus Estados. É a hora da cobrança, da revisão de vida, do respeito ao eleitor, da transparência das condutas. Hora de compreender que dirigir é servir.


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O FUNERAL DOS PARTIDOS POLÍTICOS BRASILEIROS - 25.01.22


Por Percival Puggina - http://www.puggina.org

 

 

Durante a Assembleia Nacional Constituinte teve início o longo funeral dos partidos políticos brasileiros. São duras estas palavras? Sei que são, mas as escrevo porque foi no consentimento proporcionado pelo silêncio, que chegamos à situação atual. Nela, só não olham indignados para o quadro político nacional aqueles que perderam a capacidade de reagir ante a iniquidade. Qual a influência positiva dos partidos políticos brasileiros?

         Desde 1988, o “centrão” é governo e aprendeu, com FHC, Lula e José Dirceu que o Estado é, e precisa ser, o butim dos vencedores, sem o qual a boa vida não rola. O modelo político gerado na Constituinte apodreceu nossa política. Foro privilegiado, dinheiro fácil, costas quentes, risco baixo, companheiros e camaradas no TCU e no STF inverteram e aceleraram o processo de seleção natural, atraindo os maus e expelindo os bons. Regionalmente há exceções, mas são exatamente isso, exceções.

         Apesar do imenso relevo que tem a política entre nós, os partidos políticos não atraem e não formam novas lideranças. São meras siglas. As mais antigas, mandaram a própria imagem às cucuias; penso que não haja espelhos em seus diretórios nacionais. As muitas novas legendas são meras letras e números que raros, raríssimos, identificam desde fora do respectivo quadrado. Antigas e novas parecem ter o mesmo e único preceito em seus programas: aqui se busca o poder ou suas cercanias. Nada a dizer sobre a nação.

         O Senado Federal é o habitat quase privativo das principais lideranças partidárias. Examine o quadro sucessório brasileiro e veja onde estão as figuras que dominaram cotidianamente os espaços da mídia militante brasileira, graças ao tipo de jornalismo que nela encarnou. Onde estão Rodrigo Maia (o ambicioso que queria ser primeiro-ministro ou presidente), Davi Alcolumbre (o vingativo), Rodrigo Pacheco (o grande omisso), Renan Calheiros (o Torquemada de ficha encardida), Simone Tebet (a bem falante), Alessandro Vieira (que confunde ar sério com seriedade)? E a propósito, cadê Rodrigo Maia (o ambicioso ex-presidente da Câmara que queria ser primeiro-ministro ou presidente)?

         Observe agora, leitor, os partidos com maiores bancadas no Senado nas pesquisas da eleição presidencial. Deles, apenas o PMDB (15 senadores) tem a candidata Tebet (com 1%) e o PSDB (5 senadores) tem o candidato Dória (com 2 %). Ou seja, não têm nome a apresentar à sociedade. As outras bancadas numerosas ou tradicionais: PSD (11 senadores) testa Rodrigo Pacheco (0%) e o DEM (6 senadores) não tem uma carta que seja para colocar na mesa. O PODEMOS (9 senadores) foi buscar Moro fora dos seus quadros. 

         Calaram-se quando deveriam falar. Falaram quando deveriam calar. Viraram as costas à sociedade. Durante três anos articularam, conspiraram e ocuparam com voracidade os generosos espaços que a mídia lhes concedeu. Gastaram a bateria dos holofotes para uma irresponsável oposição ao governo. Agora, na miséria de seus quadros, chegam ao pleito com as mãos vazias.

 


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RESOLVER PROBLEMAS - 24.01.22


Por Alex Pipkin

 

Resolver problemas das pessoas é a atividade precípua do administrador. Como fazer?

Fazendo escolhas e tomando decisões direcionadas para entregar melhores soluções – produtos/serviços/experiências - para os consumidores.

Mas os dias da “empresa individual” se foram; é toda a cadeia de valor que conta para ganhar ou perder dinheiro.

Dentro do ambiente organizacional, tais decisões envolvem talentos humanos, suprimentos, operações, marketing, vendas, finanças, TI, engenharia, P&D, jurídico, entre outros processos.

O pilar da tomada de decisão é a informação.

Presenciamos uma nova revolução industrial trazida pelas tecnologias digitais. Embora incipiente - em algumas situações - já possibilitam extrema automatização e conectividade, mais ampla e mais rápida. Elas potencializam a colaboração!

Esta transformação traz uma infinidade de dados e informações que pode ser aplicada, por exemplo, para desenvolver produtos customizados e inovadores, ajustar operações de imediato, reduzir estoques, realizar investimentos rentáveis, acessar fornecedores mais competitivos, entre outras.

Digitalização virou um mantra. Todos verbalizam. Isomorfismo empresarial empurra a busca – muitas vezes equivocada de “respostas de TI” – de obtenção de mais informação que levaria a decisões robustas e mais rápidas.

Mas calma lá! É imperativo respeitar o tempo e estágio organizacional individual e do setor envolvido. Claro que informação é vital, propicia visibilidade.

Visibilidade na cadeia é, sem sombra de dúvida, vital para se solucionar melhor os problemas dos clientes e ganhar mais dinheiro.

O problema é que muitas organizações sequer realizam o singelo básico, como por exemplo, integrar interna e externamente seus processos. Porém, impulsionadas por áreas de tecnologia e/ou consultores externos, desejam visibilidade em nível de comunicação, alardeando novas tecnologias - vide agora o metaverso -, por meio de projetos de marketing que são efêmeros e que não trazem resultados efetivos de longo prazo para as empresas.

Primeiro, indispensável transformar dados em informação acionável. Necessário integrar funcionalmente a organização e toda cadeia de valor para tal acesso.

Penso que uma empresa precisa se concentrar e focar naquelas tecnologias que são essenciais e de maior impacto para seus processos e seus negócios. Por foco considero um aprofundamento da aplicação, de utilização e de desenvolvimento de tecnologias (ex.: inteligência artificial), objetivamente acompanhando e analisando as novidades sob um olhar crítico.

Primordial, de posse de informação, ter habilidades e competências para utilizá-las no processo decisório. Além da retórica, procedimentos operacionais sólidos e cultura organizacional impactam rigorosamente para sua real utilização. Cultura genuína, ou seja, aquela que foi forjada ao longo dos tempos, relacionada com a missão e o negócio, não a acionada em razão de oportunidades de marketing, por vezes desvinculadas do real objetivo organizacional.

Como acadêmico, repito o mantra. A transformação digital irá disruptar todos os setores. Pela experiência executiva, alerto que informação é diferente de conhecimento, que conduz a tomada de decisões eficientes e eficazes.

Todas empresas, com a escala e barateamento, poderão acessar tecnologias e a respectiva visibilidade de dados. Somente algumas – maiores - já estão contratando especialistas de dados que, inexoravelmente, precisam buscar, a princípio, integração interna/funcional. Pari passu, integração externa com parceiros de negócios.

Sugiro iniciar pelo simples e prioritário. Integre internamente. De posse de informação, construa conhecimento, compartilhando-o em toda cadeia de valor. Parece-me essencial que haja uma cultura inspiradora de construção do conhecimento, por meio da aquisição e respectiva utilização dos dados, informações, fatos e relações sociais.

É a utilização da informação que gera o conhecimento através do desenvolvimento de novas habilidades, produtos e processos mais eficientes. Acessar informações é preciso, mas preferencialmente, integrar interna e externamente a fim de produzir conhecimento distinto.

Isoladamente, tecnologia de informação raramente será fonte de vantagem competitiva sustentável, uma vez que esta pode ser imitada pelos concorrentes. Somente o seu compartilhamento é que permitirá a geração de conhecimento para uma tomada de decisão mais efetiva e rápida.

Soa simplório, mas não é. Abandone as panaceias e, primeiro, integre dentro e fora com o “básico”.

Foque nas tecnologias que, de fato, possuem aplicações práticas para seus negócios, e acompanhe às inovações e as tendências de longo prazo com criticidade, para além dos modismos desmesurados.

Só a partir daí passe a pensar em tecnologias digitais revolucionárias. Prefiro as práticas e inovadoras.


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Investimento estrangeiro no Brasil dobra a despeito dos pessimistas de plantão - 21.01.22


Por J.R. Guzzo – Gazeta do Povo

 

Até o presente momento, o cidadão que acredita no que lê, ouve e vê por parte dos economistas – e dos outros cérebros superiores que a mídia chama para nos explicar o que está acontecendo na economia nacional – tem certeza de que o Brasil foi reduzido aos restos de um prédio em demolição.

 

Em poucas áreas, dizem os economistas e os jornalistas que os reproduzem, a coisa é tão ruim quanto na área dos investimentos externos. O capital internacional, segundo eles nos explicaram por A + B, tirou o Brasil “do seu radar”. Ninguém, entre os donos do dinheiro, quer colocar mais um centavo de dólar aqui dentro – basicamente porque os investidores pegaram horror de Jair Bolsonaro e vão boicotar o país enquanto ele for o presidente da República.

 

Fica incompreensível, assim, porque o investimento estrangeiro, conforme acaba de divulgar o órgão das Nações Unidas encarregado de acompanhar o comércio mundial, simplesmente dobrou no Brasil em 2021 – com pandemia e todas as desgraças econômicas que estão diariamente no noticiário. Não deveria ter acontecido exatamente o contrário?

 

Se o Brasil foi abandonado por investidores internacionais escandalizados com o bolsonarismo, o fascismo, o direitismo, o negacionismo e o terraplanismo do presidente, por que eles colocaram aqui 100% a mais do que haviam investido no ano anterior? O desastre deveria ter acontecido, é claro – mas não aconteceu, porque as análises dos economistas brasileiros refletem apenas os seus desejos, e raramente os fatos.

 

O Brasil, em 2021, recebeu quase 60 bilhões de dólares em investimento estrangeiro direto. Com esses números, aliás, foi o sétimo país mais procurado pelos investidores internacionais em todo mundo – só ficou abaixo de países como Estados Unidos e China, que por definição têm de ser os maiores, e de competidores com economias privilegiadas, como Canadá e as potências comerciais da Ásia. É a comprovação numérica, mais uma, da distância que separa o Brasil real do Brasil da mídia.

 

Com Bolsonaro, cantava o coro de economistas e comunicadores até a divulgação das informações da ONU, o Brasil tinha se transformado num “pária” da comunidade financeira mundial. Empresários, banqueiros e investidores, com suas sensibilidades sociais chocadas, não iriam mais aplicar dinheiro num país que “queima a Amazônia”, ou “persegue os índios”, ou “utiliza agrotóxicos”, ou “produz efeito estufa”, ou tem um presidente “de direita”, ou “acaba com as girafas”, ou “mata Marielle”. Onde foi parar essa conversa?

 

O público não receberá nenhum pedido de desculpas pela má qualidade da informação que recebeu. Ao contrário: vai continuar ouvindo mais do mesmo. Que fazer, então? A saída disponível é não levar essa gente a sério.


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A NEGAÇÃO DO JORNALISMO - 19.01.22


Por J.R.Guzzo  

 

A impressão é que o sonho de muito jornalista brasileiro é trabalhar num grande Pravdanacional, com redação única e Lula na cadeira de redator-chefe.

 

Parece destinada em breve ao cemitério, por falência progressiva dos motivos que tinha para manter-se viva, uma das piores ideias que a imprensa brasileira já teve em seus 200 e poucos anos de existência. Com a diminuição dos casos de covid, e o seu desaparecimento das manchetes e do horário nobre da televisão, pode estar caindo em exercício findo, como se diz em português de funcionário público, o “consórcio” dos principais veículos da mídia brasileira para divulgar em conjunto os mesmos números diários sobre mortos na epidemia. Virou uma coisa de religião. Só esses números, segundo os jornalistas, são (ou eram) a verdade, o caminho e a luz. Ficou a cargo do “consórcio”, desde o dia em que foi criado, o direito exclusivo de dizer quantas pessoas tinham morrido na véspera — nenhum outro poderia ser admitido, sob pena de incentivo ao genocídio e sabe lá quanta desgraça ainda pior. Não haveria mais perigo, a partir daí, de que “o Bolsonaro” inventasse números e acabasse, em sua estratégia de “desinformação”, com os objetos de desejo mais intensos que a imprensa brasileira já teve em tempos modernos: o “fique em casa”, a máscara e o uso do álcool em gel.

Durante meses a fio, ou até mais, era o momento do dia mais empolgante para muito jornalista deste país: a hora de fechar os mortos da edição com o número sagrado que baixava do “consórcio”. Quanto mais alto o número, maior a alegria nas redações, secreta ou sem disfarce. “Yesssss!”, exultava-se intimamente, a cada vez que os números produzidos pelo “consórcio” batiam recordes — diários, mensais, quinzenais, nos dias ímpares, nos dias de chuva, nas vésperas de feriados, nos dias santos e por aí afora. Era sinal, então, que a covid continuava a toda. Isso, no tumulto mental de muito comunicador, iria enfraquecer o governo Bolsonaro, apressar o fim do capitalismo e dar um impulso decisivo nas lutas pela diversidade, por mais terras para os índios e contra o aquecimento global.

Foi um momento de ruptura violenta com a vida inteligente, mas, até aí, tudo mais ou menos bem — são coisas que acontecem e depois, com o passar do tempo, se dissolvem em sua própria mediocridade orgânica. O que chama a atenção no “consórcio de mídia” é a brutalidade do equívoco profissional cometido por quem imaginou e criou essa deformidade. É simples. O consórcio é a própria negação da ideia mais elementar do jornalismo independente: a capacidade, por parte de cada órgão de imprensa, de apurar, escrever e publicar as notícias que julga de interesse para o público, sem consulta aos vizinhos, sem a sua licença e sem a interferência de ninguém. Não deveria ter existido, em nenhuma circunstância — até por uma questão mínima de amor-próprio.

Os editores, nesse episódio, não apenas levaram os veículos a abrir mão do principal patrimônio que podem ter: a sua identidade como órgão de fé pública. Nessa condição, espera-se que um jornalista não renuncie à sua liberdade de publicar o que acha correto para os leitores, ouvintes ou expectadores — e que assuma a responsabilidade plena pelo que está publicando. Os criadores do “consórcio” deram, além disso, uma demonstração de vacilo profissional. Por que pedir ajuda ao concorrente para publicar uma notícia? Será que a gente não tem competência para apurar as nossas próprias informações? Onde foi parar a vontade de competir e de dar matéria melhor que a do competidor? É a vitória do conformismo de rebanho — o importante é obedecer a ordens, ser igual ao colega, aceitar, colocar “limites” na liberdade individual, seguir um comando político. Disso não sai nada que preste. Só um Saara mental — um deserto sem sombra, sem vida e sem alegria.

Não adianta nada, obviamente, dizer que cada órgão de imprensa tem um representante no “consórcio”. Por que diabo, então, o representante não entrega ao seu próprio veículo o que está entregando ao “consórcio”? A partir daí, cada veículo que cuide da sua vida e trate de fazer mais e melhor que a concorrência. Se é para o sujeito colaborar com o conjunto e doar a todos os outros membros do “consórcio” a sua informação, em vez de levá-la ao lugar onde ele próprio trabalha, porque tanto jornal, rádio ou emissora de televisão assim? Por que quando cai um avião, por exemplo, não se junta todo mundo para dar o mesmo número de mortos e feridos? Vidas são vidas, é o que a mídia diz sem parar há quase dois anos. Morto de desastre de avião seria menos importante, então, que morto de covid? Não faz nexo. É uma busca inédita, insaciável e irracional pelo coletivo; a impressão é que o sonho de muito jornalista brasileiro é trabalhar num grande Pravda nacional, com redação única, Lula na cadeira de redator-chefe e nenhum outro veículo em circulação.

É a mesma coisa, ou uma ideia ainda pior, com as “agências de verificação” que se dedicam a verificar aquilo que os seus donos consideram “notícias falsas”, ou fake news. São os censores de 2021 — uma criação não da autoridade pública nos regimes de força, como sempre é o caso nos mecanismos de censura, mas dos próprios jornalistas. Seria difícil, tempos atrás, acreditar que um jornalista profissional pudesse se tornar um defensor extremado da proibição de dar notícia — ou do castigo, inclusive penal, para quem publicar notícias proibidas pelas “agências”. Mas é isso, exatamente, o que aconteceu. Grupos particulares, sem identidade jurídica ou fiscal, sem diretores legais ou endereço, deram a si próprios o direito de dizer o que é verdade e o que é mentira em tudo o que a mídia publica ou pode publicar. É claro que têm um viés político, e mais claro ainda que viés é esse: não há uma única agência de fake newsfazendo vigilância sobre notícias falsas contra o governo federal, por exemplo. Todas, sem exceção, variam da esquerda para a esquerda. “Falso”, naturalmente, é tudo aquilo que o grupo não quer que seja publicado.

Ao se associarem às “agências de verificação”, os órgãos de imprensa, mais uma vez, estão entregando a terceiros uma parte essencial de sua alma: definir sem interferência de ninguém o que é correto e, portanto, passível de publicação. Um veículo de respeito está aí para isso: apurar as suas próprias informações, publicar o que considera fiel aos fatos e assumir a responsabilidade pelo que publicou. “Se saiu impresso, ou foi ao ar, é porque nós fizemos o nosso trabalho, verificamos exatamente o que aconteceu e garantimos que isso aqui é verdade. É por esse motivo que o público paga para ter acesso ao que nós publicamos. É esse o nosso trabalho. Não é o governo, nem uma empresa, nem uma entidade qualquer, seja qual for, que estão nos instruindo ou autorizando a dizer isso ou aquilo; somos nós mesmos.”

Um órgão de imprensa de verdade não precisa de agência de fake news — faz o seu trabalho de verificação por conta própria, e o selo de qualidade de suas informações não tem de ser dado por ninguém, a não ser por ele mesmo. Também não faz o papel de polícia do conteúdo alheio, e nem terceiriza a própria credibilidade. Se essa ou aquela notícia não saem, é porque os jornalistas deste ou daquele veículo constataram que ela não é verdadeira; não é porque a “agência de verificação” não deixou. Não dá para entregar a outros, para quem está interessado em fazer jornalismo a sério, a tarefa de apurar nada do que é publicado. Ou você é responsável por tudo o que publica, ou não é. Não há meio-termo.

Os jornalistas brasileiros adoraram o “consórcio” e as “agências”. Não há nada de bom, em nada disso aí, para leitores, ouvintes e telespectadores.


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