Espaço Pensar +

BALCÃO DE TOGAS - 24.03.26


Por Alex Pipkin -  PhD em Administração
 

O Brasil deixou de ser um país de cidadãos e se tornou um banquete de carcaças, onde o dono da casa assiste, pela fresta da porta, à prataria sendo derretida por convidados de capa e anel de doutor. 
Quando 60% de uma nação olha para o topo da pirâmide e não enxerga justiça, mas um entreposto de favores, percebido, na prática, como a atuação de uma legítima gangue, o contrato social não está apenas rasgado. Não, ele já não existe mais.
Não é teoria; são fatos e evidências.
O Estado continua exigindo tudo: imposto, obediência, submissão, independentemente da arbitrariedade, da promiscuidade institucional ou da ausência de justiça que entrega. O vínculo tornou-se unilateral. O cidadão permanece obrigado; o poder, não. 
Quando a obrigação só vale de um lado, não há contrato; há coerção e impunidade a serviço dessas relações promíscuas.
O dado não cria o problema. Apenas revela o conhecido padrão. O sistema deixou de proteger e passou a negociar sem constrangimento, de forma aberta, recorrente e, pior, estruturalmente promíscua.
A sujeira não está mais escondida; a gangue a tornou seu modo de ser. É o piso sobre o qual caminham decisões sob medida, conveniências travestidas de interpretação e uma Constituição convertida em instrumento elástico que expande para proteger aliados, contrai para sufocar quem desafia a engrenagem da maracutaia despudorada.
O STF deixou de ser percebido como guardião da lei e passou a operar, aos olhos do país, como mecanismo de autopreservação. Cada decisão hermética, cada seletividade evidente, cada blindagem recíproca não produz apenas discordância, mas corrosão.
Não corrói apenas a imagem, mas a vital confiança. E quando a confiança morre, não há mais instituição, sobra apenas a encenação organizada de poder usando toga para fingir legitimidade.
Aqui, a impunidade não é falha, é produto. É a consequência previsível de uma engenharia que garante que o risco não está no ato, mas na posição de quem o pratica.
O país entrou em exaustão moral. O cidadão já não espera justiça, ele calcula exposição. Já não confia, contorna. Já não respeita, tolera.
Pois quando a confiança colapsa, não há mais espaço para ajustes marginais. Impõe-se uma reconstrução institucional profunda, com a existência de mecanismos reais de responsabilização, transparência efetiva e limites claros ao exercício do poder, compulsoriamente de quem deveria ser seu guardião.
No Congresso, isso passa pelo único instrumento legítimo capaz de reorganizar o sistema. Pelo voto, porém, não como rito, mas como filtro.
No Judiciário, passa pela restauração de critérios, previsibilidade e limites que devolvam à instituição aquilo que ela perdeu: confiança.
A questão já não é quem terá coragem de enfrentar. É quem ainda finge não perceber que o que está de pé já não se sustenta, faz muito tempo.


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O NOME DA BARBÁRIE - 18.03.26


Por Alex Pipkin, PhD em Administração

 

Quem ainda preserva um neurônio funcional sente o ar rarefeito. 
Nós estamos vivendo o auge de um teatro do absurdo, onde a mídia dita "progressista" — do atraso — e sectários de umbigo próprio sequestraram o dicionário. 
Para essa turma, qualquer dissidência é carimbada como "extrema direita", enquanto a própria barbárie que eles alimentam é vendida como virtude sob um véu sujo de sangue.
O espetáculo é vil. O grito de ordem “Morte a Israel" deixou de ser um crime de ódio para virar "contexto" em universidades e redações. Não é metáfora; é o desejo explícito de extermínio percorrendo as ruas com a tranquilidade de quem carrega um selo invisível de legitimidade. 
É o antissemitismo saindo do armário com uma fúria global que faz ecoar os capítulos mais sombrios da história, talvez pior pelo escopo, agora blindado pelo aplauso de quem se diz "humanista".
Como podem, em nome do progresso, abraçar a teocracia iraniana? Um regime que oprime mulheres e financiou o massacre de 7 de outubro. Onde está a empatia pelos mais de 35 mil cidadãos iranianos assassinados pelo próprio Estado? A resposta é amarga. Para os fiéis do "ódio do bem", essas vidas não cabem na narrativa. O iraniano que busca liberdade e prosperidade é rechaçado por esse "clube do mal" porque comete o crime de querer dignidade em vez de ideologia.
Criou-se uma blindagem semântica onde o óbvio tornou-se controverso. Essa versão degenerada da política troca a realidade por utopias impossíveis, escolhendo quais cadáveres merecem luto e quais merecem o descarte. Enquanto bradam contra o fascismo, esses "ativistas de barro" beijam as mãos de quem aniquila direitos fundamentais.
O Irã é um país maravilhoso sequestrado por instituições corroídas, assim como o debate público foi sequestrado pelo cinismo de intelectuais de araque. 
A pergunta não é mais se esse movimento é extremista; isso já está escancarado. 
A pergunta que queima a garganta e exige honestidade é por quanto tempo o mundo vai fingir que essa força destruidora não tem nome?
É hora de arrancar as máscaras e batizar o monstro. Isso factualmente é a mais legítima, pura e cruel extrema-esquerda.
Quando eles serão classificados como merecem?


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O ESTADO A QUE CHEGAMOS - 16.03.26


Por Percival Puggina

 

Dezenas de milhões de brasileiros arrendaram a consciência ao senso moral do Estado, desse Estado a que chegamos. Exclamará o leitor: “Impressionante! E a que preço? Qual o valor desse arrendamento?”. Pois então: trata-se de mercadoria alienada a preço vil. A consciência desses cidadãos não vale um centavo mais do que o senso moral do Estado que tenham como senhor de seus bolsos e almas.
 
Se estas são palavras duras, a realidade que todos veem e sentem deveria cortar como lâminas do mais puro aço alemão a couraça de quantos não percebem a malignidade do patrão a que se submetem – o Estado que virou feitor da sociedade. Abriram mão da liberdade de pensar, malgrado os milhares de alertas com que Millôr Fernandes, ao longo dos anos, carimbava suas páginas afirmando que “Livre pensar é só pensar”. E ele não falava na liberdade do pensamento irrelevante, da coisa à toa, sem valor ético nem estético.
 
Para usar uma expressão da moda que não significa coisa alguma, a exemplo de tantos outros modismos como a estampa das meias, os cidadãos a que me refiro abriram mão de seu “lugar de fala”.  Como cidadãos, podem e devem falar, mas o Estado em que vivemos, esse Estado a que chegamos, esvaziou em sala de aula os pneus do pensamento, substituído por maus sentimentos contra qualquer um que ouse pensar fora da esparrela mental em que foram capturados. Só quem já observou a naturalidade com que vandalizam seus próprios ambientes e os assistiu, como que em matilha, expulsando deles, aos gritos de “Recua, fascista, recua!” quem tem a ousadia de pensar, sabe do que e de quem estou falando. E sabe quanto essa conduta faz lembrar um regimento da Hitlerjugend, a juventude hitlerista.
 
Sucessivas décadas de domínio esquerdista do ambiente educacional garantiu a esses moços a condição de face visível do Estado a que chegamos. Refiro-me a um Estado que considera totalmente ociosa a opinião pública. Em si e por si, ele detém o “notável saber”, sendo motivo de escândalo que alguém expresse um pensamento ou um argumento. Aliás, para esse Estado em que vivemos, o cidadão é, sobretudo, um chato, indesejável, de quem se espera e a quem se recomenda o silêncio eterno.
 
Quando se acumulam os escândalos, esse Estado a que chegamos investiga e inferniza a vida do denunciante. Ele interroga quem formula perguntas e se cobre de misteriosos segredos. Enquanto expõe quem incomoda, impõe sigilo sobre o incômodo que causou... Numa analogia bem gentil, faz lembrar aqueles mágicos de arrabalde que encobrem as mãos com um surrado pano preto antes de aparecer com algo já sabido entre os dedos inábeis.
 
Em outubro haverá eleições. É o último recurso disponível para nos resgatar dos abusos do Estado, desse deplorável Estado a que chegamos. Sigamos o bom ânimo inaciano que nos indica trabalhar como se fôssemos a democracia com que sonhamos e tudo dependesse de nós, mas vamos rezar colocando os resultados nas mãos de Deus.


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A ESTÉTICA DO NAUFRÁGIO - 12.03.26


Por Alex Pipkin, PhD em Administração

 

O Brasil atual é uma alucinação semântica. Vivemos o triunfo do adjetivo sobre o fato, em que a incompetência bruta é maquiada com uma estética de necrotério.
Em qualquer organismo funcional, o resultado precede o verbo; por aqui, invertemos a lógica. A lógica petista é, por natureza, ilógica.
O fracasso é o dado concreto, e a narrativa é o anestésico. É o truque mais puído do estatismo de quermesse. Quando a entrega é raquítica, o palanque precisa ser monumental.
Prometeram-nos uma sinfonia de reconstrução, mas o que se ouve é o rangido de uma estrutura que volta a apodrecer. Um crescimento de 2% não é uma marcha épica; é o espasmo de um corpo em letargia, vendido à plateia como milagre.
Enquanto o governo se embriaga com a própria retórica, o agronegócio, nosso único músculo moderno, é tratado com a hostilidade de quem odeia a eficiência. A indústria, por sua vez, definha em um museu de nostalgias protecionistas, recuando décadas em produtividade enquanto o mundo corre para a inteligência artificial.
Nas contas públicas, o cinismo beira o lírico. O gasto é sagrado, a dívida é um detalhe e a responsabilidade fiscal foi rebaixada a uma “ofensa fiscal”.
Em qualquer conselho de administração, o uso de malabarismos para esconder rombos resultaria em demissão por justa causa; no teatro oficial, resulta em bônus para a claque. É o capitalismo de compadrio retornando ao palco, com mais apetite e menos pudor, reabilitando métodos que a memória brasileira carrega como cicatrizes abertas.
A vida real, entretanto, não lê o teleprompter. Ela acontece no caixa do supermercado, na conta de luz e na bomba de combustível. Ali, onde a aritmética é cruel e apolítica, o discurso da "pacificação" se revela o que sempre foi, uma farsa.
Não há união; há uma fadiga institucional saturada de conflito, onde a elite política divide os despojos enquanto o cidadão comum, exausto, financia o banquete.
O contraste com o passado é o golpe de misericórdia na nossa ingenuidade. O "monstro" anterior, descrito com todos os epítetos do dicionário autoritário, não institucionalizou o retrocesso ético com tamanha naturalidade.
Hoje, a promiscuidade entre o poder e o capital voltou a ser o oxigênio de Brasília, e o escândalo é apenas um ruído de fundo na festa dos eleitos.
Prosperidade não nasce de slogans morais. Nasce de resultado. Sem entrega, a eloquência é apenas o barulho de um navio que aderna enquanto a orquestra toca em tom maior.
O banquete da retórica acabou, embora os “progressistas do atraso” não queiram perceber.
Resta saber quem terá estômago para a conta da realidade. No final, a lógica “lógica”, a verdade, sempre apresenta a fatura. Essa não aceita metáforas como pagamento. Definitivamente, não.


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O PODER QUE TUDO PODE - 09.03.26


Por Percival Puggina
 
 
             Durante o governo Bolsonaro, bem mais de uma centena de decretos, MPs, programas e políticas de governo e de Estado foram barrados pelo STF. Muitas dessas medidas eram antigas aspirações nacionais, outras tantas haviam sido explicitadas na campanha de 2018 e receberam a bênção das urnas, outras, por fim, eram iniciativas inéditas do governo. Tais intervenções do Supremo foram solicitadas pela oposição e levadas à Corte pelo senador Randolfe Rodrigues, então filiado à Rede, que foi muito exitoso na transformação do Supremo em longa manus da oposição ao governo Bolsonaro.
 
Lembremos alguns desses casos. O Supremo impediu, por exemplo, a nomeação de Alexandre Ramagem como diretor-geral da PF. Impediu a redução do número de sovietes (os tantos conselhos que o petismo cria e com os quais passa a controlar administrações e governos). Frustrou medidas que facilitariam o porte de armas. Protegeu a UNE, travando a criação da carteira estudantil digital gratuita, fornecida pelo governo. Impediu a transferência da demarcação de terras indígenas para o Ministério da Agricultura, e por aí vai. A lista é imensa.
 
Quando a polêmica chegava à sociedade, vinha da Corte a explicação: tratava-se do exercício da “função contramajoritária” do STF. Assim, caberia àquele colegiado o papel de preservar direitos inerentes às minorias numa sociedade democrática. Há quem aprecie esse tipo de explicação e se dê por satisfeito. No entanto, chama muito a atenção o fato de que após a eleição de Lula, nunca mais esse papel contramajoritário enfeitou qualquer argumento do Supremo...
 
Lembro, então, das pessoas simples, idosas, impotentes para praticar os crimes que lhes são imputados na narrativa do 8 de janeiro, sem que isso mobilize as energias protetivas do STF. Sou levado a crer, então, que o papel contramajoritário foi cumprido e se esgotou nas conveniências daquele período. Agora, ele vai para a mesma gaveta em que jaz, pedindo para ser esquecida, a vergonhosa carta da USP que tanto malefício sacramentou em agosto de 2022.
 
Quem conhecesse a conduta do banqueiro Vorcaro sabia que aquilo não ia acabar bem. O excesso de excessos é um pecado capital. Mas não era apenas em Vorcaro que se manifestava a impetuosidade do poder em desatino. Mais grave ainda e com consequências mais danosas: a mesma nocividade inerente ao poder que julga poder tudo se foi fazendo visível e ameaçadora no Brasil. O STF se descolava da melhor tradição e de regras básicas sobre moderação e autocontenção.
 
Relatos de poderes que podem tudo cruzam milênios de história num catálogo de tragédias políticas e sociais pela ação de indivíduos ou juntas governativas. Sua trajetória inicia com a concentração do poder, evolui para o ufanismo e a autodivinização (“Nós somos os supremos!”), padece com a subsequente paranoia e entra em colapso.
 
Isso é tão sabido que parece resposta de almanaque.


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O FIM DA INFÂMIA E O RESGATE DA REPÚBLICA - 05.03.26


Por Alex Pipkin, PhD em Administração

 

O Brasil não atravessa uma crise; o país atravessa um sequestro institucional.
Chegou a hora de rasgar o véu do "juridiquês" elegante que, na prática, serve apenas como a luva de pelica que esconde o soco de uma máfia.
O que vemos de forma cristalina hoje é a metamorfose do Estado em um labirinto de conveniências, em que a toga se confunde com o escudo e a lei se torna o esconderijo dos gângsters.
Não estamos mais falando de meros desvios financeiros ou burocracia lenta. Estamos assistindo e falando de um sistema que convive com métodos de barbárie enquanto encastela figuras de olhar enviesado e protegidos das cortes. Onde está o "fiscal da lei"? A Procuradoria foi reduzida a um "caramelo" institucional, pronto para latir apenas sob comando, enquanto o país sangra em insegurança jurídica.
A verdade nua e crua é devastadora, pois a lei sem a coerção é apenas um conselho que os poderosos ignoram com o cinismo de quem murmura, de maneira singela, “fazemos o que queremos".
Para romper essa infâmia, a resposta não virá de uma reforma tímida, mas de um choque terminal de virtude.
Precisamos de senadores que não temam a "gaveta" de ministros, mas que temam a história. É preciso coragem legislativa para extinguir a vitaliciedade e impor mandatos fixos no STF, garantindo que ninguém se sinta dono do destino da nação por décadas. É urgente implodir o absolutismo das decisões monocráticas e exigir a responsabilização real de quem transforma a justiça em balcão de negócios.
Mas o Congresso só terá espinha dorsal se sentir o hálito da indignação popular nas nucas de Brasília. As redes sociais são o pavio, mas o transbordamento das ruas é o fogo que purifica.
A autoridade da Justiça não nasce de normas frias, mas do solo sagrado da confiança pública. Sem ela, os tribunais são apenas prédios caros habitados por sombras.
Salvar a Justiça de sua própria estrutura não é um ataque; é um ato de legítima defesa da República.
Definitivamente, é o grito final de uma nação que recusa ser governada pelo arbítrio disfarçado de processo.
Não há mais como procrastinar, ou restauramos o império da lei com a força da coragem, ou entregamos nossas chaves aos sicários do sistema.
O Brasil não espera mais prudência. O Brasil exige justiça.


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