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Ideias movem pessoas. Pessoas mudam o mundo


por Paulo Moura

 

A relação entre as ideias e a realidade é objeto de reflexão e debate intelectual, pelo menos, desde a Grécia Clássica. Platão foi um pensador que acreditava que as ideias constituiriam um “mundo” à parte, e sem conexão com a realidade tal como a que percebemos com nossos sentidos. Dessa compreensão é que nasceu a expressão “amor platônico”, que é um amor aprisionado no mundo das ideias e que nunca se “realiza”.

Esse mundo idealizado por Platão seria “habitado” por “verdades” naturais, eternas e imutáveis. O conhecimento que estaria ao alcance da percepção pelos nossos cinco sentidos seria, então, imperfeito, no máximo, aproximado dessas verdades naturais e perenes.

A razão seria o caminho para alcançarmos a compreensão dessas verdades imutáveis, que seriam até “mais reais” do que a própria realidade, em constante movimento. Ao velho dilema sobre quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha, Platão responderia que quem nasceu primeiro foi a ideia do que é um ovo e do que é uma galinha.

Alguém disse algum dia que não há nada que os filósofos gregos já não tenham pensado. Em sala de aula já expus o argumento de Platão em defesa do governo dos filósofos, isto é, a ideia de que somente indivíduos intelectualmente preparados deveriam ter o “direito” de governar a sociedade. Não raras vezes encontrei convictos defensores da ideia.

A tese de Platão sobre a existência de um “mundo das ideias” poderia ser contestada por uma simples interrogação: haveria ideias se não houvesse seres humanos para pensá-las?

Independentemente do que você, eu ou Platão achemos sobre a ordem dos fatores na equação que relaciona ideias e realidade, vale a interrogação: qual é o papel das ideias nas nossas vidas?

Há quem pense que o debate entre “altruísmo” e “egoísmo”, ou, entre “coletivismo” e “individualismo” é recente e associado à luta política entre liberais e conservadores contra socialistas e comunistas.

No entanto, quem já teve o privilégio de ouvir uma das palestras da Bruna Torlay, editora da Revista Esmeril, aprendeu que esse conflito de ideias já estava lá na filosofia dos gregos dos tempos de Platão.

Pessoalmente, defendo a tese de que nossas ideias resultam da reflexão do ser humano sobre a realidade. Nossas ideias nascem de inquietações com relação a alguma dimensão da realidade que nos incomoda.

Isso vale para “ideias” bem simples e práticas, tais como aquelas que levaram o homem das cavernas a constatar que se proteger numa caverna torna a vida melhor do que a vida ao relento, ou, que viver em grupos é melhor para nos defendermos das adversidades da vida inóspita daqueles tempos do que viver sozinhos e isolados.

Nasceu assim a sociabilidade humana que, colocada diante de novos desafios, permitiu o progresso da nossa civilização. Por progresso aqui entendamos a ideia de evolução civilizatória de uma vida inóspita, desconfortável e violenta em direção a uma vida com cada vez menos sofrimentos e adversidades.

Não se trata, portanto, do sentido do conceito progressista de “progresso”, tal como algum desavisado tradutor dessa obra poderia, no futuro, interpretar meu conceito.

Essas reflexões práticas é que levaram o ser humano a desejar viver melhor e a mudar a realidade em que viviam. Foi isso que permitiu que nossos antepassados mudassem suas vidas e, por consequência, as nossas.

E foi exatamente por existirem seres humanos com essa habilidade para pensar e resolver os problemas práticos que foi possível existirem pessoas com a capacidade do raciocínio complexo. Pessoas como os filósofos gregos que levavam uma vida contemplativa e se interrogavam sobre dilemas tão profundos como a busca de respostas paras nossas, essas sim eternas, perguntas: De onde viemos? Quem somos? Para onde vamos?

E por que toda essa divagação se o tema dessa edição da Revista Esmeril é o valor dos tradutores para a cultura?

Como você acha que ficamos sabendo o que sabemos sobre o pensamento de filósofos que viveram no período da Grécia Clássica, no século V a.C.?

Caso você não tenha se ligado para esse detalhe, eles falavam e pensavam em grego, tal como o idioma era naquela época.

Os historiadores convergem todos para um consenso quando se trata de identificar os três pilares fundadores da Civilização Ocidental moderna:

  1. na Civilização Grega Clássica que nos legou a primeira noção de democracia;
  2. no Império Romano, que bebeu na fonte dos gregos e erigiu a primeira sociedade regida por leis escritas e governada por instituições jurídicas e políticas; e,
  3. no cristianismo, que nos legou o monoteísmo, a crença num Deus único, pessoal e criador de todas as coisas.

O grego e o latim são, portanto, os dois idiomas-raiz das línguas faladas no mundo ocidental, e a partir dos quais foi registrado e transmitido às gerações seguintes todo o legado civilizacional que herdamos dos gregos, dos romanos e das Escrituras Sagradas do Velho Testamento, que está nas origens do cristianismo.

Sem entrar no mérito das polêmicas entre católicos e protestantes, a própria difusão do cristianismo no ocidente ocorreu, em parte, em função do fato de que um dia, um teólogo defendeu a tradução da Bíblia Sagrada do latim para o alemão, com a finalidade de tornar a Palavra Sagrada conhecida e acessível ao cidadão comum.

A que outro exemplo mais forte do que este poderíamos recorrer para tornar tangível a compreensão do papel dos tradutores para a cultura de uma civilização?

A missão a que se auto atribui o tradutor lhe impõe, antes de tudo, um imperativo ético pressuposto na intenção de perseguir com a maior fidelidade possível às ideias originais do autor traduzido.

A missão precípua do tradutor é, então, abrir mão da sua “liberdade” para assumir, voluntariamente, a condição de “escravo” fiel do autor e da obra que escolheu traduzir.

Essa tarefa vai muito além de simplesmente consultar um dicionário, que nem sempre existiu, e converter as palavras de um idioma para outro, tal como nos presenteia o Google Translator. Mais do que verter um texto de um idioma em outro, a tarefa do tradutor consiste em translatar ideias. E as ideias traduzidas não pertencem ao tradutor. Para cumprir sua missão, o tradutor precisa sair de si e se colocar na condição no tempo e no lugar do autor.

A mente humana é livre e se permite voar em qualquer direção. Permite ao tradutor fazer essa viagem, mas permite ao leitor fazer o que quiser com as ideias que absorve. Basta ver a profusão de dissidências que ocorrem com as mais diferentes correntes de pensamento social, político, econômico e filosófico, como resultado da livre intepretação das ideias.

Essa transformação é um dos fundamentos mais básicos do conceito de cultura. É de cultura e de transformação da realidade através da cultura, portanto, que estamos falando.

As ideias não movem o mundo, elas movem as nossas mentes e, em seguida, uma vez que foram assimiladas e aceitas como válidas, elas moldam os valores que orientam nossas ações. E são as nossas ações que transformam o mundo.

Ninguém fica indiferente ou impune à leitura de um livro. Ao lermos a primeira página, abrimos a mente para novas ideias e, ao fecharmos o livro, após a leitura da última página, nossa vida já não é mais a mesma.

Nossa maneira de ser se transforma em outra e somos o que somos, socialmente, em relação aos outros. Ao mudarmos a nós mesmos a partir das ideias de um livro, mudamos nosso entorno, mudamos a sociedade.

Se você, assim como eu antes de ser desafiado a escrever esse artigo, jamais havia refletido com profundidade sobre a missão e a importância dos tradutores para a cultura de uma sociedade, trate de mudar de ideia. (texto publicado na Revista Esmeril)


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Tradução estratégica pela direita


por Fernanda Barth

 

Neste conteúdo, a pensadora Fernanda Barth elucida o papel crucial dos tradutores para combater a desinformação.

 

Traduzir: Do latim traducere – fazer passar de um lugar para o outro. Verbo bitransitivo. Significa: Transcrever, interpretar, elucidar, exprimir, explicar, reproduzir, passar para outra língua…

Agora, suas variantes: Temos a tradução direta, a reversa e a literal. Tornar algo compreensível, inteligível, familiar. Traduzir é o oposto de codificar, ofuscar, encriptar. Ao tradutor cabe pegar um texto original e criar um novo texto, que possa ser compreendido e não perca a essência do originalmente criado.

Não pode haver perda de sentido.

É preciso atentar para o fato de que, ao contrário do capitalismo – um sistema de trocas, e não uma ideologia – o comunismo é uma ideologia (praticamente uma filosofia comportamental) construída sob um sistema de crenças baseadas no Marxismo, na fé no Estado e no coletivismo. Dessas premissas, advém a necessidade da esquerda de destruir o indivíduo, a família que dá sustentação ao indivíduo, a religião que rivaliza com o grande líder estatal. 

O objetivo é a criação de um novo homem sem amarras morais (trans humanismo), que vive em uma sociedade imersa no caos, onde a única solução acaba sendo a legitimação da concentração de poder como forma de conduzir o rebanho, agora homogêneo, permitindo a hegemonia absoluta do grupo no poder.

Para ser um tradutor de direita é preciso dominar a narrativa do campo de esquerda, entender seus objetivos, a forma como operam, a agenda que defendem. É preciso entender como se forma a opinião pública e como ela pode ser manipulada. É necessário dominar o mecanismo das chaves cognitivas e da criação de significados e entender como elas operam na comunicação de massas. Por último, é também preciso conhecer o discurso politicamente correto e como ele é usado como ferramenta de censura e constrangimento. 

Um tradutor de direita precisa desvendar o sentido oculto no texto de esquerda, seja ele escrito, cantado, pintado, construído ou filmado. Necessitamos entender no estrito senso dos signos e símbolos estudados na teoria da comunicação o que está subentendido, o que se pressupõe e o que se está tentando ressignificar.

Quebrando a criptografia Marxista

No casok ser um tradutor de direita, a tarefa consiste em pegar um texto criado dentro do conceito Marxista e restituir o sentido que foi propositalmente oculto ou torcido, restituindo a verdade – desmontando a narrativa. Tirando dele a maquiagem e revelando sua verdadeira face e objetivo. Todo esse esforço, porque a esquerda praticamente criou uma linguagem.

Tem seu rol de conceitos e discursos, tem o materialismo histórico e toda a interpretação de fatos históricos dentro da lente da luta de classes, hoje redesignada como luta de identidades políticas, oprimido x opressor. Parafraseando Orwell, uma novilíngua.

(…)

Ninguém pratica mais desinformação que a esquerda. O próprio termo “desinformação” tem suas raízes no stalinismo e no trotskismo. A destruição da verdade é uma ferramenta que semeia a confusão para alcançar o controle. Informação é poder, conhecimento é poder. Em tempos de Sleeping Giants; de censura nas redes contra os conservadores; de guerra de narrativas onde o que é verdade é tachado de falso e o que é falso é vendido como verdade; onde a desinformação é o que mais se vê na grande mídia, a importância de se ter a cada dia mais tradutores de direita é enorme.

O chamado para os aliados

Precisamos de cada vez mais Canetas Desesquerdizadoras, de Paul Watsons, que debugam narrativas como ninguém. Precisamos manter as redes sociais livres para que a liberdade de expressão não morra e não prevaleça apenas um lado da história. Precisamos de tias do zap zap que conseguem, de forma bastante crua, ver a mentira e a hipocrisia contidas nas mensagens, pois vem de uma época onde Paulo Freire ainda não tinha dominado a educação e destruído a capacidade de raciocínio lógico dos estudantes.

Só sobreviveremos a esta infowar se conseguirmos trazer pelo menos algum equilíbrio na arena de luta. A agenda setting está aos poucos mudando de mãos, mas é no final da batalha que a luta se torna mais violenta, no sentido poético da palavra. Quanto mais pessoas tiramos da espiral do silêncio, mais nos fortalecemos e a cada dia fica mais claro como tentam mover a Janela de Overton em temas importantes para a manutenção da civilização judaico-cristã.

Não é à toa que, para a grande mídia, a direita é sempre extrema e a esquerda, mesmo que autoritária, genocida ou violenta nunca é considerada como extremista. Primeiro eles reescrevem a história para depois dar as regras sobre quem fala a verdade, e quem propaga fake news ou faz revisionismo.

Algumas das batalhas dos nossos dias incluem: defesa da vida x indústria da morte; liberdade religiosa x intolerância; liberdade de expressão x censura; liberdade de opinião x politicamente correto.

No fim dessa disputa, o que está em jogo é o nosso direito de viver e defender a vida, a propriedade e a liberdade contra aqueles que têm um desejo ardente e insaciável de nos subjugar e dominar.

Enquanto a estratégia do adversário não for indecifrável, os meios de vencê-lo estão aí. Disponham.


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Mike era um jovem que vivia em Cuba


por Roberto Rachewsky

 

Ingrato, no início dos anos 60, resolveu abandonar seu país e deixar para trás as maravilhas que o comunismo recém implantado por Fidel Castro e Che Guevara lhe oferecia, como uma vida segura e estável, na qual se sabe como serão seus dias, de hoje até a hora da morte, graças ao estado de bem-estar social provido pelo governo.

 

Mike abriu mão de um sistema educacional e de saúde totalmente universal, gratuíto e de qualidade, segundo aqueles que acreditam em milagres.

 

Não foi só isso que aquele jovem deixou para trás. Além dos pais que não puderam embarcar no voo para o exílio definitivo, Mike perdeu a oportunidade de empreender no ramo altamente lucrativo do turismo, poderia ser, quem sabe, um feliz proprietário de um Chevrolet Bel-Air 58 que duraria a vida inteira depois de inúmeras viagens de passeio feitas sob os respingos das ondas que caem sobre o Malecón.

 

Cuba é um país que produz cerca de 100 bilhões de dólares por ano, considerando aí as mesadas enviadas pelos cubanos da Flórida para seus parentes que vivem em Havana e outras cidades.

 

Charutos, turismo, prostituição e mão de obra escrava para exportação, como aquele programa pago com o dinheiro dos brasileiros, o Mais Médicos, ou as milícias mercenárias pagas pelos miseráveis venezuelanos ou nicaraguenses, também estão na pauta dos negócios lucrativos que Mike perdeu.

 

O adolescente nesta história optou por viver em um lugar que une risco e oportunidade, e foi aproveitando essa combinação insuperável que ele pode se estabelecer e proporcionar ao seu filho adotivo a chance de criar a maior fortuna do mundo.

 

Mike Bezos é o pai adotivo de Jeff Bezos, ambos possuem fortunas que somadas valem o dobro do  que todos os cubanos que vivem em Cuba produzem durante um ano inteiro.

 

Os donos da Amazon enriqueceram sem coagir absolutamente ninguém, como costumam fazer os governos, mas através da cooperação e de trocas voluntárias para benefício mútuo das partes envolvidas.

 

Socialistas falam em sistemas sociais inclusivos, em justiça social, em igualdade de oportunidades e resultados. Mike Bezos escolheu deixar o país onde tudo isso são falsas promessas para ir embora para os Estados Unidos da América, e encontrar o que realmente importa para que qualquer indivíduo, independentemente do seu status presente, possa florescer e prosperar: liberdade.

 

Jeff Bezos, filho de Mike, criou com a sua criatividade e resiliência não apenas valor para os acionistas da Amazon, razão necessária e suficiente para manter seu negócio vivo. Ele inventou um modelo de negócios que pode ser chamado de revolução pacífica só proporcionada onde há grande dose de capitalismo.

 

Bezos criou valor inovando e servindo não apenas ao público consumidor, mas também gerando oportunidades através das parcerias com outros empresários como ele que se utilizam da plataforma de negócios que ele criou.

 

Outro dia, Jeff Bezos sofreu bullying feito por políticos numa comissão do Congresso Americano. Vigaristas que nunca criaram valor algum tentaram desmerecê-lo chamando-o de traficante.

 

Jeff Bezos é o tipo de indivíduo que faz os Estados Unidos da América não ser uma Cuba. Se dependesse de politicos como aqueles, a livre iniciativa e a propriedade privada já teriam sido abolidas. Só não foram porque os socialistas americanos sabem que sem corporações como as de Bezos, o sonho americano se tornaria um pesadelo e a vida, até dos políticos parasitas, se transformaria num inferno como seria a vida de Mike Bezos se não tivesse fugido de Cuba com dezesseis anos. 


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A QUE PONTO O GOVERNO É RESPONSÁVEL ?


por Percival Puggina

 

 Leitor escreve perguntando “até que o ponto o governo pode ser responsabilizado pelo mato sem cachorro no qual se enfiou”. Ele considera que isso aconteceu “mesmo diante de muitos avisos, deixando-se o governo engolir pelo STF, pelos políticos da velha política e, talvez o pior, pela ala militar”. A pergunta é importantíssima e a reprodução da resposta solicitada por muitos leitores.

A responsabilidade pessoal do presidente ou de seu governo é nula nesse particular. A história da República mostra que governo sem maioria parlamentar ou não governa, ou não conclui o governo. Getúlio Vargas, Jânio Quadros, João Goulart, Fernando Collor, Dilma Rousseff e Michel Temmer contam essa história.

Os avisos de que a situação do governo se complicava na relação com as demais instituições não alteram o fato de que o modelo institucional orienta o agir político, tanto dos cidadãos (eleitores) quanto dos que à política se dedicam (partidos e seus dirigentes, e detentores de mandatos eletivos). Vota-se no presidente presumindo que ele disporá de um poder que se impõe sobre os demais, quando, no modelo brasileiro, como estamos vendo, ocorre o inverso. Tal realidade só se altera se o governo comprar sua maioria parlamentar, como fizeram Fernando Henrique, Lula e Dilma (esta até perdê-la). A compra dessa base, na regra do Congresso, se faz por unidade de voto parlamentar e as bancadas são peritas em precificar essa atividade de seus congressistas. A grande mídia militante criticou Bolsonaro por não “negociar com o parlamento”, e agora o critica por fazê-lo...

Isso quanto às duas casas do Congresso. Já o Supremo, como tenho escrito, só deixará de se antepor, sobrepor e pospor ao governo quando houver alterações em seu plenário. É preciso entender que todos os atuais ministros amargaram derrota pessoal na eleição presidencial. Todos votaram contra o Bolsonaro e, pelo menos oito dos 11, são tão de esquerda quanto qualquer “intelectual” petista. Não ocultam essa condição nem a correspondente animosidade, que já ultrapassou os limites do escandaloso. Mínima alteração ocorrerá em novembro, quando o presidente indicar o substituto de Celso de Mello. Câmbios mais consistentes dependerão, como tenho dito, de um trabalho da sociedade sobre o Senado para que este dê curso às denúncias de crime de responsabilidade (impeachment) ali engavetadas por Alcolumbre.

Quanto aos militares, afora algumas raras opiniões do vice-presidente desalinhadas do governo, como no caso do aborto, não os vejo complicando a vida do presidente. Eles apenas deixam claro que se negam a fazer o que não devem (intervenção) nos outros poderes em relação aos quais não têm prerrogativas constitucionais e nunca foram nem serão a isso solicitados pelo presidente. Essa é uma questão exaurida. Apostar nela é alimentar o discurso dos inimigos nacionais e internacionais do governo (incluída a grande mídia que adora jogar o assunto no colo do presidente) e atrasar o que de fato precisa ser feito, a pressão política através dos cidadãos, sobre o Senado, para que cumpra seu papel em relação aos desvios de conduta do STF.

No nosso modelo institucional o presidente é totalmente impotente em relação a esses aspectos. A única ação que lhe cabe é trazer o centrão para um jogo limpo. O resto não está em sua alçada. No entanto, pergunto? Que dizer da inércia da sociedade? Por que, em cada estado, os eleitores não confrontam seus três senadores para que cumpram seu dever? Eles não o farão espontaneamente se a sociedade não lhes der e impuser o exemplo por democrática pressão popular. 


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CADA REAL A MAIS PARA O FUNCIONALISMO É UM REAL A MENOS PARA A POPULAÇÃO


por J.R. Guzzo, publicado na Gazeta do Povo.

 

Os cerca de 12 milhões de funcionários públicos desse país deixam os outros 220 milhões de brasileiros de joelhos

 

O Senado Federal confirmou mais uma vez que a democracia brasileira é uma piada. Que democracia pode haver num país onde os cidadãos não são iguais perante a lei? O Senado não é, naturalmente, o único ente público a agir na preservação desta deformidade – opera em perfeito entendimento com a Câmara dos Deputados, o Poder Judiciário como um todo e membros do Executivo, nos três níveis, todos unidos para fazer do Brasil um país que mantém oficialmente duas classes legalmente diferentes de pessoas. Uma delas é a dos funcionários públicos. São, hoje, cerca de 12 milhões de brasileiros. Na outra estão os demais 200 milhões da população nacional. Os primeiros, muito simplesmente, têm mais direitos que os segundos.

 

Democracia? O que existe aí é uma gambiarra que faz o conjunto servir à parte: todos pagam impostos, mas quem fica com o dinheiro é o Estado, e o Estado é uma soma de gente e de despesas. No caso presente, o Senado derrubou o veto que o presidente da República tinha assinado contra os aumentos de salários no funcionalismo – uma necessidade urgente em tempos normais, e desesperada hoje em dia, com uma epidemia que já matou mais de 100 mil pessoas e, em consequência dela, paralisou a economia do país. Todos os brasileiros estão com os seus salários congelados ou mesmo reduzidos em função desta tragédia. Mas os funcionários do Estado, por decisão oficial do Legislativo, não podem ser tocados, nem de leve.

 

Não pode haver nada mais perverso em matéria de concentração de renda – e, na circunstância de hoje, nada mais hipócrita. Há quatro meses o Brasil vive um massacre de propaganda pública e de grandes empresas dizendo que “nunca” foi tão importante ser “solidário”, “dar-se as mãos”, “ficar juntos” e exibir outras maravilhas do caráter humano. Mas na hora de botar a mão no bolso em favor do interesse comum, a conversa muda completamente.

 

O funcionalismo não contribui com um tostão – ao contrário. O dinheiro que servirá para pagar os seus aumentos salariais, esses que o Senado acaba de declarar sagrados, não é “do governo”, como dizem os políticos. Não existe “dinheiro do governo”. Só existe o dinheiro dos impostos pagos por todos – e cada real a mais para o funcionalismo é um real a menos para a população. Não há como revogar a matemática.


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O BRASIL E AS GUERRAS HÍBRIDAS: O CASO DA AMAZÔNIA - 19.08.2020


por Ivomar Costa - Instituto Federalista

 

Descrição das estrategias de guerra hibrida usadas contra o Brasil, pelos seus inimigos que desejam apropriar-se da região amazônica.

 

Antes de adentrarmos no tema específico das guerras híbridas, faz-se necessária uma distinção: segundo acredito, a guerra híbrida é apenas uma das espécies de guerra de quarta geração – G4G. Adiantando alguns temas que tratarei em outro momento e por outros meios, as outras duas espécies são a guerra contra instituições e a guerra identitária.

Uma das premissas da teoria da G4G é que os estados-nação encontram-se enfraquecidos. Com as tentativas e, de fato, a redução das soberanias de diversos países, o estado-nação tem sido conduzido, em alguns casos, à quase irrelevância. Devido ao seu enfraquecimento, outros atores se tem erigido e tentado obter a proeminência entre diversos poderes; são entes tanto sub-nacionais quanto sub-estatais, para-estatais, supra-estatais e inter-estatais. Em diversos momentos entes para-estatais sub-nacionais tem sido estimulados e apoiados por entes internacionais, e até supra-estatais.  No caso da guerra híbrida, o objetivo é promover o caos em países cujas instituições sociais e políticas tenham sido previamente desestabilizados por meio de guerras contra-institucionais, e concomitantemente apoiando entes internos ao país a ampliarem suas forças, ocuparem maior espaço político, e conquistarem maior legitimidade, visando a derrubada geral do governo ou de um regime político, por intermédio de uma “revolução colorida”. Quer dizer, a revolução interna é promovida de fora para dentro, utilizando as vulnerabilidades dos estados enfraquecidos.

Estados fortes são imprescindíveis por pelo menos um motivo: ninguém consegue o mínimo à subsistência sem a estabilidade gerada pela ordem. As pessoas precisam trabalhar para conseguir alimentos e roupas para si próprios e para suas famílias. Pessoas que cruzam as ruas ou caminham pelas estradas precisam de um mínimo de segurança, necessitam estar certos de que sairão e retornarão vivos para suas casas com os mantimentos essenciais; que ao retornarem às suas casas as encontrarão incólumes e sua família viva, por exemplo. Assim, qualquer ente que estabeleça ordem será imediatamente apoiado pela população. Se esta ordem estiver apoiada em outras razões e motivos, sejam econômicos, afetivos, políticos, religiosos, a legitimidade será uma decorrência natural. Portanto, qualquer que seja o ente, estatal ou não-estatal, a busca, instalação e manutenção da ordem deve ser o objetivo primordial. Inversamente, as forças contrárias, quem quer que sejam, estatais ou não-estatais, lutarão pela manutenção da desordem que possibilita a instabilidade.

A atuação das Forças Armadas brasileiras no Haiti, coordenando as tropas da ONU, é um exemplo positivo de ente supra-nacional atuando para a re-instauração da ordem em um estado que deixou de existir depois de golpes de estado seguidos de terremotos avassaladores. Nossas Forças Armadas fizeram um excelente trabalho, neste sentido, atuando não somente na repressão aos grupos armados anti-estatais que aterrorizavam a população, mas também atuando na regularização dos serviços públicos, como atendimento médico e remoção da montanha de lixo que se acumulava nas ruas após o colapso do governo haitiano.

O exemplo contrário é a invasão da Somália executada pelas Forças dos Estados Unidos, há muitos anos. Diferentemente do que se anunciava e se esperava, o resultado foi o maior enfraquecimento do estado na Somália, abrindo ainda maiores brechas para a atuação de atores não-estatais, como os tribunais islâmicos, que implantaram a Sharia. A população apoiou tais tribunais porque quase de imediato eles conseguiram estabelecer um mínimo de ordem ao cotidiano das pessoas. Houve uma tentativa de instalação de um Governo Provisório com ajuda internacional e apoiado por forças estrangeiras, mas isto fez apenas com que tais grupos buscassem legitimidade por intermédio da promoção do nacionalismo radical. O resultado, passados muitos anos, todos nós conhecemos. Depois de uma década da invasão, o Estado na Somália não apenas enfraqueceu mais, mas tornou-se irrelevante. Os entes não-estatais expandiram seu poder até o ponto de derrotar a única potencia militar mundial, à época, quando esta tentou, supostamente, re-estabelecer a ordem.

Deveras, em um país cuja população viva abaixo de linhas básicas da dignidade humana, onde a miséria e a pobreza reinem absolutas, os resultados de uma invasão estrangeira seriam quase que totalmente previsíveis, se esta não for acompanhada de medidas de melhoria das condições de vida da população. Porém, os mesmos resultados, como a tomada de espaço por grupos anti-estado, se manifestam em países cujo desenvolvimento sedimentou há muito tempo. Nestes o padrão de vida da população está localizado em patamares muito elevados. Por conseguinte, supõe-se que não ofereceria condições para o crescimento de tais entes. A realidade, contudo, desmente nossas expectativas. Em vários países do continente europeu, na Inglaterra com mais intensidade, comunidades muçulmanas dominaram bairros de grandes cidades e lograram implantar a própria lei, à revelia do estado inglês. Nestes bairros a própria polícia inglesa não entra. Isto significa que ali os muçulmanos estabeleceram um lugar de autonomia. A partir daí, com o domínio de vários bairros e  de varias pequenas cidades do interior, desenha-se uma rede com inúmeros nós que tende a crescer ininterruptamente, em crescimento gradativo, transformando a autonomia em soberania, até o domínio completo, substituindo um estado por outro.

Para os nossos objetivos imediatos é importante destacar que a estratégia utilizada é semelhante tanto para os países subdesenvolvidos quanto para os desenvolvidos. Como toda semelhança implica a presença de diferenças,  o que difere na aplicação da estratégia em ambos os tipos de países é a oportunidade de aplicação e o tempo de execução; os resultados buscados são exatamente os mesmos, independentemente de quem aplique a estratégia.

Vejamos agora como estes elementos das guerras de quarta geração estão sendo aplicados no Brasil e contra ele, pelos seus inimigos.

Uma das características das G4G é que devido ao surgimento de outras potencias mundiais, mesmo a superpotência americana evita realizar ataques diretos a variados países, e quando o faz, procura justificar moralmente tais ações. Com efeito, a imagem e a sanção internacionais podem causar inúmeros problemas, porém, o problema principal encontra-se geralmente na opinião pública interna. Países poderosos, como Estados Unidos, Rússia e China, têm evitado tais percalços financiando ações invasivas, por diversos meios, terceirizando a guerra, isto é, estabelecendo verdadeiros exércitos privados e contratando-os para realizar o trabalho que suas tropas militares não devem fazer por motivos de controle do público interno a estes países. O importante nestas ações, muito mais do que o controle da opinião pública é a dissimulação. O país alvo da invasão não deve perceber que está sendo invadido e que está sofrendo um ataque que o destruirá por dentro, como um câncer.

No Brasil, o “exército” invasor é composto de inúmeras ONG’s que se concentram na região amazônica. Estranhamente, atuam naquelas regiões onde há grande concentração de petróleo e água, jazidas minerais, como o ouro e “terras raras”. Estas terras são essenciais às indústrias 4.0 das potenciais econômicas. Por exemplo, baterias de celulares são construídas a base de lítio, encontrado em abundância na Bolívia. No Brasil temos, entre as conhecidas, o Nióbio e o Grafeno, mas existem muitas outras.

Nas últimas décadas tem crescido exponencialmente a quantidade de ONG’s estrangeiras atuando na Amazônia brasileira, bem como a disponibilização de fundos para financiar tais atividades. Destacável nestas atuações é que até onde se conhece, são os doadores, como a Noruega, que determinam onde e como devem ser aplicados tais fundos, praticamente não permitindo que o estado brasileiro interfira nestas questões. Mais recentemente houve reação do governo brasileiro, com a intenção de “compartilhar a gestão destes fundos”. Na prática, isso significaria o “compartilhamento da soberania nacional’ não fosse isso uma contradição de termos.

As ONG’s internacionais, máxime, têm ocupado espaços nas áreas amazônicas que o estado brasileiro nunca ocupou ou simplesmente abandonou por estrita incúria. A população brasileira daquelas plagas, abandonada, foi adotada por estas entidades e suas necessidades foram atendidas, senão em sua totalidade, pelo menos em aspectos essenciais. Paralelamente a isso, tais entidades começaram um lento trabalho de conquista das suas lealdades. Ações como o ensino da língua pátria da entidade atuante, financiamento de obras e serviços, doação de bolsas de estudos no país de origem. Existem relatos de que em determinadas aldeias, índios brasileiros falam inglês com certa fluência, mas não entendem a língua portuguesa. Existe também o caso de ONG’s que atuam atraindo jovens do centro e do litoral do Brasil, explorando sua natural ingenuidade e idealismo, e depois os submetendo a trabalho de desindentificação pessoal e nacional. Uma das técnicas utilizadas é justamente o isolamento dos laços sociais nas suas cidades de origem, mas principalmente dos laços familiares. Com isso o trabalho é facilitado, pois são submetidos a isolamento, inclusive devido à grande distância dos principais centros urbanos, e treinamento intenso, incluindo lavagem cerebral. Devido à limitação da idade dos jovens, que não pode passar de vinte e nove anos, aparentemente, um dos objetivos é transformá-los em guerrilheiros: seria uma autentica “FARC brasileira” se a ONG não fosse financiada por capital estrangeiro. Aqui a abordagem, no entanto, apresenta algumas variações. As FARCs, conhecido grupo de comunistas narco-guerrilheiros da Colômbia, sequestravam crianças para obrigá-las a se tornarem seus soldados, enquanto no Brasil os jovens são atraídos com promessas de “luta para salvar o meio-ambiente”. Os exemplos são numerosos, tanto que seria difícil citar a maioria deles.

O que essas ONGs têm feito, então, é organizar-se em redes e criar pequenos espaços de autonomia local. A partir daí começam a interligar os nós e expandir sua influência, para depois conquistar soberania sobre estes pequenos territórios, se necessário pela força das armas, bem como com a anuência e apoio de entidades supranacionais agindo em conjunto com os entes financiadores, não-estatais e até estatais.

Simultaneamente à ocupação gradativa do território, formando uma teia que cubra os seus principais pontos de interesse, estas entidades buscam a deslegitimização do governo. É fato que isso está acontecendo atualmente. Não importa o que o governo do presidente Bolsonaro faça de bom, a interpretação dos fatos sempre será negativa. A legitimidade é um dos alvos nas G4G. É preciso destruir a legitimidade do governo, mesmo que este tenha sido eleito democraticamente consoante a lei, e apresentar-se como legitimo defensor da população abandonada.

Uma das táticas utilizadas pelos entes para-estatais estrangeiros atuantes na Amazônia é a ideologização. À semelhança dos ataques com vírus biológicos das batalhas bacteriológicas, nas G4G são utilizados os vírus ideológicos. Tais vírus têm uma curva de contaminação muito parecida com as das pandemias virais. Começam devagar e depois a taxa de crescimento é acelerada até atingir crescimento exponencial. O problema é que, inversamente aos vírus biológicos, a vacina para tais vírus, quando aplicada, leva pelo menos uma geração para gerar os efeitos desejados. Portanto, a única forma de impedir o avanço da contaminação ideológica é criar barreiras ao contato com a população ou afastar de vez os agentes infecciosos.

Ainda que nos seja difícil aceitar que brasileiros contribuam com a destruição do país pela via da entrega do nosso território a estrangeiros, parece evidente que isto ocorre em grande medida. O escandaloso disso tudo é que são autoridades que cometem estes atos impatrióticos. Dissemos que ordem e desordem são, respectivamente, alvos dos oponentes nas G4G. Ocorre que nem sempre o “estado” deseja manter a ordem. No caso em tela, membros do estado é que são os geradores das condições para o surgimento da desordem, se não diretamente, pelo menos indiretamente. Durante a suposta pandemia do Coronavirus temos visto inclusive componentes do STF liberando condenados para evitar que sejam contaminados na prisão. Desnecessário explicar a ilogicidade dessas ordens e qual o risco para a sociedade. A liberação, entretanto, atende, assim parece, à intenção de manter livre um efetivo pronto para promover violência, para amedrontar a população, e desordem, para enfraquecer o governo perante a opinião pública. Quer dizer, componentes do estado, pagos pelo povo, estão a serviço de forças estranhas para deslegitimar o governo e favorecer a sua deposição.

As estratégias, portanto, não diferem, em essência, mas sim na sua aplicação, considerando os aspectos contingenciais. Desvelar a estratégia de nossos inimigos, compreendendo sua lógica interna, é o primeiro passo para começar o trabalho de reversão da perda de parte importantíssima de nosso território, assim como da corrosão da soberania nacional.

 

 


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