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ACORDO MERCOSUL E UNIÃO EUROPEIA: SOBERANIA, EMPREGO E FEDERALISMO EM RISCO - 30.01.26



 Por Thomas Korontai, jornalista, empresário e coordenador nacional da Liga Federalista Nacional.
         
O Acordo Mercosul e União Europeia vem sendo apresentado como um marco histórico para o comércio exterior brasileiro. A narrativa oficial insiste em ganhos de acesso a mercados e aumento de exportações. Mas, quando se observam os números em proporção e os compromissos assumidos, a pergunta central passa a ser outra: vale a pena submeter o Brasil a um amplo conjunto de normas externas, de caráter permanente, a maioria inapropriadas, em troca de hipotéticos ganhos econômicos?
Em 2025, o Brasil exportou aproximadamente US$ 350 bilhões para o mundo. Desse total, cerca de US$ 50 bilhões tiveram como destino a União Europeia. Segundo estimativas divulgadas pela APEX, o acordo poderá gerar um incremento adicional de cerca de US$ 7 bilhões nas exportações brasileiras para o bloco europeu – algo próximo de 2% do total exportado pelo país. Sim, 2%...
É verdade que a ideia de fazer parte de um mercado de USD 22 trilhões soa tentadora, mas os números seccionados trazem uma visão realista: desse total, USD 18,5 trilhões são da UE, USD 2,17 trilhões do Brasil, e o resto dos demais países, incluindo a convidada Bolívia. Esses dados não negam a importância da União Europeia como parceiro comercial do Mercosul, é ótimo caminhar ao lado dos mais ricos, mas o problema é que essa assimetria favorável à UE vai nos forçar à aceitação de compromissos regulatórios profundos e irreversíveis, especialmente quando o ganho estimado é limitado.
Por outro lado, o Brasil já enfrenta um processo de desindustrialização há mais de duas décadas. Embora a ascensão da China como parque industrial do mundo tenha tido impacto relevante, o principal fator sempre foi interno: o péssimo ambiente para se fazer negócios no país, alta carga tributária, burocracia excessiva, insegurança jurídica, complexidade judicial, regras trabalhistas rígidas e incompatíveis com uma economia de mercado, custo elevado do capital, juros estruturalmente altos, deficiência logística, escassez de mão de obra qualificada e instabilidade política e institucional, tudo facultado por uma estrutura federativa esquizofrênica e cada vez mais centralizada, formam um conjunto de obstáculos que fragilizam a indústria nacional e toda a cadeia produtiva associada, incluindo comércio, agricultura e serviços. Inserir esse sistema produtivo fragilizado em um acordo que impõe padrões regulatórios elevados, concebidos para economias muito mais ricas e estáveis, tende a aprofundar assimetrias, não a reduzi-las.
Pelo lado europeu, agricultores estão em pé de guerra com Bruxelas. França, Holanda, Alemanha, Bélgica e Espanha testemunham há meses protestos massivos, com tratores nas ruas, contra políticas ambientais impostas pela União Europeia. Entre as principais queixas estão a taxação indireta por emissões de carbono (as lições do ginásio sobre o CO₂, como base da vida, foram soterradas pelas narrativas e regulamentos), inclusive na pecuária, restrições severas ao uso da terra, exigências ambientais crescentes e instáveis, risco de confisco ou reclassificação de propriedades, aumento de custos sem compensação econômica adequada, dentre outros problemas causados pelo centralismo europeu, avançando para a liberdade de expressão, algo impensável para um povo que há 80 anos livrou-se das ameaças nazistas e fascistas e, há 45 anos, derrubou o Muro de Berlim.
Parece uma síndrome totalitária cíclica. Nesse sentido, um tratado como o do Mercosul com a UE que impõe regras a todos os parceiros signatários traz um perigoso paradoxo ao nosso povo e ao nosso país, pois as consequências que citei são reais. E pior, desejáveis pelos burocratas e tecnocratas de Bruxelas. A pergunta é inevitável: o que exatamente a Europa tem a nos oferecer, além da exportação de um modelo regulatório que enfrenta rejeição interna? Estaríamos sendo usados como proxy da mentalidade que controla o Velho Mundo, que abriu as fronteiras para as invasões que seguem destruindo a cultura de vários países, que já estão se tornando irreconhecíveis? Mesmo sendo nós, brasileiros, um dos povos mais receptivos do mundo, queremos ser invadidos assim também? E o Paraguai, com políticas internas que o impulsionaram como economia emergente com altas taxas de crescimento, como aceitou isso? E os demais?
O problema europeu são as agendas estranhas à liberdade. Uma delas é a ESG – Environmental Social Governance –, que vem funcionando como um experimento regulatório transnacional. É mais uma das regras que farão parte do ordenamento jurídico brasileiro, por força do tratado, sem que tenha havido qualquer votação no Congresso. Por meio de selos, certificações e exigências de conformidade, cria-se um “sistema de incentivos” que, no longo prazo, tende a excluir do comércio empresas que não se submetam a padrões definidos fora de seus países de origem. Já pensou sua empresa ser absolutamente controlada, mais do que já é, por governos de fora também? E, se não tiver a porcaria de um selo, você está fora, seu cliente estará proibido de comprar de você?
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Friso aqui que não se trata de negar a importância ambiental, mas de reconhecer o risco de coerção indireta. Barreiras comerciais disfarçadas de virtude ambiental comprometem a autonomia empresarial, encarecem a produção e reduzem a liberdade de escolha de produtores e consumidores.
No conceito do ESG, dentre outros regulamentos, cito alguns dos impactos regulatórios potenciais: indústria – barreiras técnicas, custos de compliance, exclusão de pequenas empresas; agricultura – regras ambientais rígidas, rastreabilidade onerosa; pecuária – taxação indireta por emissões; Estados e municípios – execução local de normas externas; pequenos produtores – dificuldade de adaptação e acesso a mercados.
Há um problema muito sério sobre os tratados internacionais: eles são negociados por governos centrais e ratificados pelo Congresso, sem que haja uma discussão ampla com os setores da vida nacional. A tendência é de ratificação por falta de coragem para debater assunto internacional de envergadura, adiar e negar ratificação, e espero muito francamente que este singelo artigo possa chamar a atenção sobre esta ameaça real ao nosso povo.
Seus efeitos recairão diretamente sobre estados, municípios e produtores locais. Ou seja, ignoram completamente a federação, passando por cima do art. 18 e também do art. 60 da Constituição Federal, bem como o art. 1º, que trata da soberania nacional. Por força do tratado, caso seja ratificado, a adoção de normas estrangeiras passa a ser automática, comprometendo a soberania regulatória brasileira e deslocando o centro de decisões para fora do país.
Temos, portanto, obrigação de questionar e impedir esse Acordo do Mercosul com a União Europeia, longe de rejeitar o comércio internacional, ou propor o isolamento, ou comportamento xenófobo. É compreender que, em uma mesa de negociações entre duas nações, com interesses mútuos como objeto de trocas comerciais, é muito mais seguro do que sentar-se à mesa com vários países, sendo uma das cadeiras ocupada por uma potência vinte vezes maior do que todos os países componentes do Mercosul.
O desequilíbrio do acordo do Mercosul com a UE é patente. E o Brasil é uma economia diversificada, com um mercado interno que pode significar oportunidades, e uma grande cesta de negócios para relações bilaterais com mais de duzentos outros países. Negociações bilaterais e acordos pontuais, baseados em vantagens comparativas reais, sempre se mostraram mais flexíveis e eficientes. É assim que grandes potências negociam. Com a Europa, é melhor negociar com cada um dos países europeus, e não com a União de todos eles.
Nesse sentido, ingressamos com uma proposta legislativa junto à Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa do Senado Federal para que o Congresso Nacional, que tem o poder constitucional de ratificação, rejeite o acordo do Mercosul com a UE, pelos grandes riscos que não justificam as pequenas vantagens, vantagens estas que vão beneficiar mais especificamente um seleto grupo de grandes players do agronegócio. Está na hora de o Brasil se preocupar com sua soberania de verdade, não a ideológica no campo geopolítico, mas a geoeconômica, que é a base que garante de fato a autonomia das nações. Trata-se de uma lição antiga, de Thomas Jefferson, que recomendava o comércio bilateral como forma de autopreservação.


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DEMOCRACIA TOTALITÁRIA - 26.01.26


Por Percival Puggina

 

Viver numa democracia é privilégio cada dia mais raro. Minha geração cresceu bebendo democracia à americana, de canudinho, como Coca-Cola ou saboreando à europeia, como barrinha de chocolate suíço. Europa Ocidental do pós-guerra e Estados Unidos eram as referências culturais e políticas. Hoje, o Ocidente oferece sua cultura, tradição, princípios, valores e convicções em sacrifício no altar do multiculturalismo, do globalismo e os EUA só não estão fazendo o mesmo porque Trump não está deixando. O balaio de renúncias descarta, igualmente, a Verdade e o Bem. Vá e veja. Informe-se e saiba.
 
Em 2019, ano que marcou o fim de uma era no Brasil, as poucas virtudes nacionais foram jogadas num corredor polonês como resíduos da “ultradireita”. Observe, nestes dias, a conduta de quantos – quantos! – racharam os dedos aplaudindo os excessos no uso do poder do Estado, mesmo quando aplicado com voluntariedade de causar arrepios à mais prosaica letra da mais corriqueira lei. O que antes era defendido com unhadas e dentadas retóricas em qualquer microfone ou mesa de bar, agora é afastado com fingido desprezo, que parece extraído de uma página de Esopo: “Não estou acompanhando”. Uvas maduras da hipocrisia...
 
A experiência da modernidade mostra que, fora dos controles, o poder age como o álcool sobre o alcoólatra de quem demanda doses crescentes do vício com o qual se perdeu. O título deste artigo reproduz o título de um livro importante, ao qual o autor acrescentou subtítulos que informam sobre o conteúdo abordado nessa contradição em termos do título principal: Natureza e origens; e Psicopatologia e Psicologia Social. 
 
Tive o privilégio de desfrutar, durante vários anos, do convívio frequente e da amizade do saudoso José Antônio Giusti Tavares, autor de Democracia Totalitária. Ele era doutor em Ciência Política, destacado professor, escritor de inúmeras outras obras e um incansável garimpeiro da verdade. Nessa bateia encontrou à fé dos Apóstolos.
 
Publicado em 2015, o livro entrega seu produto, também, à posteridade. Ao relê-lo, passada uma década da primeira leitura, percebo que a competência do amigo Tavares se revela ainda mais contundente, como se o escrevesse mirando o Brasil de 2026. Quando escrutina as características das sociedades de massa e as consequentes perdas da individualidade, Tavares aponta as dificuldades inerentes à compreensão da democracia por pessoas simples, levando-as a preferir líderes e regimes totalitários, que reduzem os riscos e as incertezas inerentes ao exercício da liberdade. Páginas adiante, salta aos olhos do leitor de hoje o retrato falado do líder paranoico, missionário de uma causa para cujo êxito “deve eliminar inimigos perigosos, que conspiram contra ele num conflito do qual resultará como único sobrevivente” ...
 
Por isso, numa sociedade de massa, em que as misérias cultural, material e moral caminham lado a lado, aos tropeços, em meio à mistificação e autoritarismo, mais do que nunca, esclarecer é preciso. A marcha firme, corajosa e virtuosa de Nikolas Ferreira é um exemplo de quanto podem um homem e sua fé.


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CANGOCRACIA: ONDE TUDO FUNCIONA NA NARRATIVA - 20.01.26


Alex Pipkin, PhD em Administração

 

Aqui, repetem com tranquilidade quase terapêutica, não há ruptura alguma. As instituições funcionam. O Estado do bem-estar segue firme. A democracia resiste.
É preciso, com certo constrangimento, concordar. Funciona, sim, na narrativa. Funciona exatamente como foi desenhada para funcionar. Não para elevar o indivíduo, nem para produzir prosperidade sustentável, mas para conservar um arranjo em que o custo é pulverizado e as vantagens se acumulam junto aos que gravitam o poder.
Esse arranjo tem nome: cangocracia. Um sistema que fala em coletividade enquanto organiza privilégios privados; que invoca direitos humanos para justificar a erosão do mérito; que prega igualdade aos governados e concede exceções aos intermediários do Estado. Em nome de alguma causa superior, sempre nobre no discurso, sempre opaca na prática, exige-se sacrifício dos muitos e oferece-se proteção aos rentistas e corruptos no poder. A linguagem é compassiva; o efeito é dependência e atraso.
Aqui, políticas públicas não são julgadas por resultados, mas por intenções proclamadas. O erro não apenas persiste. Não, ele ascende, desde que saiba se apresentar como qualidade. O fracasso econômico se transforma em nobre prova de sensibilidade social. A estagnação é vendida com muito zelo. 
Submeter o Estado à lógica elementar da realidade, ou seja, incentivos, custos, consequências, passa a ser demonizado, tratado como desumanidade.
O intervencionismo estatal cumpre, então, seu papel central dentro da cangocracia. Ele desorganiza a economia, desestimula a produção, infantiliza a cidadania e amplia o raio de influência do poder. 
Não se trata de ignorância histórica. A experiência econômica humana é vasta e clara. Trata-se de uma estratégia que troca prosperidade por controle e chama isso de justiça.
Nesse ambiente, o “grande” STF deixou de ser apenas guardião da Constituição para operar, crescentemente, como justiça seletiva, funcional aos objetivos desse arranjo. A lei não desaparece; ela é administrada. Quando a aplicação varia conforme o alvo e a conveniência, a justiça deixa de ser contrapeso e passa a ser engrenagem do perverso sistema.
A cangocracia se sustenta menos por entregar bons resultados do que por construir uma blindagem moral contra a crítica. 
Fora da narrativa coletivista, evidente que o sistema não funciona. Os dados estão à vista: crescimento pífio, serviços públicos caros e ineficientes, pobreza persistente, imoralidade sem disfarce, corrupção escancarada, e uma sociedade treinada a pedir em vez de exigir responsabilidade.
Romper com isso não começa com uma grande reforma estatal. 
Começa com a recusa individual em aceitar mentiras bem embaladas em papel vermelho. Com a singela, mas dura decisão de mudar a si mesmo, antes de querer “transformar o mundo”, de caminhar com as próprias pernas e assumir a dignidade que a tutela promete proteger enquanto asfixia. 
A experiência brasileira com essa esquerda mentirosa e irresponsável demonstra, com clareza cruel, até onde um país pode afundar quando transformam o fundo do poço em projeto.
Pior, ainda chamam isso de “governo da união e da reconstrução”, prometendo progresso e justiça social.
Mas fora da narrativa peçonhenta, a única coisa que entregam é pão ralo, picanha inexistente e, claro, cervejinha morna.


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O SILÊNCIO PREMIADO - 20.01.26


Por  Alex Pipkin, PhD em Administração

 

A polêmica em torno de Wagner Moura, como quase sempre, não é o filme. É a declaração. E, como quase sempre, ela gira em torno das ditaduras certas. 
Sim, daquelas já enterradas, domesticadas pelo tempo, seguras para serem condenadas sem risco. A controvérsia parece interminável não porque o tema seja complexo, mas porque a seletividade moral se transformou em um — mau — hábito. É daí que tudo começa.
Há ditaduras que ocupam o imaginário cultural com eficiência simbólica. A ditadura militar brasileira, por exemplo, tornou-se presença recorrente em discursos enfáticos, roteiros eloquentes e cerimônias solenes. Nesse sentido, é preciso reconhecer que Wagner Moura é do métier, tem experiência comprovada, conhece o ofício e domina a linguagem. Como ator, demonstra talento de sobra. Ele vem, há anos, expondo o caráter nefasto daquele período passado, e o faz com competência técnica e convicção estética.
O que chama atenção não é isso. O que constrange é a curadoria moral do horror. É curioso — ou revelador — como apenas esse tipo específico de ditadura, retrospectiva, segura no tempo e inofensiva ao presente, parece digna de circular no mercado cultural. Ditaduras vencidas rendem aplausos. Ditaduras em curso rendem silêncio. E o silêncio, curiosamente, é premiado.
Por que não um filme sobre Cuba? Não o cartão-postal folclórico, mas o cotidiano real, encharcado de censura, miséria, dissidentes presos, gerações inteiras confinadas à escassez e ao medo. Por que não a Venezuela de Maduro, onde prisões políticas são banalizadas, a fome deixou de ser nota de rodapé e um terço da população precisou fugir do país? Quando se fala na captura de Maduro, escandalizam-se em nome da soberania. A soberania, nesse caso, está muito, mas muito bem cuidada. O povo, grotescamente, nem tanto.
O problema não é falta de roteiro. A realidade escreve sozinha. O problema é que esses roteiros exigiriam confrontar o próprio campo, e isso não rende tapete vermelho. Rende constrangimento. Constranger o próprio campo se transformou no maior pecado artístico.
Há também o verniz institucional, essa “respeitabilidade” de notas técnicas, carimbos solenes e juridiquês formal — muitas vezes mal escrito — que apenas concede toga ao arbítrio. Políticos disfarçados de ministros, amigos do amigo do meu amigo, operam prodígios surreais. Esses protegem interesses espúrios e libidinosos em nome da legalidade abstrata, enquanto chamam censura de zelo democrático. Igualmente, de defesa do Estado democrático de Direito.
Talvez por isso esses filmes não existam. Não falta talento. Como ator, Wagner Moura demonstra isso com sobra. Falta coragem. Falta disposição para perder convites, prêmios e a confortável unanimidade do aplauso “progressista”. O silêncio, afinal, segue sendo a escolha mais segura. Como se vê, segue sendo amplamente recompensado.
É, por isso, no mercado cultural, a coragem ainda não dá prêmio, mas o silêncio, quase sempre, garante o “nobre” pertencimento.


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A POBREZA COMO ATIVO POLÍTICO



Por Alex Pipkin, PhD em Administração

 

O progressismo construiu sua autoridade moral sobre uma contradição rara. Seus apologistas afirmam governar para erradicar a pobreza, mas dependem politicamente de sua permanência. Não é desvio; é modelo de poder cuja estabilidade exige gestão contínua da carência.
Na biologia evolutiva, o parasita bem-sucedido não elimina o hospedeiro. Mantê-lo enfraquecido garante sobrevivência; matá-lo seria autodestruição. 
Transposta à política social, essa lógica não é metáfora; é funcional. Há também uma dimensão ética que a sustenta, ou seja, um altruísmo distorcido que transforma dependência em qualidade moral e autonomia em ameaça.
A economia chama de “poverty trap” o conjunto de políticas que aprisiona indivíduos em baixa renda, baixa produtividade e baixa autonomia. Transferências permanentes sem incentivos claros. Programas sem saída. O progressismo denomina isso de justiça social. Recompensar a dependência é perpetuá-la.
Programas nascem como exceção e morrem como regra. Emergências se eternizam. A autonomia econômica vira suspeita de ameaça. O pobre ideal não é o que prospera, mas o que permanece elegível: forte o suficiente para sobreviver, fraco o bastante para agradecer. 
Como ironizava Roberto Campos, nada é mais duradouro que um programa estatal temporário.
A elite progressista administra à distância, protegida de custos e blindada de consequências. Quando não há preço pelo erro, o erro se consolida. Corrupção deixa de ser anomalia; indisciplina fiscal deixa de ser falha. Ambas se tornam rotina. A ética se corrompe, fazendo com que o fraco seja celebrado, o forte demonizado; o dependente, necessário; e o autônomo, questionável.
O progressismo não fracassa apesar da pobreza persistente. Funciona graças a ela. Seu maior medo não é a desigualdade. É a autonomia. A pobreza deixa de ser problema e se torna recurso. Mais que isso, ele sequestra valores, redefine qualidade moral e transforma o dependente em figura central da ordem política.
A política social, longe de justiça, revela-se pelo que sempre foi e é. É um mecanismo de poder estruturado sobre dependência, ética corrompida e temor da autonomia. 
Quem acredita que a pobreza é acidente ainda não despertou. Quem entende sua função vê, por trás da retórica, o coração frio e calculista do sistema.


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FÉ CEGA E PAPAI NOEL POLÍTICO - 13.01.26



Por Alex Pipkin, PhD em Administração

O Brasil de hoje é um circo de ilusões, e nós somos os contempladores da enganação. 
Quarenta por cento aplaudem Lula como se fosse o redentor da ética; trinta e quatro por cento seguem Bolsonaro como se fosse a encarnação do pragmatismo perdido. O problema não é a divergência — cada um pensa como quer —, mas a recusa obstinada em enxergar fatos. É dissonância cognitiva em estado puro: acreditar que desastre é privilégio, que incompetência é qualidade e que corrupção é detalhe menor.
O desgoverno atual é um festival de absurdos. Educação ideologizada que mantém o país nos últimos lugares dos rankings internacionais, saúde pública à beira do colapso, infraestrutura de faz-de-conta, elites corroídas pela corrupção, INSS transformado em playground para saque. Ainda assim, o governo produz vídeos celebrando o “imagina não ser brasileiro”, como se administrar o caos fosse um privilégio civilizacional. A ironia é tão pesada que poderia esmagar um cavalo.
Do outro lado, Bolsonaro e seus seguidores não estão imunes à mesma cegueira. Muitos defendem políticas corretas não por convicção racional, mas porque estão associadas a um nome que lhes agrada. A lógica é acessória; a fé é central. Cada provocação da esquerda se transforma em declaração de guerra; cada crítica ao desgoverno, ataque existencial. Não há debate de projetos, há sentimentalismo ideológico. O pragmatismo econômico existiu quando houve equipe técnica; Bolsonaro escolheu Paulo Guedes. Lula escolheu Haddad como “técnico econômico”, apesar de ações e resultados que expõem sua incapacidade como especialista. A comparação é desproporcional, mas irrelevante para o fiel. É Lula. Logo, tudo se justifica.
O ativismo completa o espetáculo. A esquerda milita por causas distantes — do “rio ao mar”, à blindagem de tiranos como Maduro, sempre invocando soberania seletiva e indignação sob medida. A coerção externa incomoda; a doméstica é relativizada. Mas ninguém sai às ruas pela saúde sucateada, pela escola que não ensina, pela segurança inexistente ou pela infraestrutura precária. À direita, repete-se o padrão: defende-se o nome, não a realidade concreta que sufoca o país. Nenhum lado luta por causas; ambos lutam por símbolos.
Isso acontece porque a mente humana prefere conforto à verdade. Admitir falhas do líder ou inconsistências da própria tribo dói. 
A dissonância cognitiva funciona como anestesia moral: “Ele não errou”, “ele não roubou”, “eu não fui enganado”. A política vira fé infantil. Pergunta-se: “Você acredita em Papai Noel?” — e ambos respondem “sim”, com convicção inabalável. Risível.
A saída existe, mas exige coragem rara. Demanda trocar nomes por ideias, líderes por políticas, fé por razão. Exige autocrítica, exige aceitar fatos, exige maturidade cívica. 
Até lá, o Brasil seguirá aplaudindo o espetáculo, acreditando que desastre é privilégio e incompetência é qualidade.
O Brasil, país de fé cega, milagres anunciados e desastres celebrados, continua a acreditar em Papai Noel e na sua própria santidade ilusória.


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