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EM BUSCA DO PODER ETERNO


Texto do pensador Percival Puggina 20/05/2020

 

 

 Em “o Retrato de Dorian Gray”, o personagem criado por Oscar Wilde tem as mudanças físicas que o tempo determina transferidas para o retrato que tanto o encantara, enquanto ele, numa vida de crescente devassidão, permanece eternamente jovem.

 

Ainda mais sedutora que a eterna juventude é a eternidade do poder. Sobre isso, aliás, escreve Oscar Wilde:

Influenciar uma pessoa é dar-lhe a nossa própria alma. O indivíduo deixa de pensar com os seus próprios pensamentos ou de arder com as suas próprias paixões. Suas virtudes não lhe são naturais. Seus pecados, se é que existe tal coisa, são tomados de empréstimo. Torna-se o eco de uma música alheia, o ator de um papel que não foi escrito para ele.

 

Esse resultado, extremamente gratificante, que produz tão radical entrega do “eu” alheio, é um fenômeno comum na comunicação social. Durante séculos da história da imprensa, o ambiente fumegante das salas de redação e o matraquear das máquinas de datilografia, os estúdios de rádio e TV, eram espaços de um poder com titulares eternos, desestabilizado pela atividade caótica, mas profundamente democratizante das redes sociais. Esse espaço é duplamente democratizante porque, de um lado está acessível a quem queira ali atuar e, de outro, reduz a concentração de poder até então exercido por número limitadíssimo de indivíduos.

 

Tornou-se frenético o mostruário das interpretações. Quaisquer fatos se expressam em mil formatos e suscitam mil boatos. Há um conflito aberto entre a mídia formal e as redes sociais. Aquela se apresenta como sendo o jornalismo sério e declara as redes sociais como ambiente prioritário das fake news.

 

Nem tanto ao mar, nem tanto à praia. A grande mídia simplesmente não noticia boa parte do que não serve aos seus objetivos. Ela pode ser, ou se tornar, tão politicamente orientada quanto costumam ser muitas redes sociais. Alinhou-se de tal modo à esquerda brasileira que esta tem preferido terceirizar sua ação política. Usa e abusa das fake análises. Parece óbvio que veículos de grande público adotam cautelas para evitar o terrível desconforto de divulgar notícias falsas (as conhecidas “barrigas”) que demandam constrangidos pedidos de desculpas. Não se diga o mesmo, porém, sobre as análises incongruentes com os fatos, montadas sobre premissas falsas.

 

Vejo com entusiasmo libertador a atividade das redes sociais. É um território de comunicação povoado por analistas brilhantes. Mas há também, nesse mundo caótico, o veneno das fake news, que só servem para desacreditá-las. É preciso combater essa maldição que permite à mídia militante dar vazão a seu antagonismo. Diariamente recebo dezenas de notícias falsas, informações erradas, textos atribuídos a autores que não os escreveram, imagens adulteradas.

 

A mentira, assim como a falsificação e outros modos de enganar o próximo, é uma forma gravíssima de corrupção. É corrupção de algo precioso, de um bem tão valioso quanto a esperança. A mentira é a corrupção da verdade. As deformidades no retrato de Dorian Gray podem servir como advertência a quem abusa de um poder que crê eterno.


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UM REINO DIVIDIDO CONTRA SI MESMO


Texto do pensador Percival Puggina  - 18/05/2020

 

A sociedade brasileira conviveu, por várias décadas, com uma letargia que permitiu serem dizimadas suas convicções, sua cultura, seus valores. Sob pressão do politicamente correto, por falta de qualquer contraditório minimamente eficiente, permitiu que se instalassem os divisionismos sobre os quais muito se tem escrito. Em nome da diversidade, ressaltaram-se as diferenças e se instalaram antagonismos onde diferenças houvesse: relações familiares, etárias, laborais, sociais, de cor da pele, de sexo, sempre criando muralhas intransponíveis, conflitos e uma diversidade bizarra. Das entranhas da estupidez humana surgiam, então, as modernas formas da luta de classes numa sociedade que consentia em dividir-se e em dar curso a esse fenômeno.

 Ao longo dos anos, observando o unilateral uso político dessa patifaria sociológica se converter em pautas dos poderes de Estado, cuidei de denunciar a causa e sublinhar seus efeitos.

 Aquela maioria dormente rugiu seu despertar nas ruas e no subterrâneo das redes em que os “coxinhas” clamavam contra os males feitos ao país. A hegemonia estabelecida nesses dois espaços de expressão suscitou muita malquerença. Era inaceitável que surgisse “do nada” uma força política vitoriosa exatamente nos dois nichos de opinião – habitados por conservadores e liberais – sempre inoperantes, passivos, letárgicos. Os dois adjetivos ocupavam lugar de destaque nos xingamentos da esquerda. Como entender que saíssem do armário em que eram contidos para, no momento seguinte, se tornarem vitoriosos nas urnas? Você tem ideia, leitor, de quanto poder ali foi perdido?

 Infelizmente, o sucesso eleitoral esbarrou com a resistência dos outros poderes. E surgiu no Brasil uma nova divisão, um novo antagonismo, muito mais severo. Verdadeiro seccionamento da sociedade. De um lado o governo e seus eleitores cientes do risco de uma derrota no curso do mandato; de outro o Congresso e o STF, e a militância da esquerda, na mídia, na Universidade, no ambiente cultural. Para criar novas divisões, há eleitores do presidente que cobram dele que faça o que não deve e adversários que o acusam de já haver feito o que não deve. Há as provocações de Celso de Mello, as demandas ridículas de Lewandowski, as intromissões de Alexandre de Moraes. Desaforos em cascata e a sociedade que se dane. Se o povo na rua ainda afasta os golpistas, a mídia militante se empenha em desdenhá-lo, descredenciá-lo. No reino dividido, tudo está politizado e, pior do que isso, judicializado: da hidroxicloroquina ao atestado médico, da indicação de um novo diretor-geral da PF às formas de isolamento.

Como não vir à mente as palavras de Jesus no evangelho de Mateus (12:25): “Todo o reino dividido contra si mesmo é devastado; e toda a cidade, ou casa, dividida contra si mesma não subsistirá.”

Está faltando juízo a muita gente que, graças à posição que ocupa, se lixa para o padecimento do Brasil real.


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A MIXÓRDIA INSTITUCIONAL BRASILEIRA


Texto do pensador Percival Puggina

 

Quanta falta faz ao Brasil uma boa reforma institucional! Em nosso país, o pau que bate nas consequências se ergue em defesa das causas. Supõe-se, creio, que as coisas se corrijam, ou que surja um grande corregedor que porá tudo no devido lugar. Não é assim que a banda toca.

Desde que começaram as mobilizações de rua, só não participei daquelas que ocorreram quando eu não estava em Porto Alegre. Mas sempre tive a consciência de que se tratava de um excepcional momento político. Uma janela no paredão da história. A esperança nascida nas redes e nas ruas hoje se surpreende com a perspectiva de que nosso país - este pobre rico de nossos afetos cívicos - apenas sobreviva, e mal, a sucessivos e frustrados acordos, tão velhos quanto errados sobre temas da mais alta relevância.

Com efeito, no Brasil que emergiu do ano de 2018, parcela significativa da sociedade foi mobilizada pelo desejo de mudança e por uma justificada idealização da nova realidade nacional. Não preciso descrever o quanto tais perspectivas desgostavam as forças políticas e culturais que viam seu poder liquefazer-se, e sentiam o gélido medo de verem as teias de aranha avançarem sobre as gavetas do caixa. Não preciso descrever, tampouco, a vigorosa resistência dos interesses contrariados. Tanto vimos isso acontecer que continuamos indo às ruas.

Eis por que, nestes tempos de isolamento, me vem à mente a consolidada convicção de que tratei no último capítulo de meu livro "Pombas e gaviões" (2010) no qual respondo à pergunta - "O Brasil tem jeito?". Ali, numa antecipação de dez anos, está a descrição das dificuldades enfrentadas por este novo governo, cuja atualidade faz prova provada de que não nos basta mudar as pessoas; é preciso mudar as instituições. E isso não significa mudar apenas as pessoas que as integram, mas mudar as instituições elas mesmas. Senão, vejamos:

Nossas más instituições recompuseram o velho centrão um mês após o início da nova legislatura, em fevereiro do ano passado. Trinta dias bastaram para o velho esquema se reestruturar.

Nossas más instituições vêm fazendo com que o STF, numa clara usurpação, atue como poder moderador de uma República cuja constituição não menciona poder moderador! Sendo o presidente, ao mesmo tempo, chefe de Estado e de governo não pode ele ser poder moderador de si mesmo. E mais, se não comprar maioria parlamentar acaba sendo o mais fraco e instável dos poderes.

Nossas más instituições não dispõem de mecanismo de solução de conflitos entre os poderes e levam o povo a uma justificada ojeriza por seus membros.

Nossas más instituições não refletem sobre si mesmas e não se reciclam por serem as beneficiárias singulares dos desarranjos nacionais.

Nossas más instituições criam insegurança jurídica e não se mudam - por isso, precisam ser mudadas.

Nossas más instituições não permitem dissolver o parlamento e induzem à conduta irresponsável e inconsequente.

Nossas más instituições não tem como reagir quando ministros do STF instituem uma governança paralela, impondo ao governo seu querer. Membros do Supremo frequentam a ribalta da comunicação social, imiscuindo-se publicamente em assuntos de governo.

Mais uma vez em nossa história republicana, sob esse mesmo malsucedido figurino institucional - referência de insegurança jurídica, malgrado seu todo poderoso STF! - se vai restabelecendo a mixórdia e o Brasil ficando com cara de republiqueta bananeira.


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O VÍRUS ANTICAPITALISTA


Texto do pensador Roberto Rachewsky 

 

Ontem saí de casa atrás do vírus.

Precisava ter uma conversa com ele, cara-a-cara.

Coloquei minha máscara no bolso e me pus a caminhar e correr. Fazer isso com o rosto tapado é muito desconfortável, além de ser desnecessário. Quando me aproximava de alguém, vestia a máscara porque, afinal, os outros não sabem se eu estou ou não infectado. Então, colocava-a para não parecer um agressor desmascarado.

Andei pelo bairro, subi e desci lombas, aumentei e diminui os passos, até que finalmente encontrei o tal Novel Coronavírus (2019-nCoV) sentado num banco da praça.

Sentei-me no banco em frente e fiquei a uma distância razoável porque achei melhor não lhe dar muita intimidade.

Ele me olhou, eu o olhei e a conversa começou.

- Por que os mais velhos? - perguntei.

- Porque Deus quis. - respondeu-me com aparente sinceridade.

- Deus? Deus te mandou aqui para você matar os mais velhos? - perguntei meio incrédulo.

- Não exatamente. Ele me pediu para levar os doentes que já deveriam ter ido, mas que continuam aqui por causa do capitalismo.

- Por causa do capitalismo? O que Deus sabe sobre capitalismo e o que o capitalismo tem a ver com isso? - indaguei.

- Deus vem observando a humanidade esse tempo todo. Ele tem visto que vocês conseguiram transformar o egoísmo natural do ser humano em bem estar para a humanidade. Para enriquecerem, para viverem mais, para viverem melhor, vocês ajudam o próximo. Deus está vendo. Realmente é incrível que uns até ajudam desconhecidos que vivem do outro lado do mundo para o próprio benefício.

- Sim. É isso que tem acontecido, mas o que isso tem a ver com o capitalismo?

- Tudo! Deus é onisciente. Ele sabe. Muitos dos que já deveriam estar na companhia Dele foram impedidos de ir por causa dessa ideologia. Veja só o que fizeram nos últimos dois séculos? Acabaram com a escravidão. Venceram tiranos malévolos. Reduziram 90% da pobreza no mundo. Deram dignidade a bilhões que viviam na miséria na África, na Índia, na China e em outros lugares. Capitalismo.

- Mas porque levar nossos tios, pais e avós só porque estão doentes?

- Porque assim deveria ser a vida. Vocês nascem, crescem, adoecem e morrem. O capitalismo quer acabar com isso. Por qual outro motivo vocês contam com as vacinas, com os equipamentos médico-hospitalares, com os remédios, com as academias de ginástica, com as esteiras ergométricas, com os suplementos alimentares, com a pesquisa nutricional, com a tecnologia para diagnósticos e com os avanços da medicina nas terapias e cirurgias. É o capitalismo impedindo as pessoas de irem para o céu.

- Mas qual o motivo então para você levar alguns jovens?.

- Acidente de trabalho, dano colateral. Mas também para causar um pouco de medo. Vocês mimam demais os pequenos protegendo-os como nunca fizeram.

- E para que serviria o medo?

- Porque eu sou o Novel Coronavírus(2019-nCoV), Deus me deu uma missão. Levar para o céu os velhinhos que já têm uma ou mais doenças que, se não fosse pelo capitalismo, já teriam ido. Então eu resolvi, por conta própria, pedir a ajuda dos governos que também não gostam do capitalismo, como eu. O medo os faria mandar todo mundo ficar em casa. Parar de trabalhar e deixar de produzir o que acabou com a fome e a miséria. Além disso, facilitam o meu trabalho. Sabe como é, todo mundo fechado em casa, o contágio é muito mais rápido. É isso aí. Eu trouxe o medo, os governos vão me ajudar no serviço mandando mais gente para o céu do que eu. Fome, desespero, suicídio, falta de atendimento, e tudo aquilo que o altruísmo dos parasitas acaba produzindo. Você verá. No final disso tudo, os governos terão causado mais danos do que eu.

Me despedi. Coloquei a minha máscara e voltei para casa para escrever esta crônica indigesta.


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REVOLUÇÃO GLORIOSA NO BRASIL


Texto do pensador Roberto Rachewsky

 

Diziam que o Brasil era um país laico. Ora, vendo as ações de alguns governadores e prefeitos que agem com base em crenças típicas de uma seita, apesar de rotularem-na de ciência, concluo que precisamos iniciar uma REVOLUÇÃO GLORIOSA no Brasil, SEPARANDO ESTADO DE RELIGIÃO. 

Tendo em vista que o governo, com base nessa seita, intervém na rotina das pessoas aniquilando seus meios de vida, é preciso também SEPARAR ESTADO DA ECONOMIA.

Tendo em vista que há uma maioria entre a população que se mostra muito bem domesticada, que não só aceita como agradece que o governo lhe tire a liberdade, fica clara a necessidade de SEPARAR O ESTADO DA EDUCAÇÃO.

Sabendo-se que o governo tem usado para justificar suas medidas autoritárias modelos hipotéticos comprovadamente equivocados, tidos como estudos científicos que são por ele financiados, urge SEPARAR O ESTADO DA CIÊNCIA

Como pararam a economia porque o governo gerencia um sistema único de saúde que não consegue oferecer o mínimo de estrutura para atender a população numa hora de necessidade, há que se SEPARAR O ESTADO DA SAÚDE.

Dado o fato de que os brasileiros são espoliados a vida inteira para formarem uma poupança que será utilizada por terceiros, se vivos estiverem na data da sua aposentadoria, sem juros nem correção, é também desejoso SEPARAR O ESTADO DA PREVIDÊNCIA.

Poderia resumir tudo isso dizendo que LIBERDADE É TER O GOVERNO SEPARADO E AFASTADO DAS NOSSAS VIDAS, cabendo a cada um a responsabilidade de sustentá-la com os frutos do próprio trabalho.

Para que serviria então o governo? Para PRENDER BANDIDOS que querem usá-lo para nos FAZER DE ESCRAVO.

 


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A REALIDADE, O COVID-19 E O PT


Texto do pensador e vereador de Porto Alegre, Ricardo Gomes

 

Quando não se pode vencer um adversário em um debate, cria-se uma imagem distorcida do adversário - e passa-se a debater com a imagem criada. Essa é uma velha tática de pura desonestidade intelectual. A estamos vendo ser aplicada todos os dias na Câmara de Porto Alegre.

Diversos Vereadores em Porto Alegre tem adotado (e isso foi refletido em um projeto de lei aprovado) uma postura cautelosa e não radical: reconhecer a importância da economia para a manutenção das famílias sem abrir mão dos cuidados com a saúde. Isto é: conciliar cuidados com a saúde (uso de máscaras, álcool, medidas sanitárias) com a reabertura gradual da economia.

O Partido dos Trabalhadores não pode enfrentar essa posição moderada sem admitir que não está defendendo, veja só, os trabalhadores. O que fazem os petistas? Criaram um radicalismo falso, um “libera tudo e deixa morrer” que jamais foi defendido por ninguém na Câmara - e certamente não é o que está no projeto aprovado. Agora debatem falsamente com ele.

A essa tática somaram-se alguns jornalistas, para sucesso do estratagema petista. Não sei se por conveniência, medo, desaviso ou sinceridade. Cada um terá os seus motivos.

Em verdade, a contraposição não é entre os “libera tudo” e os “salva-vidas”. Ela é entre quem enxerga a realidade e quem nega a realidade. Um lado vê que os empregos vão sumir. Que com os empregos se vai o plano de saúde, a escolinha dos filhos, às vezes a moradia mais digna. Sem o emprego há mais miséria, mais gente dependente de programas de governo, mais dependência dos serviços públicos. Uma sobrecarga das escolas públicas e do SUS está logo ali, no horizonte. E serão enfrentadas por governos sem receitas (porque a atividade econômica é que sustenta os governos).

Do outro lado, uma velha fantasia, já testada e fracassada. Sem as empresas privadas, o pai governo cuidará das pessoas. Haverá mais programas sociais. Os gastos públicos gerarão demanda. Empréstimos com juro subsidiado criarão mais empregos. Se faltar dinheiro, é possível imprimir moeda! Plano Marshall! New Deal! Fácil, tudo se resolve nas mãos do Estado. Jamais funcionou, mas isso não é suficiente para demover quem nega a realidade.

Como disse Ayn Rand, “você pode ignorar a realidade, mas não pode ignorar as consequências de ignorar a realidade”. Ou vamos para um caminho de abertura responsável, com proteção às pessoas, ou vamos para o abismo.


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