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PREMIAR OS MAUS E PUNIR OS BONS? - 20.12.21


por Percival Puggina - puggina.org.
 

          “Perdi a esperança. Não voto mais. A política brasileira nunca vai mudar porque as mudanças dependem de um Congresso e de um STF que não querem nem ouvir falar nas necessárias alterações. Tudo está sendo feito para favorecer as reeleições da atual representação parlamentar e manter o Supremo com a atual configuração e com a atual conduta”.


         As palavras que você acaba de ler me chegaram em mensagem de um leitor. Exceto por pequeno detalhe, são bem verdadeiras as alegações que faz, mas a decisão tomada a partir delas está errada. E a causa do erro, como em tantas situações, está no detalhe: a política brasileira, queira meu leitor ou não, vai mudar sim! Isso é inevitável porque a política não é estática. Ela muda. Em certas condições, muda para melhor; noutras muda para pior.

         Se uma certeza eu tenho em relação a essa questão, que se faz oportuna e significativa, a poucas semanas de um pleito nacional, é esta: se os eleitores indignados com a política que temos não comparecerem às urnas porque estão amuados, desesperançados, obviamente a vantagem será dos piores candidatos, votados por maus eleitores que, sim, comparecerão às urnas. Haverá número ainda menor de bons políticos e número ainda maior de maus políticos. E isso significa mudança. Mudança para pior na representação parlamentar, na presidência e nos governos estaduais. Em síntese: um desastre, cujas consequências provavelmente se derramarão sobre uma geração inteira.

         Por outro lado, a omissão, o voto nulo, ou em branco, é o ponto culminante de uma omissão anterior. Cidadãos conscientes deveriam ser ativos em todo o período anterior e posterior à eleição. Todos já deveriam saber como votaram deputados e senadores o veto do presidente da República ao Bolsa Reeleição, também conhecido como Fundão Eleitoral, no montante de R$ 5,7 bilhões (clique aqui, ou siga o link no final do artigo). Todo cidadão ativo deve escolher seus candidatos o mais cedo possível, ao longo dos próximos meses e trabalhar para elegê-los.

         Ao longo do ano que se avizinha, ainda estaremos pagando a conta de dois males simultâneos: a pandemia e o “fique em casa, que a economia a gente vê depois”. Era tranquilo dizer, pegava bem exigir, parecia haver um elevado senso moral a orientar tais condutas. Como em quase tudo na vida em sociedade, porém, há o que se vê e o que não se vê. Ou só se vê depois. Vale o mesmo para essa versão do fique em casa aplicada ao exercício da cidadania, que começa bem antes do voto e não se esgota no voto. O eleitor que se omitir premiará os maus e punirá os bons.


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PAÍS DO BANDIDO SOLTO CRIA A PREVENTIVA PERPÉTUA (PARA ALGUNS POLÍTICOS) - 17.12.21


por Percival Puggina - puggina.org.br

 

          Os números a seguir são fornecidos pelo 15º Anuário Brasileiro de Segurança pública e se referem a crimes notificados no ano de 2020:

- 50 mil homicídios,
- 320 mil veículos roubados,
- 60 mil estupros,
-49 mil roubos de estabelecimentos comerciais,
- 62 mil pessoas desaparecidas,
- um policial morto a cada 44 horas.

Esse é o Estado que supostamente “prende em demasia”, na opinião de alguns desmiolados desatentos ao fato de que tais crimes são cometidos por verdadeira multidão de bandidos soltos.

O mesmo país que contabiliza esses números constrangedores, liberta corruptos condenados e lhes franqueia o retorno à vida pública.  Não surpreende, portanto, que o Congresso Nacional – de olho no próprio rabo – aprove leis para inibir a persecução criminal e se recuse a tornar viável a prisão dos réus mesmo após condenação em segunda instância.

O Estado brasileiro, rufião da sociedade, malgrado servi-la ao mundo crime em regime de copa franca, para ser assaltada e acossada de mil maneiras, instituiu o regime de preventiva perpétua para crimes que desagradem de modo particular a membros do Supremo Tribunal Federal.

No último dia 1, foram mantidas as prisões de Roberto Jefferson e Zé Trovão. Do primeiro, se aguarda uma altamente improvável mansidão no falar. De ambos, se diz representarem um risco para as instituições democráticas. Os dois juntam-se ao deputado Daniel Silveira, em prisão domiciliar, também cautelarmente. Sendo seu carcereiro mais jovem do que eles e sabendo-se que nenhum deixará de ser como é, receio que vão morrer na preventiva.  

Enfim, o que vemos é o avesso das efetivas prioridades da população.  


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QUANDO AINDA NÃO NOS HAVIAM ENLOUQUECIDO - 13.12.21


por Percival Puggina - puggina.org.br


 

Estrela brasileira, no céu azul, iluminando de norte a sul,
mensagens de amor e paz, nasceu Jesus, chegou o Natal,
Papai Noel voando a jato pelo céu,
Trazendo um Natal de felicidade, e um ano novo cheio de prosperidade.
Varig, Varig, Varig

          Não é preciso ter cabelos brancos para lembrar um dos mais notáveis jingles brasileiros, o famoso comercial com que a Varig marcava os fins de ano ao longo do século passado. Bastava entrar na telinha das TVs a frase cantada “Estrela brasileira” para adultos e crianças entrarem juntos na canção de Caetano Zamma.

         Era um primor. Tão simples quanto marcante. Num tempo em que os comerciais terminam e a gente fica se perguntando – “Era de quem, mesmo, esse anúncio?”, o da Varig transcorria inteiro com todos sabendo de quem era, cantarolando junto e lá no final, vinha a assinatura em três notas musicais, cada uma repetida, rapidamente, três vezes: dó, ré, mi bemol. Por vezes, nem o nome da empresa era cantado. Não precisava.

Os mais idosos, que o assistiram ao longo das décadas, dificilmente deixarão de se emocionar ao recordá-lo. Aqui na minha volta, ao menos, não escapou ninguém. As lágrimas me rolaram mais intensas, porém, ao perceber que nesse meio tempo não perdemos apenas a Varig. Ficaram pelo caminho tantas virtudes e tão estimados bens de alma nacional de cuja perda essa canção dá testemunho e lamenta, com letra e música!

O jingle ia ao ar, era saudado pela leveza e beleza e lembrava que o Natal marcava universalmente o nascimento de Jesus. Durante o dia 25 de dezembro, paravam as fábricas; brilhavam mais as luzes e as ruas; na guerra, sustavam-se as batalhas, silenciavam-se os canhões e confraternizavam beligerantes trincheiras.

É assim por ser Natal! Não é por “Boas Festas”! E é Natal porque nasceu Jesus! Ou é isso ou é um dia qualquer!

O diabólico “politicamente correto” enlouqueceu o Ocidente. O formidável furto do Natal é um dos maiores golpes do século! De repente, fomos convencidos de que o presépio exposto ao público é uma ofensa aos olhos de quem tem outra cultura. Comprou-se por dois vinténs de suposto “avanço civilizacional” a ideia de não ser adequado festejar o Natal cristãmente numa sociedade multicultural. Para que acabemos sem cultura alguma e sem qualquer tradição, isso nos veio imposto, lenta e subliminarmente, contra a tradição e a cultura da imensa maioria da sociedade brasileira.

Enlouqueceram-nos! Em estado normal, a mente humana não aceita essa empulhação, não vai para o brete onde aquilo que realmente a humaniza é dilacerado, trinchado até que se torne irreconhecível.

Aos que, usando seus poderosos meios de comunicação e podendo resistir se omitem e submetem, uso a frase da garota Greta: “How dare you!” (Como vocês se atrevem!”).


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O ESTADO LAICO E O MINISTRO EVANGÉLICO - 09.12.21


por Percival Puggina - http://www.puggina.org

 

Diz-se laico do estado não religioso. Ateu é o estado totalitário que se faz objeto de culto. Surpreso com saber? Mais ainda ficará quando perceber que há quem queira precisamente essa anomalia para si e para todos nós.

Fiquei pensando nisso ao perceber a estarrecida surpresa de muitos jornalistas brasileiros, primeiro com a indicação e, logo após, com a aprovação de André Mendonça para a vaga existente no STF. Diversos senadores manifestaram-se, também, a respeito da tal suposta incompatibilidade. Não duvido que muitos dos votos contrários tenham sido motivados por ela. Sim, sim, no Senado há gente para todos os desgostos.

“Na vida a Bíblia; no STF, a Constituição”. A frase do ministro só não esclareceu quem, diante da luz da verdade, imediatamente coloca óculos escuros. Fotofobia da razão e da alma. O Brasil estaria bem mais feliz se os dez colegas do novo ministro tivessem a Constituição como Bíblia de suas decisões e não a transformassem no Livro de uma seita muito particular, a serviço de suas próprias opiniões e irmandades.

Bem entendido isso, torna-se oportuno sublinhar que é discriminação e preconceito não admitir opinião ou argumento originário de algum ditame religioso, ou a ele semelhante. Afirmar em tais ocasiões que “o estado é laico”, como quem passa a tranca na porta e encerra o assunto, é retórica farsante. É usar a palavra para bater a carteira do auditório.

Sabem por quê? Porque a única consequência da aceitação dessa trampolinagem é cassar a palavra da divergência sob uma alegação falsa. Não há o menor sentido em que opiniões com fundamento moral desconhecido ou inexistente, diferentes tradições, chavões jornalísticos, contraditórias referências científicas e até o mero querer de alguém ou de alguns sejam legitimados, mas se declare inadmissível algo inerente ou assemelhado ao saber cristão, amplamente majoritário na sociedade.

Com muita ênfase, os constituintes promulgaram a Constituição “sob a proteção de Deus”. Determinaram ser "inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livro exercício dos cultos" (art. 5, inc. VI). Afirmaram que "ninguém será privado de direitos por motivo de crença" (art. 5, inc. VIII).

Não, não são as opiniões de indivíduos ou, mesmo, de figuras públicas em que se perceba inspiração religiosa que violam a Constituição, mas as tentativas de os silenciar. Foi exatamente contra essa pretensão totalitária que os constituintes ergueram sólidas barreiras constitucionais.


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DESORDEM SÃO CADEIAS DE SUPRIMENTOS SEM COMÉRCIO LIVRE - 07.12.21


Por Alex Pipkin

    

Nenhum indivíduo, nenhuma empresa, nenhuma nação pode ser tudo para todos. Há explícitas limitações e desvantagens em nível de acesso, de qualidade, de custos, de inovação e de outras ordens em relação aos recursos e as capacidades nestas esferas.
    Faz mais de 35 anos que me deparei, pela primeira vez, com a Teoria Clássica das Vantagens Absolutas do grande Adam Smith, esse é o principal fundamento do comércio livre, lógico.
    Interessante que Smith buscava identificar que instituições públicas poderiam satisfazer às aspirações morais e econômicas das pessoas.
    Se um produtor possui maior competência e produtividade para produzir um determinado bem, ele terá uma vantagem absoluta, comparativa e/ou competitiva sobre os demais. Em sua época, basicamente preconizava o custo hora/homem para produzir, hoje sabemos que o que conta são as tecnologias.
    Poucos se dão conta - especialmente os burocratas estatais - que os mercados são redes de empresas, são cadeias de suprimentos que de uma forma ou outra estão interconectadas globalmente.
    Com o surgimento da pandemia da Covid-19, ergueram-se vozes mais altas contra o capitalismo e, em especial, em oposição a globalização e as respectivas cadeias globais de valor.
    Nessa história de Agatha Christie o que não falta são vilões: a globalização dos mercados, a China, às companhias de navegação, os malvados empresários capitalistas, enfim, todos possuem uma parcela de culpa pela presente escassez de produtos e pelo aumento de preços.
    A solução, portanto, na visão - míope - de grandes e renomados especialistas deveria vir do onipresente - e abstrato - Estado.
    Sim, para esses experts os agentes estatais precisariam se agigantar ainda mais a fim de corrigir tais distorções, talvez com mais protecionismo, maiores intervenções e incentivos domésticos, e/ou impondo restrições às cadeias globais de valor.
    Parece-me evidente que as empresas em busca de maior produtividade e eficiência devam acessar recursos, produzir, montar e distribuir em mercados em que existam condições macroeconômicas sistêmicas mais vantajosas para tanto.
    Vejamos o Brasil, nossas indústrias compulsoriamente necessitam importar insumos, componentes e/ou produtos acabados que não são ofertamos no mercado doméstico, e mesmo quando o são, não dispõem de qualidade e de custos/preços competitivos.
    Na verdade, no Brasil, as políticas estatais são exatamente a causa de empresas nacionais não participarem das cadeias globais de valor, do fechamento econômico e das políticas de compadrio que tornam o país o celeiro do rent seeking, da baixa produtividade, onerando os indivíduos e as famílias mais pobres, obrigando-os a comprar produtos de pior qualidade a preços mais altos, ou seja, drenando a renda destes cidadãos.
    Os mais “experientes” devem lembrar da malfadada "política de Substituição de Importações" no Brasil, tão cantada em prosa por muitos, que concebeu uma indústria voltada para o mercado interno e ineficiente para competir globalmente.
    Evidente que em mercados mais desenvolvidos, tais como os EUA e os países europeus, existe o argumento de que algumas indústrias locais poderiam ser incentivadas para que se evitasse o risco de desabastecimento, mas importa saber às expensas e prejuízos de quais outras indústrias e empresas.
    Não, o problema não é a globalização, tampouco as cadeias globais de valor. A internacionalização dos mercados, verdadeiramente, é a razão pela qual milhões e milhões de pessoas no mundo podem acessar melhores produtos a preços mais baixos, aumentando assim seu padrão de vida.
    O grande vilão, de fato, são os governos, que durante a pandemia tomaram decisões equivocadas e desproporcionais, tais como a concessão de auxílios que tornaram atrativo para trabalhadores portuários, por exemplo, ficarem em casa, ou invés de estarem em seus postos de trabalho, resultando em interrupções na cadeia logística global.
    É lógico que as estratégias corporativas se movam em direção àqueles países que possuem e incentivam a manufatura, a logística e a distribuição de maneira mais competitiva, vantajosa e pragmática, enquanto que outros países ficam atolados no patrimonialismo e na “moderna” e progressista retórica das políticas identitárias.
    Concorrência é uma palavra tão singela, embora muitos não compreendam seu significado e sua ação salvadora na vida real.
    Em especial, no caso brasileiro, não resta qualquer sombra de dúvida que as empresas nacionais deveriam ser incentivadas a terem uma maior participação nas cadeias globais de valor, a fim de alcançarem maior eficiência e proporcionarem mais inovações e melhores preços para as indústrias e para as pessoas, sobretudo para as mais pobres.
    Por fim, sem dúvida que a maior interrupção crônica da produtividade e do crescimento econômico e social no país, está justamente nas políticas públicas de Estado.


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A NAÇÃO NO DIVÃ DO PSICANALISTA - 02.12.21


por Percival Puggina - www.puggina.org
 
Nunca me acomodei num desses divãs porque, para pensar, prefiro a cadeira do computador. Outro dia, porém, estarrecido e irritado diante do que vejo consolidar-se como prática política no cotidiano nacional, escrevi que tais conflitos e arreglos estavam a me exigir um divã e um papo com psicanalista.

Uma ideia puxa outra e isso me levou a perceber que essa era uma necessidade comum a todos nós, brasileiros. A nação precisava de um divã para compreender as tumultuadas relações com que, querendo ou não, estava envolvida até o fundo da alma. E o divã era bem adequado a isso, principalmente para compreendermos como se caracterizam, em nosso subconsciente, estes três elementos: Pátria, Nação e Estado.

A Pátria é a mãe. Amada e amável, gentil, generosa, pródiga em riquezas naturais. Na célebre definição de Rui, “não é um sistema, nem uma seita, nem um monopólio, nem uma forma de governo; é o céu, o solo, o povo, a tradição, a consciência, o lar, o berço dos filhos e o túmulo dos antepassados, a comunhão da lei, da língua e da liberdade”.  

A Nação somos nós, herdeiros dessa tradição, fé, consciência e idioma; herdeiros da cultura, valores e verdades aprendidos no lar.

O Estado é essa criatura, esse ente político, que se vai tornando abominável. Criatura, sim, porque bem antes dele surgir na história havia a pessoa humana, gregária, havia a comunidade, e foi nela que nasceu o Estado. Discutam os filósofos os fatores causais e instrumentais desse nascimento, mas sua finalidade é servir. E se alguma dúvida houver, lembremo-nos: o Estado brasileiro tem a forma a ele conferida pela sociedade num processo legislativo em que os constituintes agiam como seu representante.       

Se a Pátria é a boa mãe e se nós somos seus filhos, o Estado brasileiro, então, é o pai ou padrasto de maus costumes e mau caráter, que abusa de seu poder, que cerceia direitos fundamentais, que não ouve os que estão sob sua autoridade, que avança sobre seus bens. Gastador, perdulário, desonesto e injusto, cuida prioritariamente de si mesmo e descumpre o único papel que lhe corresponde: servir à nação.   

Capturados nesse triângulo psicológico, habituamo-nos a reverenciar o Estado e aqueles que o encarnam, como entes ou entidades superiores. Falamos a eles olhando para cima, numa reverência que convalida seu poder e sua conduta. Errados, estamos! A relação foi invertida. O Estado não existe para ser o monstro que nos sufoca. Se sua função é servir, a soberania popular deveria fazer a sociedade ver o Estado na perspectiva segundo a qual o Estado a vê: de cima para baixo, com o devido respeito pela importância dos papéis que desempenha. A soberania, contudo, desculpem informá-los, é popular. 

Há que emergir desse drama quase freudiano, dessa tumultuada relação “familiar” em que nós, os brasileiros, fomos capturados.


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