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SOB O TACÃO DO STF - 04.09.2020


 por Percival Puggina

 

Foram apenas três cliques chamando a memória do computador. Mesmo antevendo algo assim, surpreenderam-me os números. Localizei 45 artigos meus atacando os abusos de poder do nosso Supremo Tribunal Federal. Refiro-me a artigos que levam, no título, a sigla STF ou a palavra Supremo, porque menções às tropelias do órgão máximo do Poder Judiciário brasileiro foram contadas em 142 outros diferentes textos e em dez vídeos que gravei.

 

            O primeiro desses artigos tem o título "AI-5 do Supremo". Foi publicado na minha coluna de Zero Hora do domingo 22 de maio de 2011. Vê-se nele que, há nove anos, oito ministros indicados pelo PT já davam as cartas no STF. Nele, profeticamente (perdoem-me a presunção), escrevi:

 

Assim como Geisel concebeu a "democracia relativa" (relativa à sua vontade), o STF inventou a relativização da Constituição (relativizada ao desejo de seus ministros). Escancarou-se a porta para o totalitarismo jurídico. Passou o bezerrinho. Atrás virá a boiada. Doravante, se um projeto de lei não tiver guarida no Congresso, recorra-se ao Supremo. Sempre haverá um princípio constitucional para ser espremido no pau-de-arara das vontades presentes.  

 

            Na passagem da boiada, ganhou volume a ideologização e a partidarização no cume do judiciário brasileiro, originando um inevitável estresse com os eleitores do presidente eleito em 2018. Como se o PT na oposição ou no poder fosse um modelo de virtuosa cordialidade, manobras retóricas cuidam de creditar esse estresse à atuação da direita, nova protagonista no cenário nacional.

 

            Ofereço ao leitor esta resenha de recentíssimas declarações públicas de alguns membros do STF. Todas foram relatadas acriticamente por  nossa imprensa.

 

Celso de Mello 01/06

 "É preciso resistir à destruição da ordem democrática para evitar o que ocorreu na República de Weimar, quando Hitler, após eleito pelo voto popular não hesitou em romper e em unificar a progressista democrática e inovadora Constituição de Weimar".

 

Dias Toffoli 09/06

 "(...) Bolsonaro deve parar de ter atitudes "dúbias" em relação à defesa da democracia".  Mais adiante: "Essa dubiedade impressiona e assusta a sociedade brasileira e a comunidade internacional".

 

Carmem Lucia 24/06

 "Acho muito difícil superar a pandemia com esse descompasso, com esse desgoverno".

  

Luiz Fux 06/08

 Ministro diz à Veja que "o bolsonarismo atrapalhou a agenda internacional do STF".

 

 Gilmar Mendes 11/07

 Desconhecendo o fato de existirem na galeria dos ex-ministro da Saúde uma dúzia de titulares não médicos, Gilmar Mendes repreende o governo e os militares pela presença do General Pazuello no comando da pasta. As palavras são bem alinhadas com o vocabulário oposicionista: "Nós não podemos mais tolerar essa situação que se passa com o Ministério da Saúde. (...) O Exército está se associando a esse genocídio".

  

Roberto Barroso 26/08

 "Temos um Presidente que defende a ditadura e apoia tortura, e ninguém defendeu solução diferente do respeito à liberdade constitucional. (...) A democracia brasileira tem sido bastante resiliente, embora constantemente atacada pelo próprio Presidente. Uma coisa que contribui para a resiliência da democracia no Brasil é justamente a liberdade,, independência  e poder da imprensa."

 

Edson Fachin 01/09

 O ministro fala sobre um confronto, em 2022, entre duas agendas (ele já tem a dele e está em campanha): "(...) uma agenda toda fincada em elogios à ditadura civil militar, uma agenda de mentes autoritárias, de menosprezo à democracia, que mistura o nome de Deus com negócios de Estado, uma agenda que tem uma política armamentista, que desrespeita as instituições democráticas, que ofende a imprensa (...)". Essa agenda, segundo o ministro "se contrapõe à do campo democrático".

 

            Na minha perspectiva, como procurei demonstrar no início deste artigo, há pelo menos dez anos venho apontando o autoritarismo do STF. Aqui, sim, vejo autoritarismo sectário e grosseiro. Grosseiro como o presidente nunca foi em relação a esse poder, mesmo nos momentos mais tensos. Nos governos petistas, sem resistência, ampla maioria do Supremo afinada com aqueles que os nomearam, atropelavam o parlamento e as prerrogativas constitucionais desse poder, manipulando a Constituição como se fosse massa de moldar. Agora, imputam autoritarismo ao presidente ainda na primeira metade de seu mandato, marcado por uma disciplinada submissão às mais descabidas intromissões em seu ofício.


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O STF e a CF ainda há Constituição? - 02.09.2020


por  Alexandre Garcia, texto publicado na Gazeta do Povo de  01/09.

 

 

Constituição do Brasil veda textualmente a reeleição de presidentes da Câmara e do Senado em uma mesma legislatura.

 

O vice do Rio vai governar um território incompleto. Há lugares onde a lei não pode entrar, por decisão do Supremo. Se convertem em santuários do crime. A polícia não pode entrar nem sobrevoar. Semana passada, o exército do território da Rocinha invadiu o território de São Carlos, no centro do Rio. A base de um país é a soberania sobre seu território; e a decisão do Supremo contraria a alínea I do primeiro artigo da Constituição.

 

No dia do julgamento de Dilma no Senado, presidido pelo presidente do Supremo, o parágrafo único do art. 52 da Constituição, foi esquartejado. Ele estabelece que a perda do cargo é “com inabilitação, por oito anos, para o exercício de função pública”. Mas Dilma pôde ser candidata ao Senado por Minas Gerais.

 

O art. 129 da Constituição diz que o Ministério Público tem a função de promover, privativamente, a ação penal pública. Pois o Supremo abriu por conta própria ação penal, julgando-se vítima do crime de ameaça. Fez o inquérito, investigou, prendeu, fez busca e apreensão e invadiu direitos do art. 5º, 6º e 220 da Constituição. Liberdade de opinião e proibição de censura prévia foram desprezadas.

 

 

O presidente da República foi eleito para governar; deputados e senadores eleitos para fazer leis. O Supremo, que não foi eleito, existe para interpretar a Constituição, mas se mete no Executivo e no Legislativo. Interfere em atos administrativos, como nomear um diretor da Polícia Federal. Faz leis, como a do casamento homoafetivo. A Constituição, no art. 226 reconhece a união estável “entre o homem e a mulher como entidade familiar”.  E já no segundo artigo a Constituição estabelece que os três poderes são "independentes e harmônicos entre si”.

 

Outro dia, um juiz do Supremo, atendendo a um partido de oposição, chegou a requisitar o celular do presidente da República. Agora, a pedido de partidos de oposição, uma juíza do Supremo interpela o Banco Central sobre a emissão de notas de 200 reais. O art. 21 da Constituição estabelece que emissão de moeda é da competência da União e o art. 164 estabelece que essa competência será exercida exclusivamente pelo Banco Central.

 

O ministro Marco Aurélio já afirmou que o Supremo está servindo aos partidos de oposição. “Recuso-me a votar com base em preconceitos”. Estará o Supremo sendo preconceituoso com o presidente?

 

O Supremo exigiu que uma reunião fechada do Ministério fosse tornada pública. Nela, se ouviu o presidente enfático contra o perigo de ditadura. Mesmo tendo ouvido isso, um ministro disse, para o mundo, em inglês, contracenando com um ex-juiz da corte alemã, que o presidente defende a tortura e a ditadura. Outro sugeriu numa palestra, sem mencionar o presidente, que há um cavalo de Troia contra a democracia, e que as eleições estão em risco. Um é presidente do Superior Tribunal Eleitoral; o outro é o vice. E os dois vão julgar a chapa Bolsonaro e Mourão, mesmo com esses preconceitos.

 

Nessas poucas linhas vimos 10 artigos da Constituição serem atropelados. O moleiro de Sans-Souci não recuou ante ameaças de Frederico o Grande e argumentou que “ainda há juízes em Berlim”. É hora de perguntar se ainda há Constituição no Brasil.


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STF vira "PÉ DE CABRA" para partidos de esquerda arrombarem a vontade da maioria - 01.09.2020


por  J.R. Guzzo publicado na Gazeta do Povo de 31/08

    

    

 

    A nova lei sobre o saneamento básico, que acaba de ser aprovada e, nos seus aspectos essenciais, torna a operação das redes de água e esgoto mais abertas aos investimentos da iniciativa privada, está sob ataque. Onde? No Supremo Tribunal Federal, é claro. Por quem? Pelos partidos de “esquerda”, é claro – PT, Psol, PCdoB , PSB, PDT e os seus arredores. Eles querem que o STF declare que a lei é “inconstitucional”.

   

    É o grande pé-de-cabra da safadeza política de hoje: quando os inimigos do atual governo perdem alguma votação no Congresso, vão correndo à “suprema corte” e exigem que a vontade da maioria seja anulada. Sabem que está ali, hoje em dia, sua grande chance de mandar no Brasil sem ganhar eleição.

   

    O sistema atual de saneamento básico é uma calamidade absoluta: 50% da população brasileira, ou mais de 100 milhões de pessoas, continuam sem qualquer coleta de esgoto, e muito menos do seu tratamento, em pleno ano de 2021 – uns 2.000 e tantos anos, mais ou menos, depois que Roma teve a ideia de começar a sua rede. Há 30 milhões que ainda não tem nem água encanada.

   

   

    Esse desastre se deve unicamente a um consórcio que reúne políticos ladrões, sobretudo nas regiões mais pobres do país, partidos de “esquerda” e os sindicatos de funcionários que controlam o setor. É tudo estatal. Quem manda são empresas dos governos estaduais e municipais, que há décadas arrancam verbas do erário e constroem o mínimo de obras possível.

   

    É o paraíso dos políticos que empregam nessas empresas os seus parentes, amigos e amigos dos amigos; dos empreiteiros que querem receber verbas para implantação de redes que não implantam; e dos PTs da vida, que há décadas vivem como parasitas de estatais. É claro que ninguém nessa turma quer mudar nada; a entrada a sério da iniciativa privada na área vai acabar com muitas das suas bocas.

   

    É assim: eles não fazem, mas não deixam que ninguém faça. Atender a população, no caso, é a última coisa que pode lhes interessar. Querem cargos na diretoria, contratos de obras e empregos nas estatais de saneamento. Não querem saber de esgoto e nem de água. Querem saber de si próprios, só isso. A população que se dane.

   

    É por isso, e por nenhuma outra razão, que 100 milhões de brasileiros vivem sem esgotos, sujeitos a todo o tipo de danos à sua saúde, aos seus direitos e a sua dignidade. E é por isso que quando o Congresso enfim faz uma lei para amenizar o problema – mesmo com as deformações que foram impostas no seu texto para satisfazer interesses dos deputados e senadores – o PT, Psol e etc correm para pedir socorro ao STF. Não aceitam nem isso – e sabem que no momento o melhor lugar deste país para se fraudar os interesses e a vontade da maioria é o Supremo Tribunal Federal.


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A VIDA E SEU SUSTENTO


por Percival Puggina

 

           No dia 19 de julho a imprensa nacional informou que 716 mil empresas haviam fechado as portas no Brasil em virtude da pandemia. E o coronavírus seguirá, setembro adentro, vitimando também esses ambientes proveitosos à vida humana que são as empresas privadas.

            Digo isso ciente de que, infelizmente, essa não é uma percepção comum. A população brasileira transita, inadvertida e submissa, em meio a instrumentos de doutrinação e domínio das mentes sob os quais se predispõe a considerar o ambiente empresarial como um lugar de opressão e submissão para exploração. Não percebem - tantos brasileiros! - quão submissos estão, isto sim, à opressão e à mistificação ideológica. Não é por outro motivo que, em tempos de pandemia, tanto se fala em opção entre vida e dinheiro. No entanto, esses locais que chamamos empresa, escritório, firma, fábrica, loja, venda, estão para a vida humana assim como os recifes de coral estão para a vida marinha nas cálidas águas tropicais.

            Empresas funcionam à semelhança dos ecossistemas. Quando fatores externos agem de modo descuidado, estabanado, todo o sistema padece esse impacto afetando os organismos que ali se desenvolvem e inter-relacionam. Acho que não preciso fazer prova dessas afirmações. Estamos vendo acontecer. Até aqui, aliás, este texto é meramente descritivo. Mas tem mais.

            Quando, em 2013 a cidade de Detroit quebrou, a maior parte de seu  imenso parque automobilístico já havia encerrado atividades ou ido embora. A população caiu de dois milhões para cerca de 700 mil habitantes. Setores da cidade e imensos pavilhões industriais proporcionaram cenários para filmes de zumbis. Pelo viés oposto, são os negócios, a atividade mercantil, a manufatura, a prestação de serviços que a seu modo viabilizam a vida, a realização dos sonhos, as famílias e seus projetos. A vida e a liberdade.

            Dez mil lojas de variados portes fecharam no Rio Grande do Sul. Não suportaram. Seus proprietários chegaram ao mês de maio com seus recursos esgotados diante de mais de dois meses com as portas fechadas desnecessariamente porque o vírus andava longe daqui. Quando ele chegou, teve início o abre e fecha, tipo sanfona de gaiteiro preguiçoso, muito mais tempo fechada do que aberta. Vieram os horários estapafúrdios, veio a arbitrariedade das agendas de funcionamento tiradas de mero arbítrio da autoridade, veio a onipresente ameaça do lockdown geral a afugentar ainda mais a vida de seu sustento.

Repito: a afugentar a vida de seu sustento!


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Ideias movem pessoas. Pessoas mudam o mundo


por Paulo Moura

 

A relação entre as ideias e a realidade é objeto de reflexão e debate intelectual, pelo menos, desde a Grécia Clássica. Platão foi um pensador que acreditava que as ideias constituiriam um “mundo” à parte, e sem conexão com a realidade tal como a que percebemos com nossos sentidos. Dessa compreensão é que nasceu a expressão “amor platônico”, que é um amor aprisionado no mundo das ideias e que nunca se “realiza”.

Esse mundo idealizado por Platão seria “habitado” por “verdades” naturais, eternas e imutáveis. O conhecimento que estaria ao alcance da percepção pelos nossos cinco sentidos seria, então, imperfeito, no máximo, aproximado dessas verdades naturais e perenes.

A razão seria o caminho para alcançarmos a compreensão dessas verdades imutáveis, que seriam até “mais reais” do que a própria realidade, em constante movimento. Ao velho dilema sobre quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha, Platão responderia que quem nasceu primeiro foi a ideia do que é um ovo e do que é uma galinha.

Alguém disse algum dia que não há nada que os filósofos gregos já não tenham pensado. Em sala de aula já expus o argumento de Platão em defesa do governo dos filósofos, isto é, a ideia de que somente indivíduos intelectualmente preparados deveriam ter o “direito” de governar a sociedade. Não raras vezes encontrei convictos defensores da ideia.

A tese de Platão sobre a existência de um “mundo das ideias” poderia ser contestada por uma simples interrogação: haveria ideias se não houvesse seres humanos para pensá-las?

Independentemente do que você, eu ou Platão achemos sobre a ordem dos fatores na equação que relaciona ideias e realidade, vale a interrogação: qual é o papel das ideias nas nossas vidas?

Há quem pense que o debate entre “altruísmo” e “egoísmo”, ou, entre “coletivismo” e “individualismo” é recente e associado à luta política entre liberais e conservadores contra socialistas e comunistas.

No entanto, quem já teve o privilégio de ouvir uma das palestras da Bruna Torlay, editora da Revista Esmeril, aprendeu que esse conflito de ideias já estava lá na filosofia dos gregos dos tempos de Platão.

Pessoalmente, defendo a tese de que nossas ideias resultam da reflexão do ser humano sobre a realidade. Nossas ideias nascem de inquietações com relação a alguma dimensão da realidade que nos incomoda.

Isso vale para “ideias” bem simples e práticas, tais como aquelas que levaram o homem das cavernas a constatar que se proteger numa caverna torna a vida melhor do que a vida ao relento, ou, que viver em grupos é melhor para nos defendermos das adversidades da vida inóspita daqueles tempos do que viver sozinhos e isolados.

Nasceu assim a sociabilidade humana que, colocada diante de novos desafios, permitiu o progresso da nossa civilização. Por progresso aqui entendamos a ideia de evolução civilizatória de uma vida inóspita, desconfortável e violenta em direção a uma vida com cada vez menos sofrimentos e adversidades.

Não se trata, portanto, do sentido do conceito progressista de “progresso”, tal como algum desavisado tradutor dessa obra poderia, no futuro, interpretar meu conceito.

Essas reflexões práticas é que levaram o ser humano a desejar viver melhor e a mudar a realidade em que viviam. Foi isso que permitiu que nossos antepassados mudassem suas vidas e, por consequência, as nossas.

E foi exatamente por existirem seres humanos com essa habilidade para pensar e resolver os problemas práticos que foi possível existirem pessoas com a capacidade do raciocínio complexo. Pessoas como os filósofos gregos que levavam uma vida contemplativa e se interrogavam sobre dilemas tão profundos como a busca de respostas paras nossas, essas sim eternas, perguntas: De onde viemos? Quem somos? Para onde vamos?

E por que toda essa divagação se o tema dessa edição da Revista Esmeril é o valor dos tradutores para a cultura?

Como você acha que ficamos sabendo o que sabemos sobre o pensamento de filósofos que viveram no período da Grécia Clássica, no século V a.C.?

Caso você não tenha se ligado para esse detalhe, eles falavam e pensavam em grego, tal como o idioma era naquela época.

Os historiadores convergem todos para um consenso quando se trata de identificar os três pilares fundadores da Civilização Ocidental moderna:

  1. na Civilização Grega Clássica que nos legou a primeira noção de democracia;
  2. no Império Romano, que bebeu na fonte dos gregos e erigiu a primeira sociedade regida por leis escritas e governada por instituições jurídicas e políticas; e,
  3. no cristianismo, que nos legou o monoteísmo, a crença num Deus único, pessoal e criador de todas as coisas.

O grego e o latim são, portanto, os dois idiomas-raiz das línguas faladas no mundo ocidental, e a partir dos quais foi registrado e transmitido às gerações seguintes todo o legado civilizacional que herdamos dos gregos, dos romanos e das Escrituras Sagradas do Velho Testamento, que está nas origens do cristianismo.

Sem entrar no mérito das polêmicas entre católicos e protestantes, a própria difusão do cristianismo no ocidente ocorreu, em parte, em função do fato de que um dia, um teólogo defendeu a tradução da Bíblia Sagrada do latim para o alemão, com a finalidade de tornar a Palavra Sagrada conhecida e acessível ao cidadão comum.

A que outro exemplo mais forte do que este poderíamos recorrer para tornar tangível a compreensão do papel dos tradutores para a cultura de uma civilização?

A missão a que se auto atribui o tradutor lhe impõe, antes de tudo, um imperativo ético pressuposto na intenção de perseguir com a maior fidelidade possível às ideias originais do autor traduzido.

A missão precípua do tradutor é, então, abrir mão da sua “liberdade” para assumir, voluntariamente, a condição de “escravo” fiel do autor e da obra que escolheu traduzir.

Essa tarefa vai muito além de simplesmente consultar um dicionário, que nem sempre existiu, e converter as palavras de um idioma para outro, tal como nos presenteia o Google Translator. Mais do que verter um texto de um idioma em outro, a tarefa do tradutor consiste em translatar ideias. E as ideias traduzidas não pertencem ao tradutor. Para cumprir sua missão, o tradutor precisa sair de si e se colocar na condição no tempo e no lugar do autor.

A mente humana é livre e se permite voar em qualquer direção. Permite ao tradutor fazer essa viagem, mas permite ao leitor fazer o que quiser com as ideias que absorve. Basta ver a profusão de dissidências que ocorrem com as mais diferentes correntes de pensamento social, político, econômico e filosófico, como resultado da livre intepretação das ideias.

Essa transformação é um dos fundamentos mais básicos do conceito de cultura. É de cultura e de transformação da realidade através da cultura, portanto, que estamos falando.

As ideias não movem o mundo, elas movem as nossas mentes e, em seguida, uma vez que foram assimiladas e aceitas como válidas, elas moldam os valores que orientam nossas ações. E são as nossas ações que transformam o mundo.

Ninguém fica indiferente ou impune à leitura de um livro. Ao lermos a primeira página, abrimos a mente para novas ideias e, ao fecharmos o livro, após a leitura da última página, nossa vida já não é mais a mesma.

Nossa maneira de ser se transforma em outra e somos o que somos, socialmente, em relação aos outros. Ao mudarmos a nós mesmos a partir das ideias de um livro, mudamos nosso entorno, mudamos a sociedade.

Se você, assim como eu antes de ser desafiado a escrever esse artigo, jamais havia refletido com profundidade sobre a missão e a importância dos tradutores para a cultura de uma sociedade, trate de mudar de ideia. (texto publicado na Revista Esmeril)


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Tradução estratégica pela direita


por Fernanda Barth

 

Neste conteúdo, a pensadora Fernanda Barth elucida o papel crucial dos tradutores para combater a desinformação.

 

Traduzir: Do latim traducere – fazer passar de um lugar para o outro. Verbo bitransitivo. Significa: Transcrever, interpretar, elucidar, exprimir, explicar, reproduzir, passar para outra língua…

Agora, suas variantes: Temos a tradução direta, a reversa e a literal. Tornar algo compreensível, inteligível, familiar. Traduzir é o oposto de codificar, ofuscar, encriptar. Ao tradutor cabe pegar um texto original e criar um novo texto, que possa ser compreendido e não perca a essência do originalmente criado.

Não pode haver perda de sentido.

É preciso atentar para o fato de que, ao contrário do capitalismo – um sistema de trocas, e não uma ideologia – o comunismo é uma ideologia (praticamente uma filosofia comportamental) construída sob um sistema de crenças baseadas no Marxismo, na fé no Estado e no coletivismo. Dessas premissas, advém a necessidade da esquerda de destruir o indivíduo, a família que dá sustentação ao indivíduo, a religião que rivaliza com o grande líder estatal. 

O objetivo é a criação de um novo homem sem amarras morais (trans humanismo), que vive em uma sociedade imersa no caos, onde a única solução acaba sendo a legitimação da concentração de poder como forma de conduzir o rebanho, agora homogêneo, permitindo a hegemonia absoluta do grupo no poder.

Para ser um tradutor de direita é preciso dominar a narrativa do campo de esquerda, entender seus objetivos, a forma como operam, a agenda que defendem. É preciso entender como se forma a opinião pública e como ela pode ser manipulada. É necessário dominar o mecanismo das chaves cognitivas e da criação de significados e entender como elas operam na comunicação de massas. Por último, é também preciso conhecer o discurso politicamente correto e como ele é usado como ferramenta de censura e constrangimento. 

Um tradutor de direita precisa desvendar o sentido oculto no texto de esquerda, seja ele escrito, cantado, pintado, construído ou filmado. Necessitamos entender no estrito senso dos signos e símbolos estudados na teoria da comunicação o que está subentendido, o que se pressupõe e o que se está tentando ressignificar.

Quebrando a criptografia Marxista

No casok ser um tradutor de direita, a tarefa consiste em pegar um texto criado dentro do conceito Marxista e restituir o sentido que foi propositalmente oculto ou torcido, restituindo a verdade – desmontando a narrativa. Tirando dele a maquiagem e revelando sua verdadeira face e objetivo. Todo esse esforço, porque a esquerda praticamente criou uma linguagem.

Tem seu rol de conceitos e discursos, tem o materialismo histórico e toda a interpretação de fatos históricos dentro da lente da luta de classes, hoje redesignada como luta de identidades políticas, oprimido x opressor. Parafraseando Orwell, uma novilíngua.

(…)

Ninguém pratica mais desinformação que a esquerda. O próprio termo “desinformação” tem suas raízes no stalinismo e no trotskismo. A destruição da verdade é uma ferramenta que semeia a confusão para alcançar o controle. Informação é poder, conhecimento é poder. Em tempos de Sleeping Giants; de censura nas redes contra os conservadores; de guerra de narrativas onde o que é verdade é tachado de falso e o que é falso é vendido como verdade; onde a desinformação é o que mais se vê na grande mídia, a importância de se ter a cada dia mais tradutores de direita é enorme.

O chamado para os aliados

Precisamos de cada vez mais Canetas Desesquerdizadoras, de Paul Watsons, que debugam narrativas como ninguém. Precisamos manter as redes sociais livres para que a liberdade de expressão não morra e não prevaleça apenas um lado da história. Precisamos de tias do zap zap que conseguem, de forma bastante crua, ver a mentira e a hipocrisia contidas nas mensagens, pois vem de uma época onde Paulo Freire ainda não tinha dominado a educação e destruído a capacidade de raciocínio lógico dos estudantes.

Só sobreviveremos a esta infowar se conseguirmos trazer pelo menos algum equilíbrio na arena de luta. A agenda setting está aos poucos mudando de mãos, mas é no final da batalha que a luta se torna mais violenta, no sentido poético da palavra. Quanto mais pessoas tiramos da espiral do silêncio, mais nos fortalecemos e a cada dia fica mais claro como tentam mover a Janela de Overton em temas importantes para a manutenção da civilização judaico-cristã.

Não é à toa que, para a grande mídia, a direita é sempre extrema e a esquerda, mesmo que autoritária, genocida ou violenta nunca é considerada como extremista. Primeiro eles reescrevem a história para depois dar as regras sobre quem fala a verdade, e quem propaga fake news ou faz revisionismo.

Algumas das batalhas dos nossos dias incluem: defesa da vida x indústria da morte; liberdade religiosa x intolerância; liberdade de expressão x censura; liberdade de opinião x politicamente correto.

No fim dessa disputa, o que está em jogo é o nosso direito de viver e defender a vida, a propriedade e a liberdade contra aqueles que têm um desejo ardente e insaciável de nos subjugar e dominar.

Enquanto a estratégia do adversário não for indecifrável, os meios de vencê-lo estão aí. Disponham.


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