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O LEVIATÃ AMEAÇA A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - 11.06.26


Por Dagoberto Lima Godoy


O Brasil parece disposto a regular a inteligência artificial antes mesmo de compreender bem do que se trata. Em nome da proteção de direitos, da segurança e da transparência, uma nova camada de controle sobre o ambiente digital avança no Congresso e no Executivo. A intenção declarada é nobre, como quase sempre é. Mas a história ensina que o poder raramente se expande confessando seus verdadeiros apetites. O Leviatã moderno não se apresenta como tirano, mas como tutor.
A inteligência artificial é a inovação mais decisiva de nosso tempo — talvez de todos os tempos. Ela afetará a produtividade, a ciência, a indústria, a educação, a saúde, a defesa, a administração pública e será decisiva para a competitividade internacional. O país que souber usá-la ganhará velocidade; o que a constranger — por medo, burocracia ou suspeita — ficará para trás.
É claro que há riscos: fraude, manipulação, violação de intimidade, discriminação, abuso de dados e vigilância indevida. Mas a resposta não pode ser transformar a inovação em território vigiado, submetido a conceitos vagos como “alto risco”, “impacto sistêmico”, “uso responsável” ou “falha sistêmica”, entregues à interpretação de burocracias reguladoras.
A norma vaga é o instrumento preferido do Estado sedento de poder. Ela não proíbe claramente; intimida. Não censura diretamente; induz à autocensura. Não impede a inovação por decreto; torna-a cara, arriscada e juridicamente insegura.
O resultado é previsível. Plataformas e empresas passam a remover conteúdos, bloquear experiências e evitar riscos antes mesmo de qualquer ordem estatal. Ao mesmo tempo, os grandes grupos saem fortalecidos, pois têm departamentos jurídicos, equipes de compliance e acesso permanente ao Estado. Já startups, pesquisadores, pequenas empresas e empreendedores locais são empurrados para fora do jogo.
Assim, uma regulação apresentada como defesa da sociedade pode acabar concentrando mercado, sufocando a inovação nacional e aumentando a dependência de plataformas estrangeiras. O Estado diz proteger o cidadão, mas termina protegendo os gigantes e constrangendo os pequenos.
Não se trata de defender uma terra sem leis. O Brasil já as tem até em excesso, embora muitas vezes desconsideradas até por quem existe para por elas zelar. O que se contesta é a criação sucessiva de novas estruturas administrativas, com sanções, relatórios, deveres genéricos e crescente margem de intervenção política.
A inteligência artificial precisa de responsabilidade, mas precisa, sobretudo, de liberdade. Sem liberdade, não há ciência viva, mercado dinâmico nem criatividade transformadora. O perigo não está apenas nos abusos da IA, mas na tentação de usar esses abusos como pretexto para domesticar a inteligência humana.


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O APAGAMENTO DOS LIMITES - 10.06.26


Por Alex Pipkin -  PhD em Administração
 
A crença mais perigosa do nosso tempo é a de que o problema está no sistema. Não está. O problema está no homem.
Mudam os regimes, mudam as bandeiras, mudam os discursos, trocam-se os salvadores da pátria. O ser humano, porém, permanece surpreendentemente parecido consigo mesmo.
A inveja atravessou séculos. A cobiça atravessou impérios, e a sede de poder sobreviveu a todas as revoluções que prometeram eliminá-la.
Foi justamente por reconhecer essa realidade que a civilização construiu limites. Primeiro surgiram os limites morais, expressos na honra, no dever, na responsabilidade e no caráter. Depois vieram os limites institucionais, materializados nas leis, nas constituições e na separação dos poderes.
A lógica era simples. Se os homens são imperfeitos, precisam de limites. E se aqueles que governam também são homens, o poder precisa de limites ainda maiores.
Durante séculos, essa combinação imperfeita permitiu algo extraordinário. Logrou a liberdade sem anarquia e autoridade sem tirania.
O problema é que passamos a enfraquecer os dois pilares simultaneamente.
A moralidade foi transformada em relíquia. A vergonha desapareceu do vocabulário público. O dever tornou-se antiquado. O autocontrole passou a ser visto com desconfiança.
Ao mesmo tempo, os limites institucionais passaram a ser tratados como obstáculos por aqueles que se julgam portadores de causas superiores, virtudes superiores ou missões superiores.
Nenhuma sociedade permanece saudável por muito tempo quando a consciência perde força e o poder perde contenção.
A velha sabedoria popular dizia que a ocasião faz o ladrão. A experiência humana sugere algo diferente. A ocasião não cria o ladrão, apenas revela quem ele já era.
Civilização nunca significou transformar homens imperfeitos em seres perfeitos. Significou criar barreiras capazes de conter seus impulsos mais destrutivos.
Quando os limites morais enfraquecem e os limites institucionais deixam de cumprir sua função, ressurge aquilo que a civilização sempre tentou domesticar; a luta permanente por vantagens, privilégios e poder, frequentemente disfarçada de virtude.
É nesse ponto que as sociedades iniciam sua marcha regressiva. A prosperidade pode sobreviver por algum tempo, a tecnologia pode continuar avançando e as aparências podem até sugerir normalidade. Mas, quando desaparecem os limites que contêm os impulsos humanos e restringem os abusos do poder, o processo de decadência já começou.
As sociedades raramente morrem por falta de riqueza. Morrem quando desaparecem os limites que contêm os homens e o poder.
A grande conquista da civilização nunca foi eliminar os nossos defeitos, mas impedir que eles assumissem o comando.


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A QUÍMICA DO INGÊNUO - 03.06.2026


Por Alex Pipkin, PhD em Administração

 

Amadores negociam posições. Profissionais negociam interesses.

Na geopolítica das potências, a retórica ocupa os holofotes; os interesses escrevem o roteiro.

Essa é uma das regras mais antigas do poder. Ainda assim, continua sendo ignorada por quem confunde cordialidade com convergência de interesses.

Quando Donald Trump afirmou existir uma “química” entre ele e Lula, muita gente interpretou a frase como um sinal de proximidade. Talvez tenha sido apenas mais uma demonstração de algo que negociadores experientes fazem todos os dias; utilizar a simpatia como instrumento.

A diferença entre o amador e o profissional não está na capacidade de dialogar. Está na maturidade de compreender que simpatia e interesse raramente sentam na mesma cadeira.

Na política internacional não existem amizades permanentes; existem interesses permanentes.

O problema começa quando governos passam a acreditar que relações pessoais podem substituir estratégia ou que afinidades ideológicas podem substituir interesses nacionais.

A realidade costuma ser bem menos romântica.

Nos últimos meses, sinais vindos do exterior sugerem uma mudança de percepção em relação ao Brasil. Atritos diplomáticos, divergências institucionais, tensões comerciais e preocupações com segurança pública deixaram de ser assuntos restritos aos especialistas e passaram a integrar o cálculo estratégico de outros países.

Ignorar esses sinais não os torna menos reais.

Há uma ironia quase cruel nesse cenário.

Enquanto o país enfrenta desafios ligados à produtividade, à competitividade internacional e à atração de investimentos, parte do debate público parece concentrar-se na distribuição de benefícios antes da geração de riqueza.

É a imagem de um maratonista tentando correr os últimos quilômetros carregando um piano nas costas.

Mas o espantoso não é a conta ter chegado. É a surpresa de quem a recebe.

A surpresa de quem acreditou que populismo, diplomacia ideológica, desprezo pela produtividade e uma política externa guiada por preferências políticas e ideológicas poderiam produzir prosperidade duradoura.

Trump nunca esteve à mesa para defender os interesses do Brasil. Estava lá para defender os interesses dos Estados Unidos.

E é exatamente para isso que presidentes são eleitos.

Enquanto alguns apostavam na química, Washington calculava o seu BATNA (Best Alternative to a Negotiated Agreement): a melhor alternativa caso não houvesse acordo.

Em outras palavras, enquanto um lado apostava na afinidade, o outro avaliava alternativas.

Grandes nações não têm amigos. Têm interesses. E os interesses, ao contrário da química das aparências, não desaparecem quando a conta chega.

Talvez ela já esteja chegando.

A ameaça de tarifas sobre produtos brasileiros atinge empregos, investimentos e renda justamente quando o país já sufoca quem produz com impostos, burocracia e baixa competitividade.

A matemática é simples.

Nenhuma nação enriquece punindo quem gera riqueza.

Populismo rende discursos. A realidade envia a conta.


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MEXA-SE - 26.05.26


Por Percival Puggina
 
 Você sabia que nos totalitarismos o Estado aplica força punitiva menor contra alguém que fez algo do que contra muitos, apenas por serem o que são? Independentemente de qualquer conduta individual, Robespierre perseguia membros da nobreza, clérigos, monarquistas e girondinos. Lênin e Stalin, cada um a seu turno, faziam o mesmo com intelectuais, empresários e produtores rurais. Hitler eliminava judeus por serem judeus. Mao Tse Tung eliminava professores, cientistas e, claro, líderes religiosos e minorias. Fidel e Che Guevara perseguiam gays, intelectuais e padres.
 
Quebrados os ovos mais pavorosos da história para fazer trágicos omeletes e com bem nutrido poder, eles derrubavam todos os marcadores, todas as balizas e invadiam a vida privada. Sob o peso de seu braço, nunca houve direito contra a vontade do Estado. Nenhuma dissidência ou divergência era tolerada. Para assegurar-se disso, o aparato estatal protagonizava coerção, disseminando terror na sociedade.
 
Se você, assim como eu, sofre física, moral e espiritualmente com o padecimento dos injustiçados, com a dor dos perseguidos, e se indigna ante o evidente desejo de perenizar os meios de dominação, chegou a hora da autossuperação! Haverá eleição nacional dentro de quatro meses. Os que jogam com as cartas dessa eleição sabem que a mais importante é a dos novos 54 senadores que se somarão aos 27 remanescentes do pleito de 2022. Não haverá democracia, nem liberdade, nem bom direito, nem boa política, enquanto o poder sem voto continuar sua sanha persecutória contra “bolsonaristas” e “direitistas”, a usar o Direito como estratégia e a redigir a Lei com as próprias mãos.
        
Na primeira travessia do Delta do Jacuí, há uma parte levadiça para passagem de embarcações. Quando isso acontece, formam-se extensas filas nas pistas de entrada e saída da capital. Certa manhã, fui detido durante operação dessa ponte. Ao retomar a viagem, com os veículos se deslocando lentamente até encontrarem espaço para acelerar, percebi um hiato no fluxo da pista em sentido contrário e avistei, mais adiante, grande concentração de veículos. Passei observando o que detivera o trânsito e o quadro era bem incomum. Havia um motorhome parado no meio das duas pistas; por ambos os lados, alguém tentara passar, mas não conseguira espaço suficiente e deteve quem vinha atrás de si e assim, sucessivamente, todos foram parando. O motorista do motorhome, reclinado no banco, parecia dormir. Fui em frente, rindo do que vira, mas logo deixei de rir ao dar-me conta da lição que ali se proporcionara a todos: uma pessoa parada pode deter uma multidão. Logo, uma pessoa que se mova pode mobilizar uma multidão.
 
Desculpe-me, caro leitor, mas a hora o exige. O Brasil não aguenta mais quatro anos disso que nos está imposto. Escolha dois bons candidatos a senador, comprometidos não só com seu Estado, mas com a liberdade dos brasileiros e com o fim da tirania das canetas que saíram de todo controle. Trabalhe para eleger esses dois senadores (são dois votos e a liberdade precisa de ambos). Já, agora, mexa-se!


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O PARAGUAI FICOU SÉRIO. E AGORA? - 25.05.26


Por Alex Pipkin, PhD em Administração

 

Durante décadas, o Paraguai ocupou um lugar folclórico no imaginário nacional.
Era a pátria espiritual da muamba, o éden dos eletrônicos de procedência criativa e dos perfumes que desafiavam a química. Para a empáfia tecnocrática brasileira, o vizinho era apenas um puxadinho comercial.
Pois bem, a realidade adora uma ironia fina.
Hoje, a travessia da fronteira mudou de sentido e de classe social. Não são os sacoleiros que marcham rumo a Assunção; são os balanços contábeis de corporações brasileiras.
Mais de 230 indústrias nacionais já cruzaram a fronteira. O fenômeno agora alcança gigantes que abastecem o PIB global, como o Grupo Dass, fabricante de marcas como Nike e Adidas, que expandiu operações por lá. Somam-se à lista nomes como Lupo e Karsten. Não se trata de um flerte conjuntural; é um diagnóstico de falência do nosso ambiente de negócios.
O Paraguai decifrou o segredo que Brasília faz tempo em insistir tratar como heresia. Riqueza não emana de decretos, preces fiscais ou da romantização da escassez. Riqueza é filha legítima da produtividade. E produtividade, para desespero dos planejadores centrais, exige subtrair o peso do Estado das costas de quem ousa produzir.
Enquanto os vizinhos operam com o básico, ou seja, simplificação tributária, segurança jurídica e custos trabalhistas que cabem na planilha, o Brasil segue hipnotizado pela velha alquimia fantasiada de progressismo: tributar o oxigênio, subsidiar o compadrio, demonizar o lucro e esperar que o PIB brote, por geração espontânea, de um discurso de palanque.
Não brota. Capital não sofre de nacionalismo compulsório nem possui paciência para masoquismo burocrático; ele possui instinto de sobrevivência. Fábricas não desertam por falta de patriotismo; fogem de um ecossistema hostil onde o gerador de empregos é tratado como um réu em liberdade condicional, enquanto o Estado, esse sócio hipertrofiado e faminto, exige dividendos majoritários de uma riqueza que ele fez de tudo para impedir que existisse.
A diferença é mais profunda. O Paraguai parece hoje governado por pragmáticos obcecados em atrair capital. O Brasil, por sua vez, mantém uma “elite intelectual e política” com vocação quase mística para administrar a miséria.
Consuma-se a ironia histórica: a terra das bugigangas baratas passou a atrair fábricas; o “país do futuro” que sonhava ser potência industrial começou a exportar sua própria capacidade de produzir.


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O BRASIL E O ESPECTRO DE ROMA - 22.05.26


Por Dagoberto Lima Godoy - Empresário


Há comparações históricas que, tomadas literalmente, mais confundem do que esclarecem, mas há outras que funcionam como advertência. A analogia entre a degenerescência político-moral do Brasil e a queda do Império Romano pertence a essa segunda categoria. Não porque o Brasil esteja destinado a repetir Roma, nem porque os estados da federação sejam equivalentes às antigas províncias imperiais, mas há um ponto de contato inquietante: quando a autoridade central perde legitimidade moral, capacidade administrativa e força simbólica, a unidade política pode continuar existindo formalmente enquanto, por dentro, se enfraquece.
É aqui que a comparação com o Brasil ganha sentido. O risco brasileiro talvez não seja uma queda espetacular, uma ruptura súbita, uma dissolução imediata da federação. O risco mais plausível é mais insidioso: uma degradação por acomodação. O país não se desmancha porque todos querem destruí-lo, mas porque muitos aprenderam a sobreviver — e até a prosperar — dentro de sua disfunção. Todos criticam os privilégios, desde que não sejam os seus. Todos condenam a corrupção, mas muitos toleram a pequena vantagem, a proteção corporativa, a exceção conveniente, o favor político, a esperteza administrativa. O resultado é uma decadência sem dramaticidade: uma lenta perda de energia moral.
A degenerescência brasileira manifesta-se na substituição do interesse público por pactos de sobrevivência, na captura do orçamento por grupos organizados, na transformação do adversário em inimigo moral, na judicialização excessiva da política e na percepção de que a lei é rigorosa para alguns, negociável para outros e irrelevante para os mais poderosos. Essa situação não equivale ainda ao colapso. Mas produz algo talvez mais perigoso: a normalização do anormal.
Ainda assim, nenhuma comparação histórica deve servir apenas ao pessimismo. Roma é advertência, não sentença. A reforma do prédio ainda é possível se as rachaduras da estrutura ainda não chegam à falência. O Brasil não está condenado, embora já não possa se permitir a ilusão de que suas fissuras são superficiais.
A reabilitação nacional exigirá recomposição moral e institucional: restauração da responsabilidade, recuperação do sentido republicano, reforma do federalismo, reconstrução da educação como projeto civilizacional, enfrentamento da ilegalidade organizada e da ilegalidade tolerada, além de uma linguagem pública capaz de distinguir adversário de inimigo.
A pergunta, portanto, não é se repetiremos Roma. É se teremos lucidez suficiente para reconhecer os sinais de exaustão antes que eles se convertam em normalidade definitiva.  Um país não se salva apenas por indignação contra sua decadência. Salva-se quando transforma a indignação em responsabilidade, a crítica em reforma e a esperança em ações eficazes.


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