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Crise reforça a exigência de ética e compliance - 24.09.2020


por Telmo Schoeler, publicado ontem no Jornal do Comércio.

 

Recentemente, um alto executivo de uma empresa de auditoria global revelou o tamanho do desafio que o Brasil enfrenta no campo da ética trazido pela pandemia da Covid19. Citando um estudo global, ele observou que o País tem o terceiro pior posicionamento, com metade dos entrevistados tolerando comportamento antiético na busca de resultados para superar as dificuldades.

O fato, obviamente, é péssimo a longo prazo. A cada dia que passa, valores como ética, compliance, integridade e legalidade, crescem como imposições fora das quais simplesmente não haverá sobrevida e sustentabilidade das organizações. Independente de crises, opiniões ou vontades. Ora, é preciso incorporar os bons exemplos de empresas que não focam apenas no retorno aos acionistas, passando a uma lógica de capitalismo consciente e inclusivo, com retorno a todos os “stakeholders”, incluindo as considerações ambientais. Por isso, o nome ESG, que significa respeito aos indivíduos, à sociedade.

A B3 anunciou a revisão da metodologia do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE). A intenção é atrair investidores interessados em companhias que adotem boas práticas ambientais, sociais e de governança. Então vai ampliar a ênfase no G, na governança, como em outros países. Essa resolução consolida o compliance, ainda mais no seu papel estratégico nos negócios.

A crise atual e as mudanças por ela acarretadas, certamente serão superadas a curto prazo. A questão é o ESG e os seus princípios de Governança e gestão, que significam sustentabilidade e criação de valor no longo prazo. Nisso, os bons valores passaram a ser impositivos para captar dinheiro, contratar, produzir produtos e serviços, vendê-los, etc. E esse é o princípio das empresas que compõem o ISE da B3 cujo valor de mercado ultrapassa R$ 1.6 trilhões.

A despeito da pesquisa desalentadora, a realidade é que estamos no caminho da correção de rumo, hábitos e tradições secularmente erradas. A Lava jato, com as prisões de figuras notórias e os protestos diante da corrupção, ilustram bem isso.

E o empresário, que focar apenas em soluções paliativas, terá insucessos, pois todas as ações são infrutíferas quando passam ao largo dos corretos objetivos de longo prazo.

Ser ético, respeitoso e legalista é atemporal, impessoal, absoluto e, por fim, Shakespeariano... to be or not to be.


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ECONOMIA EM XEQUE - 22.09.2020


Texto do pensador Marcio Coimbra, publicado no jornal O Tempo de ontem, 21/9.

 

Na medida que cresce a popularidade de Bolsonaro, crescem também os GASTOS PÚBLICOS da rede de proteção social iniciada pela pandemia. O chamado “auxílio emergencial” foi essencial para que os números presidenciais galgassem pontos importantes nas pesquisas de opinião. A reversão desta popularidade, entretanto, será uma realidade na medida que os efeitos da pandemia se impuserem na economia.

O plano era rebatizar o Bolsa Família de Renda Brasil e turbiná-lo com recursos, carimbando o principal programa assistencial brasileiro com uma marca que remete ao governo atual. O mesmo plano que já foi iniciado com o “Minha Casa, Minha Vida”, que passou a se chamar “Casa Verde Amarela” e o PAC, Programa de Aceleração do Crescimento, repaginado como “Pró-Brasil”.

 

No caso do Renda Brasil, o problema é mais profundo. Falta ao governo, até o momento, encontrar mecanismos para financiá-lo. O auxílio emergencial durante a pandemia, que distribui R$ 600 mensais, se tornou um programa de R$ 51 bilhões/mês para algo como 60 milhões de pessoas. Para efeito de comparação, o Bolsa-Família custa R$ 3 bilhões/mês para pagamentos a 14 milhões de famílias.

 

Se o auxílio emergencial se transformasse no Renda Brasil,  custaria R$ 612 bilhões por ano. Se cortado pela metade, ou seja, se fosse de R$ 300 mensais, ainda assim custaria R$ 306 bilhões/ano, praticamente 10 vezes o Bolsa Família/ano e o mesmo valor do total de gastos de custeio e investimentos do Orçamento federal. Um projeto inviável.

 

O governo tentou meios de custear este auxílio com outras fontes, o que causou a ira do presidente Bolsonaro com a equipe econômica, sepultando inclusive o nome do programa. O Renda Brasil, desta forma, morreu sem jamais ter nascido, mas o problema de uma popularidade turbinada por um auxílio que tem data para acabar preocupa o Planalto.

 

O impacto da diminuição do valor do auxílio pode erodir a popularidade do Presidente em pouco tempo, especialmente porque não existe um plano claro de transformação do mecanismo em programa de transferência de renda, tampouco recursos para operar este movimento. A situação é grave.

 

Hoje o número de beneficiários do auxílio emergencial é maior que o de trabalhadores com carteira assinada em 25 Estados brasileiros. Para cada trabalhador com carteira assinada, há quase dois recebendo o benefício. As pessoas recebendo o auxílio já correspondem a 68% dos 96,1 milhões da força de trabalho. No Maranhão, por exemplo, há cinco pessoas recebendo o benefício para cada empregado com carteira. Isto explica que o tombo na economia pode não ser tão grande este ano, mas escancara o fato de que (sem auxílio) o pior está por vir.

 

É preciso entender que a recuperação brasileira será muito mais lenta e dolorosa que se imagina. Nossa economia, que nunca foi robusta, sofreu um enorme abalo com a pandemia e diante do corte do auxílio emergencial, irá encarar a realidade somente no ano que vem. Sem recursos ou reformas, com economia desarrumada e refém de um déficit recorde, o Brasil tem muito que se preocupar, assim como Bolsonaro. Diante desse cenário, não há narrativa que sustente sua popularidade e garanta sua reeleição.


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Como é a vida fora da "reserva ecológica do funcionalismo" público - 18.09.2020


         Eis o ótimo texto do jornalista J. R. Guzzo - publicado ontem na Gazeta do Povo

 

 

 Todos os dias, ou quase isso, o público recebe provas e contraprovas de que há dois Brasis vivendo no mesmo espaço, na mesma época e sob a mesma Constituição, mas com direitos diferentes entre os seus habitantes. Uns são cidadãos de primeira classe; formam cerca de 5% da população e têm empregos na máquina do Estado. Os outros 95% são de segunda classe; têm de sobreviver à custa do seu próprio esforço e pagam pelo sustento, pelos benefícios, pelos privilégios e pela segurança dos primeiros. Sua vida, entre outras coisas, é muito mais arriscada.

 

O mais recente demonstrativo dessa realidade é o que está acontecendo com os funcionários da Volkswagen em São Paulo e no Paraná. Ninguém pode nem sequer pensar, por dois minutos que seja, em congelar os salários do funcionalismo. Não se trata de reduzir, mesmo com redução de horas trabalhadas, e muito menos de mandar alguém embora – trata-se apenas e tão somente de não aumentar os salários, e assim mesmo só por um período limitado de tempo, enquanto durar a devastação econômica da Covid-19. Não pode: a lei não deixa, mesmo porque isso aí é ideia “fascista, contra a democracia e contra as instituições”.

 

Já os sindicatos de trabalhadores da Volkswagen, cujos associados fazem parte dos 95% de cidadãos de segunda categoria mencionados acima, acabam de aceitar uma proposta para ganhar menos em troca de uma garantia temporária de emprego.

 

Ao contrário dos sindicatos de professores públicos (que, por sinal, ameaçam fazer greve contra a reabertura das escolas), de juízes de direito, de empregados dos correios, etc. etc. etc, as organizações de cidadãos privados não se podem dar ao luxo de escolher suas condições de trabalho; vivem no mundo real da economia, e adaptar-se a ele é uma questão de sobrevivência. Não têm quem pague os seus boletos, nem garanta os seus empregos até a aposentadoria, com vencimentos integrais.

 

A Volkswagen, que já teve na casa dos 40 mil funcionários aqui no Brasil, está hoje com 15 mil, por conta do avanço da automação e de condições de mercado. Pode ainda cortar um terço disso. Também não tem escolha: ou reduz ou vai à falência, num país que já produziu mais de 3,7 milhões de veículos num ano, menos de 20 anos atrás, e que em 2019 ficou abaixo de 3 milhões de unidades.

 

Esta é a vida como ela é, no Brasil que vive fora da reserva ecológica do funcionalismo público, protegida por todas as leis e por todos os direitos.


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