Espaço Pensar +

1953, SESSENTA E OITO ANOS DEPOIS - 29.10.21


por Mateus Bandeira - Gazeta do Povo

 

 

Parodiando uma brincadeira de criança, poderíamos dizer que um preço de combustível incomoda muita gente, dois preços de combustível incomodam muito mais.

 

Já em 1930, o Conselho Nacional do Petróleo, enquanto examinava as solicitações de pesquisa e exploração do óleo em nosso território, trabalhava no regramento de como deveria ser realizada, do ponto de vista legal e dos melhores interesses brasileiros, esta exploração.

 

Após anos de intenso debate, foi criada a monopolista Petrobrás, em 1953, pelas mãos do Presidente Getúlio Vargas, coroando a exitosa campanha “o petróleo é nosso”.

 

De lá para cá, mesmo com todas as mudanças na legislação sobre a exploração, distribuição e governança do petróleo e seus derivados, as tentações de intervenção governamental na fixação dos preços dos combustíveis foram invencíveis. Todos os incomodados cederam ao cântico sedutor das sereias ou, simplesmente, não resistiram às múltiplas oportunidades de votos ou negócios, sempre com resultados catastróficos, pelo menos para o Brasil. Somente a politica de preços da era Dilma custou R$ 100 bilhões aos bolsos de todos nós.[1]

 

A tarefa de resistir à tentação parece ser tão grande quanto os 61% de brasileiros que defendem a intervenção presidencial nos preços da gasolina, segundo pesquisa Exame/Ideia, publicada em 26 de fevereiro deste ano.[2] O Congresso Nacional, legítimo representante de nossa gente, não deve ter percentuais de opinião muito diferentes.

 

Agora, neste 2021, quase pós-pandemia, mais uma vez, a gasolina está na casa dos “dois preços”. A lista de fatores concorrentes para isto, internacionais alguns e nacionais outros, é conhecida.

 

Primeiro, a cotação do petróleo vem aumentando desde o início do ano, com o preço do barril ultrapassando US$ 80.00 em setembro passado - maior valor desde outubro de 2018. Esta alta decorre da retração da oferta - ação preventiva de parte dos países produtores (OPEP) diante da pandemia, combinada com um aumento da demanda decorrente da retomada das atividades econômicas em um ritmo superior ao esperado.

 

Depois, o câmbio. Países de moeda fraca, como o caso do Brasil, sofrem duplamente: além do aumento do valor do barril, o dólar também está mais caro.

 

Finalmente, além da paridade de preço de importação - medida acertada e necessária em função de nossa insuficiente capacidade de refino (quem iria importar gasolina com o preço interno artificialmente abaixo do mercado internacional? A consequência seria o desabastecimento); a elevação dos custos dos biocombustíveis - que entram na composição da gasolina e do diesel, e, claro, nossos impostos. Notadamente o ICMS, este insidioso vilão estadual, responsável, em muitos casos, por um terço do preço final do combustível.

 

Nesta análise simples da complexa cadeia de formação dos preços dos combustíveis, e da gasolina em particular, cabe uma notinha informativa: o Brasil ocupava, em 2020, em valores absolutos, a 35ª posição no valor do litro da gasolina entre 61 países e, em valores relativos ao gasto em relação à renda média, éramos o 11º colocado.[3]

 

O resultado da gasolina com preços nas alturas? Muita gente incomodada. Entre elas, o Presidente Jair Bolsonaro.

 

Nosso Presidente, constrangido pelas circunstâncias que o deixam com o ônus político dos aumentos de preço da gasolina, óleo diesel e gás, concedeu uma instigante entrevista à Rádio Novas de Paz, Pernambuco, no dia 14 deste mês:[4]

 

“Aumentou a gasolina, culpa do Bolsonaro. Eu tenho vontade, eu já tenho vontade de privatizar a Petrobrás. Tenho vontade. Vou ver com a equipe econômica o que a gente pode fazer. Porque, o que acontece… Eu não posso… não é controlar, eu não posso melhor direcionar o preço do combustível. Mas, quando aumenta a culpa é minha. Aumenta o gás de cozinha a culpa é minha; apesar de ter zerado o imposto federal - coisa que não acontece aí, por parte de muitos governadores. Reconheço que os governadores não podem zerar o ICMS. Mas, a cobrança do ICMS não pode ser feita em um percentual em cima do preço final da bomba.”

 

Não chegou a ser uma proposta de privatizar a Petrobrás. Talvez tenha sido uma queixa, talvez uma simples reflexão. Não me pareceu uma ameaça. Entretanto, diferente de outras falas presidenciais - propostas, comentários, simples piadas ou mesmo soluços, esta declaração não mereceu, por parte de nenhum setor, uma condenação apocalíptica. Podemos sonhar?

 

No momento em que o Brasil busca recuperar a plenitude de suas atividades socioeconômicas, e quando as pautas para o ano eleitoral começam a ganhar clareza, quem sabe a proposta de privatizar a Petrobrás não escapa de uma quase queixa presidencial e ganha contornos de seriedade?

 

Qual seria o impacto de transformar a secretaria hoje encarregada de privatizar órgãos e companhias menos representativas em uma Secretaria de Privatização da Petrobrás? E do Banco do Brasil? Qual seria a repercussão junto a investidores? O que perderíamos dos pontos de vista econômico ou estratégico?

 

E no plano político eleitoral, conseguiríamos eleger uma bancada com estes compromissos? Um dia estas propostas não elegeriam quase ninguém. E nos dias atuais?

 

Presidente, o ex-Senador Roberto Campos, entrevistado pelo jornalista Fernando Rodrigues, Folha de São Paulo, em 11 de outubro de 2001, respondeu assim à pergunta se ele teria tido poder, ou condições, para abolir o monopólio (então vigente) do petróleo:

 

“Esta é que é a história. Eu propus para o Presidente Castello Branco e ele achava que não havia condições históricas. Ele concordava com a tese, mas não tinha condições políticas para implementar.”

 

Presidente, a condição histórica, sessenta e oito anos depois da criação da Petrobrás, está posta. Crie as condições políticas. Abra o debate, Presidente. Vamos ver quantos se incomodam.

                  

 

[1] https://exame.com/exame-in/petrobras-politica-de-preco-da-era-dilma-custou-r-100-bi-mais-que-toda-lava-jato/

[2] https://exame.com/economia/exame-ideia-para-61-bolsonaro-deve-interferir-no-preco-dos-combustiveis/

[3] https://www.uol.com.br/tilt/colunas/pergunta-pro-jokura/2021/06/14/que-pais-tem-a-gasolina-mais-cara.htm

[4] https://www.youtube.com/watch?v=3QbPRj_L1rw


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HEGEMONIA OU POLARIZAÇÃO? - 28.10.21


por Percival Puggina
 
Há um poder multiforme instalado no país. Décadas de formação e consolidação lhe permitem agir por conta própria e com agendas próprias. Embora seja de esquerda e interaja com seus partidos, dispensa representação política, tal a liberdade com que opera. O poder multiforme vale-se da democracia e das instituições para agir até contra a vontade das urnas na comunicação, no ambiente cultural, no sistema de ensino, no Poder Judiciário, no Ministério Público. Controla seus militantes no aparelho estatal e, embora laicista, influencia diretamente algumas igrejas.

O nome disso é hegemonia, fenômeno nefasto à democracia, que só pode ser superado pelo surgimento de força oposta, em um novo polo, vale dizer, através de polarização. No desempenho de seu papel acusador, investigador e julgador, o ministro Alexandre de Moraes costuma elencar, entre as razões de seu enfado contra alguém, o “estímulo à polarização”, ou o “reforço ao discurso de polarização”. A palavra entrou para o circuito dos chavões sem sentido no mundo dos fatos contra os quais briga.

Polarização é condenada por quem quer ser “terceira via”, ou por quem rejeita o conservadorismo, como o ministro e a quase totalidade de seus pares. Por longos anos, a formação esquerdista constituiu atributo necessário à indicação para o Supremo.

Tão logo Bolsonaro foi eleito, tudo ficou muito evidente. Ele poderia ser perfeito como um cristal de Baccarat (coisa que, não é) e ainda assim desabariam sobre ele e seu governo os males que pudessem pedir ao deus da mitologia nórdica, Thor e seu martelo de raios e trovões. A eleição do novo presidente inquietou a hegemonia esquerdista no país. Os mais poderosos setores de influência política e cultural na sociedade brasileira não concedem a isso indulto, nem habeas corpus.

Pelo muito que a hegemonia significa para a imposição de um poder efetivo sobre a vida social, era preciso que o imprevisto eleitoral tivesse a mais curta duração possível. A derrota da esquerda não a destruiu nem a levou a parar com o que sempre fez. No entanto, serviu para dar nitidez à sua existência e para mostrar o quanto era necessário o surgimento de outro polo no espaço real onde vivem cidadãos comuns, com anseios também comuns por liberdade, ordem, segurança, justiça e progresso; cidadãos que prezam a sacralidade do espaço familiar, o direito de propriedade e de defesa; cidadãos que afirmam valores comuns à cultura ocidental de que são herdeiros.

É isso que nós, conservadores, sustentamos. Esse é o polo onde nos situamos, de onde não queremos sair, e onde persistiremos em agir, malgrado as dificuldades que nos são impostas pelos ardilosos que protegem sua hegemonia condenando a polarização.

Se até eu aprendi, lendo Gramsci, que a banda toca assim...


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O BOM-MOCISMO E OS INCENTIVOS - 28.10.21


Por Alex Pipkin

 

A mentalidade bom-mocista corrói valores, desincentiva comportamentos sadios e deprime toda uma sociedade.

Evidente que a razão é impactada pelas emoções, no entanto, quando não se pensa e se decide exclusivamente com base nos sentimentos, ficamos a um passo do inferno.

Tenho ouvido falar de pessoas que cometem “pequenos roubos”, de valores pecuniários pequenos, e/ou furtam para comer, o chamado crime famélico.

Aí ouço nossos “especialistas”, com vozes embargadas, dizerem que o furto ou o roubo foi apenas uma pequena quantidade de comida para satisfazer a necessidade de se alimentarem.

Sim, uma situação, mas quando isso ocorre de forma reincidente e com a autoria de um indivíduo com uma extensa ficha de outros tipos de furtos?

Imaginemos que toda à população “faminta” resolva furtar para “saciar a sua fome”. Como ficam os estabelecimentos, como por exemplo, os supermercados? Eles pagam a conta?

Não se trata de “não se ter coração”, porém, é fundamental atentar para os incentivos, pois eles importam e muito!

Basta irmos aos fatos, a criminalidade relacionada a esses furtos tem sido reduzida ou aumentada? Singelo.

Um argumento daqueles do bom-mocismo é de que a elite, a do colarinho-branco, rouba fortunas e nunca é condenada. Perfeito!

É justamente pela falta de incentivos aos comportamentos sadios, e devido a tatuagem da impunidade, que o roubo e a corrupção são mazelas diárias do cotidiano verde-amarelo.

Aliás, temos um ex-presidiário, condenado em várias instâncias do Judiciário nacional, concorrendo à Presidência da Republiqueta.

Não dá mesmo para aguentar esses sinalizadores de virtudes!

Qualquer um como um mínimo de conhecimento científico do comportamento humano, sabe que a ação humana é regida por incentivos, que mobilizam as ações.


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A IMPRENSA DOENTE - 27.10.21


por JR Guzzo, publicado na Revista Oeste de 21/10,

 

A “CPI da Covid” não está chegando realmente ao seu fim — está acabando, isto sim, com as marcas mais deprimentes de uma agonia. Essa aberração, uma das mais alucinantes que o Congresso Nacional produziu em toda a sua história, já estava destruída por uma metástase terminal antes mesmo de começar.

 

Foi armada para falsificar fatos, condenar inimigos políticos e fraudar as próximas eleições presidenciais, com uma tentativa grosseira de derrubar o presidente da República e evitar a sua candidatura em 2022; nunca teve, assim, a mínima intenção de apurar honestamente nenhum erro no combate à covid. Ao longo dos seis meses em que esteve viva, foi um trem fantasma que levou o país a patamares de baixeza nunca atingidos antes numa disputa política. Jamais apurou coisa nenhuma. Ocultou crimes. Comportou-se nos interrogatórios como uma delegacia policial de ditadura; ofendeu, perseguiu e pisoteou os direitos das testemunhas como cidadãos e como seres humanos. Mentiu a partir do primeiro dia, e não parou até o último. Entregou-se de corpo e alma ao falso testemunho e a provas que não convencem um aluno de curso primário. Não investigou coisa nenhuma — só acusou, como se os interrogados fossem criminosos e já estivessem condenados antes de abrir a boca. Inventou, e jogou em cima do governo, crimes que não existem na lei brasileira.

 

Não teve um único momento de luz. Era natural, nessas condições, que acabasse como acabou: num funeral de terceira categoria, com seus donos se comendo entre si e uma lista de acusações oficiais integralmente miserável na sua qualidade e na sua consistência.

 

Qual a surpresa? O relator da CPI, Renan Calheiros, é possivelmente o cidadão mais enrolado com o Código Penal Brasileiro que habita neste momento o Congresso Nacional — nove processos no lombo por corrupção estilo-livre, ou todos-os-estilos, fora 20 anos de frequência à seção policial mais pesada do noticiário político.

 

O presidente é outra piada sinistra: vem do Amazonas, o Estado onde mais se roubou dinheiro público destinado ao combate da covid. (Num certo momento faltou oxigênio em Manaus, uma responsabilidade direta e elementar das autoridades locais; meteu-se a mão em tudo, por ali.) Ele mesmo, Omar Aziz, aliado direto da politicalha local, esteve envolvido até o talo em investigações de corrupção na área da saúde; sua própria mulher e irmãos chegaram a puxar cadeia fechada sob acusações de ladroagem no mesmo setor. Nenhum dos seus principais subordinados, com problemas que foram da inépcia à histeria, teve comportamento melhor.

 

Nada mais natural, assim, que a CPI tenha acabado como está acabando — com acusações mútuas de jogo baixo entre os grupinhos que mandavam na operação, xingatório de mãe e falta de acordo, sequer, sobre a data de publicação do relatório. Pior: não se sabia até a última hora do que, exatamente, estavam acusando o governo. Nem isso, depois de seis meses inteiros sem pensar em outra coisa? Nem isso.

 

Da política brasileira, em geral, pode se esperar tudo, e do Senado, em particular, não se deve esperar nada — tudo normal, portanto, com o nível de qualidade infame da CPI.

 

O que sobrou de mais chocante no caso, na verdade, foi o comportamento que a mídia considerada de elite, a começar pelo julgamento que ela faz de si própria, teve diante de todo esse desastre. A imprensa brasileira, a partir do primeiro minuto, renunciou à sua função profissional de levar ao público informações objetivas sobre os fatos ligados à investigação — e de fazer suas análises com um mínimo de lógica e respeito às realidades.

 

Em vez disso, atirou-se a uma militância política aberta, agressiva e sem freios em favor do relator e do presidente da comissão, mais os seus ajudantes de ordem — como se, no seu conjunto, fosse uma espécie de jornal oficial dos donos da CPI e do condomínio de partidos políticos interessados na sua exploração.

 

Foi assim que se viu, nos últimos seis meses, um espetáculo realmente notável: jornalistas empenhados em servir a Renan, a Omar e a todos os que se dedicam a usar a CPI como ferramenta para virar a mesa; agiram o tempo todo como polícia, delatores e assistentes de acusação. Continuam a agir assim.

 

O fato é que as duas figuras centrais da CPI, Renan e Omar, foram transformadas de abril para cá, por decisão da mídia, em dois dos mais notáveis patriotas que a República já produziu em seus 132 anos de existência. Como entender um negócio desses? Com outros personagens, quem sabe — mas com esses dois aí?

 

Tudo bem: a imprensa brasileira sofre, já há anos, de uma síndrome que não tem cura — o ódio a Jair Bolsonaro, que é tratado como se fosse o ser humano mais calamitoso que já apareceu neste mundo desde o nascimento de Caim. É irracional, envolve questões de descompensação psíquica e, mais do que tudo, produz um subjornalismo de teor cada vez mais baixo — mas o que se vai fazer? A vida das paixões leva mesmo a esses territórios escuros, e o público já se acostumou à mídia que tem.

 

O extraordinário, no caso, é o apagão geral da imprensa quanto aos dois gestores da CPI — uma espécie de “queda no sistema” que responde pela estabilidade básica da atividade mental das pessoas. Como é possível alguém ser jornalista profissional e, ao mesmo tempo, ser capaz de passar seis meses inteiros de CPI sem dizer, uma única vez, quem são — do ponto de vista penal — o seu relator e o seu presidente? Aí já é mais do que militância política; é desvario.

 

Se a mídia brasileira não conseguiu — ou não quis conseguir — dizer para os seus leitores, ouvintes e telespectadores quem são os homens a quem entregou as suas manchetes e o seu horário nobre durante os últimos 180 dias, é natural, também, que tenha fornecido uma certidão oficial de acusação séria, legal e técnica a cada um dos delírios produzidos pela CPI. Todo tipo de ilegalidade, ou de simples estupidez, cometido pelos acusadores foi aceito sem um mínimo de olhar crítico — ou a mera verificação dos fatos — por parte da mídia. Testemunhas foram humilhadas na frente dos jornalistas sem se ouvir um pio. Insultos grosseiros foram tratados como perguntas legítimas.

 

Publicou-se com a maior seriedade do mundo que um dos crimes cometidos pelo presidente da República foi ter permitido ou incentivado a distribuição de “kits” com cloroquina — um tratamento absolutamente legal e publicamente reconhecido como válido pelo Conselho Federal de Medicina. Como assim, “crime”, se milhares de médicos em todo o Brasil receitaram cloroquina para os seus pacientes, e se o CFM atestou que cabe aos profissionais aplicarem as terapias que julgarem mais acertadas, como em toda e qualquer doença? E o “crime de genocídio”, então, expressamente descrito na lei brasileira como o conjunto de ações praticado com a intenção deliberada de destruir “grupo nacional, étnico, racial ou religioso?”

 

Há seis meses a imprensa aceita as acusações formais feitas na CPI de que Bolsonaro cometeu genocídio — uma denúncia tão patética que acabou sendo retirada pelos próprios acusadores. (Retirada contra a vontade de Renan, o herói número 1 da mídia.) Tão surrealista quanto os crimes de cloroquina e de genocídio é o crime de falta de planejamento, uma das joias da coroa entre as denúncias.

 

Como adotar um “plano nacional” se, por decisão formal do STF, nenhum ato ou projeto do governo federal poderia interferir nas decisões das “autoridades locais”? Esse o nível das acusações oficiais da CPI. Esse é o nível em que a imprensa se colocou.

 

O coroamento da história toda foram as expressões de pesar explícito que ocuparam o noticiário quando os acionistas majoritários da CPI, divididos por mesquinharias pessoais, interesses contrariados e ambições mal definidas, chegaram aos dias finais brigados uns com os outros. A imprensa derramou lágrimas, então, lamentando a “desunião” entre os inquisidores — no “momento decisivo”, comentou-se, eles deveriam fazer uma frente única contra Bolsonaro, em nome de “todos nós”. Nós quem? Não o público em geral, com certeza — mídia e público caminham há muito tempo em direções opostas.

 

Renan é Renan, Omar é Omar. Mas a imprensa brasileira deveria ser outra coisa.


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ELEIÇÕES 2022: terceira via tem muitos nomes e pouco voto - 26.10.21


Por J.R.GUZZO 

 

Apareceu mais um candidato a se tornar o candidato da “terceira via”, essa estrada que passa entre Lula, de um lado, e Bolsonaro, no lado oposto, e pela qual, nas esperanças de seus articuladores, o Brasil chegará ao seu próximo presidente da República no ano que vem. É o que mais tem, hoje em dia: candidato a candidato de terceira via. O mais recente da série é o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, outra das nulidades eleitorais que apareceram até agora para representar o “centro” — com a esperança de crescer durante a campanha e chegar lá em outubro de 2022.

   

    A lista vai longe. Já teve o apresentador de televisão Luciano Huck, pode vir a ter o jornalista José Luiz Datena e tem, na data hoje, os governadores João Doria e Eduardo Leite, o ex-ministro e ex-juiz Sergio Moro, o candidato permanente Ciro Gomes, o ex-ministro da Saúde, Luis Henrique Mandetta, e ainda outros mais. Aparece, agora, mais um nome — e, como os outros, vai ficar no noticiário, dar entrevista e fazer discurso.

   

    A pergunta de ordem prática que se coloca diante disso tudo é a seguinte: quanto vale, na vida das realidades eleitorais, cada um desses nomes? É pretensioso dizer, com um ano de distância, quem vai ganhar uma eleição, embora seja exatamente isso que fazem os institutos de pesquisa de “intenção de voto”. O que dá para fazer, e só isso, é olhar com realismo para a situação que existe hoje.

   

   

    Hoje, pelo que mostram os fatos disponíveis, há dois candidatos, Lula e Bolsonaro — e nenhum dos dois é claramente majoritário. O presidente carrega nas costas o custo de ser governo, em geral o bode expiatório para as frustrações de muitos dos que estão insatisfeitos. Lula tem o seu passado e o problema de ser artigo de segunda mão, já usado e desaprovado.

   

    A maioria do eleitorado não está, aparentemente e neste momento, nem com Bolsonaro e nem com Lula, mas no meio dos dois. É uma maioria que não tem forma definida, está em movimento e caminha mais de acordo com desejos do que com ideias. Naturalmente, um candidato de “centro” pode crescer neste tipo de bioma. Antes disso, porém, é preciso levar em conta que Bolsonaro e Lula podem fazer a mesma coisa — mudar de tom, cada um do seu lado, reprimir seus traços naturais e colocar o carro no meio da estrada.

   

    Para o presidente isso significa cair fora de todos os confrontos, mostrar-se moderado e contar com uma situação econômica melhor que a de hoje. Para Lula, significa abandonar tudo o que vem fazendo, e todas as companhias que mantém, e prometer um segundo governo parecido com o seu primeiro — com muito Palocci e Meirelles, e pouco MST e médico cubano. Vai ser a sua dificuldade de dar esses passos que determinará, no fim das contas, a sorte da “terceira via”.


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AVALIE AS "CONCLUSÕES" DA CPI ANTES DE TIRAR AS SUAS - 22.10.21


Por

J.R. Guzzo

 

Eis aí: a “CPI da Covid” afinal soltou, após muita briguinha e brigona entre os seus sócios-controladores, a famosa lista de crimes que, no seu entendimento, o presidente Jair Bolsonaro cometeu no combate à epidemia. Fica evidente, logo de cara, que algo deu profundamente errado: não aparece, entre os nove diferentes delitos imputados ao presidente, nenhuma denúncia de corrupção. Nada? Nada.

 

Tinha de aparecer, é claro: há seis meses o grupo que manda na CPI, a esquerda em geral e a mídia em particular prometem, sem descanso, que a qualquer momento iriam estourar casos de ladroagem capazes de mandar o governo todo para fora do sistema solar. Mas não apareceu nada.

 

Fake news? Segundo a definição das “agências de checagem de notícias”, do ministro Alexandre Moraes e do seu inquérito para salvar a democracia no Brasil, dizer durante 180 dias que a CPI vai descobrir corrupção, e no fim da linha não denunciar corrupção nenhuma, é notícia falsa, sim senhor.

 

Mas e daí? “Fake news”, por aqui, só funciona da mão direita da rua; sempre foi assim e continuará sendo, e ninguém precisa perder cinco minutos de sono por causa disso. O que chama a atenção é outra coisa: se nem a CPI, que é a mais desesperada ação contra o presidente da República desde a sua entrada no Palácio do Planalto, não encontra roubalheira, qual a seriedade que se pode ter com o resto das acusações?

 

Muito pouca, com tendência a nenhuma. Não foi só a corrupção que ficou faltando na festa. Vê-se, no fim das contas, que sumiu outra acusação monumental, tratada durante seis meses inteiros como a joia da coroa da CPI: o genocídio. Sumiu isso também, o genocídio? Sumiu.

 

Na hora de soltar a lista de crimes com a qual pretendem enfiar Bolsonaro na cadeia pelos próximos 80 anos, viram que não conseguiriam manter de pé durante cinco minutos a ideia de que ele fez o que a lei brasileira define como genocídio. Não é fácil, como se pode ler ali, o sujeito ser genocida neste país. Ele tem de destruir um grupo nacional, étnico, racial ou religioso. Precisa matar o grupo, ou impedir que haja nascimentos ali, ou fazer transferência forçada e maciça de suas crianças de um lugar para outro, além de outros horrores. Como seria possível acusar alguém de um negócio desses?

 

Se os crimes que não estão na lista são esses aí, os que estão seguem pela mesma trilha. Crime de epidemia? Isso, segundo diz o Código Penal, não é andar “sem máscara”, nem produzir “aglomeração” — é disseminar germes patogênicos na população. Crime de charlatanismo? O que Bolsonaro fez não foi isso, pela lei: ele elogiou o uso da cloroquina, uma terapia declarada perfeitamente legal pelo Conselho Federal de Medicina. Crime contra a humanidade? Também não dá.

 

A qualidade das “conclusões” da CPI é essa. Vale a pena pensar um pouco antes de tirar as suas.

 

Fonte: Gazeta do Povo

 


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