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O BRASIL E AS GUERRAS HÍBRIDAS: O CASO DA AMAZÔNIA - 19.08.2020


por Ivomar Costa - Instituto Federalista

 

Descrição das estrategias de guerra hibrida usadas contra o Brasil, pelos seus inimigos que desejam apropriar-se da região amazônica.

 

Antes de adentrarmos no tema específico das guerras híbridas, faz-se necessária uma distinção: segundo acredito, a guerra híbrida é apenas uma das espécies de guerra de quarta geração – G4G. Adiantando alguns temas que tratarei em outro momento e por outros meios, as outras duas espécies são a guerra contra instituições e a guerra identitária.

Uma das premissas da teoria da G4G é que os estados-nação encontram-se enfraquecidos. Com as tentativas e, de fato, a redução das soberanias de diversos países, o estado-nação tem sido conduzido, em alguns casos, à quase irrelevância. Devido ao seu enfraquecimento, outros atores se tem erigido e tentado obter a proeminência entre diversos poderes; são entes tanto sub-nacionais quanto sub-estatais, para-estatais, supra-estatais e inter-estatais. Em diversos momentos entes para-estatais sub-nacionais tem sido estimulados e apoiados por entes internacionais, e até supra-estatais.  No caso da guerra híbrida, o objetivo é promover o caos em países cujas instituições sociais e políticas tenham sido previamente desestabilizados por meio de guerras contra-institucionais, e concomitantemente apoiando entes internos ao país a ampliarem suas forças, ocuparem maior espaço político, e conquistarem maior legitimidade, visando a derrubada geral do governo ou de um regime político, por intermédio de uma “revolução colorida”. Quer dizer, a revolução interna é promovida de fora para dentro, utilizando as vulnerabilidades dos estados enfraquecidos.

Estados fortes são imprescindíveis por pelo menos um motivo: ninguém consegue o mínimo à subsistência sem a estabilidade gerada pela ordem. As pessoas precisam trabalhar para conseguir alimentos e roupas para si próprios e para suas famílias. Pessoas que cruzam as ruas ou caminham pelas estradas precisam de um mínimo de segurança, necessitam estar certos de que sairão e retornarão vivos para suas casas com os mantimentos essenciais; que ao retornarem às suas casas as encontrarão incólumes e sua família viva, por exemplo. Assim, qualquer ente que estabeleça ordem será imediatamente apoiado pela população. Se esta ordem estiver apoiada em outras razões e motivos, sejam econômicos, afetivos, políticos, religiosos, a legitimidade será uma decorrência natural. Portanto, qualquer que seja o ente, estatal ou não-estatal, a busca, instalação e manutenção da ordem deve ser o objetivo primordial. Inversamente, as forças contrárias, quem quer que sejam, estatais ou não-estatais, lutarão pela manutenção da desordem que possibilita a instabilidade.

A atuação das Forças Armadas brasileiras no Haiti, coordenando as tropas da ONU, é um exemplo positivo de ente supra-nacional atuando para a re-instauração da ordem em um estado que deixou de existir depois de golpes de estado seguidos de terremotos avassaladores. Nossas Forças Armadas fizeram um excelente trabalho, neste sentido, atuando não somente na repressão aos grupos armados anti-estatais que aterrorizavam a população, mas também atuando na regularização dos serviços públicos, como atendimento médico e remoção da montanha de lixo que se acumulava nas ruas após o colapso do governo haitiano.

O exemplo contrário é a invasão da Somália executada pelas Forças dos Estados Unidos, há muitos anos. Diferentemente do que se anunciava e se esperava, o resultado foi o maior enfraquecimento do estado na Somália, abrindo ainda maiores brechas para a atuação de atores não-estatais, como os tribunais islâmicos, que implantaram a Sharia. A população apoiou tais tribunais porque quase de imediato eles conseguiram estabelecer um mínimo de ordem ao cotidiano das pessoas. Houve uma tentativa de instalação de um Governo Provisório com ajuda internacional e apoiado por forças estrangeiras, mas isto fez apenas com que tais grupos buscassem legitimidade por intermédio da promoção do nacionalismo radical. O resultado, passados muitos anos, todos nós conhecemos. Depois de uma década da invasão, o Estado na Somália não apenas enfraqueceu mais, mas tornou-se irrelevante. Os entes não-estatais expandiram seu poder até o ponto de derrotar a única potencia militar mundial, à época, quando esta tentou, supostamente, re-estabelecer a ordem.

Deveras, em um país cuja população viva abaixo de linhas básicas da dignidade humana, onde a miséria e a pobreza reinem absolutas, os resultados de uma invasão estrangeira seriam quase que totalmente previsíveis, se esta não for acompanhada de medidas de melhoria das condições de vida da população. Porém, os mesmos resultados, como a tomada de espaço por grupos anti-estado, se manifestam em países cujo desenvolvimento sedimentou há muito tempo. Nestes o padrão de vida da população está localizado em patamares muito elevados. Por conseguinte, supõe-se que não ofereceria condições para o crescimento de tais entes. A realidade, contudo, desmente nossas expectativas. Em vários países do continente europeu, na Inglaterra com mais intensidade, comunidades muçulmanas dominaram bairros de grandes cidades e lograram implantar a própria lei, à revelia do estado inglês. Nestes bairros a própria polícia inglesa não entra. Isto significa que ali os muçulmanos estabeleceram um lugar de autonomia. A partir daí, com o domínio de vários bairros e  de varias pequenas cidades do interior, desenha-se uma rede com inúmeros nós que tende a crescer ininterruptamente, em crescimento gradativo, transformando a autonomia em soberania, até o domínio completo, substituindo um estado por outro.

Para os nossos objetivos imediatos é importante destacar que a estratégia utilizada é semelhante tanto para os países subdesenvolvidos quanto para os desenvolvidos. Como toda semelhança implica a presença de diferenças,  o que difere na aplicação da estratégia em ambos os tipos de países é a oportunidade de aplicação e o tempo de execução; os resultados buscados são exatamente os mesmos, independentemente de quem aplique a estratégia.

Vejamos agora como estes elementos das guerras de quarta geração estão sendo aplicados no Brasil e contra ele, pelos seus inimigos.

Uma das características das G4G é que devido ao surgimento de outras potencias mundiais, mesmo a superpotência americana evita realizar ataques diretos a variados países, e quando o faz, procura justificar moralmente tais ações. Com efeito, a imagem e a sanção internacionais podem causar inúmeros problemas, porém, o problema principal encontra-se geralmente na opinião pública interna. Países poderosos, como Estados Unidos, Rússia e China, têm evitado tais percalços financiando ações invasivas, por diversos meios, terceirizando a guerra, isto é, estabelecendo verdadeiros exércitos privados e contratando-os para realizar o trabalho que suas tropas militares não devem fazer por motivos de controle do público interno a estes países. O importante nestas ações, muito mais do que o controle da opinião pública é a dissimulação. O país alvo da invasão não deve perceber que está sendo invadido e que está sofrendo um ataque que o destruirá por dentro, como um câncer.

No Brasil, o “exército” invasor é composto de inúmeras ONG’s que se concentram na região amazônica. Estranhamente, atuam naquelas regiões onde há grande concentração de petróleo e água, jazidas minerais, como o ouro e “terras raras”. Estas terras são essenciais às indústrias 4.0 das potenciais econômicas. Por exemplo, baterias de celulares são construídas a base de lítio, encontrado em abundância na Bolívia. No Brasil temos, entre as conhecidas, o Nióbio e o Grafeno, mas existem muitas outras.

Nas últimas décadas tem crescido exponencialmente a quantidade de ONG’s estrangeiras atuando na Amazônia brasileira, bem como a disponibilização de fundos para financiar tais atividades. Destacável nestas atuações é que até onde se conhece, são os doadores, como a Noruega, que determinam onde e como devem ser aplicados tais fundos, praticamente não permitindo que o estado brasileiro interfira nestas questões. Mais recentemente houve reação do governo brasileiro, com a intenção de “compartilhar a gestão destes fundos”. Na prática, isso significaria o “compartilhamento da soberania nacional’ não fosse isso uma contradição de termos.

As ONG’s internacionais, máxime, têm ocupado espaços nas áreas amazônicas que o estado brasileiro nunca ocupou ou simplesmente abandonou por estrita incúria. A população brasileira daquelas plagas, abandonada, foi adotada por estas entidades e suas necessidades foram atendidas, senão em sua totalidade, pelo menos em aspectos essenciais. Paralelamente a isso, tais entidades começaram um lento trabalho de conquista das suas lealdades. Ações como o ensino da língua pátria da entidade atuante, financiamento de obras e serviços, doação de bolsas de estudos no país de origem. Existem relatos de que em determinadas aldeias, índios brasileiros falam inglês com certa fluência, mas não entendem a língua portuguesa. Existe também o caso de ONG’s que atuam atraindo jovens do centro e do litoral do Brasil, explorando sua natural ingenuidade e idealismo, e depois os submetendo a trabalho de desindentificação pessoal e nacional. Uma das técnicas utilizadas é justamente o isolamento dos laços sociais nas suas cidades de origem, mas principalmente dos laços familiares. Com isso o trabalho é facilitado, pois são submetidos a isolamento, inclusive devido à grande distância dos principais centros urbanos, e treinamento intenso, incluindo lavagem cerebral. Devido à limitação da idade dos jovens, que não pode passar de vinte e nove anos, aparentemente, um dos objetivos é transformá-los em guerrilheiros: seria uma autentica “FARC brasileira” se a ONG não fosse financiada por capital estrangeiro. Aqui a abordagem, no entanto, apresenta algumas variações. As FARCs, conhecido grupo de comunistas narco-guerrilheiros da Colômbia, sequestravam crianças para obrigá-las a se tornarem seus soldados, enquanto no Brasil os jovens são atraídos com promessas de “luta para salvar o meio-ambiente”. Os exemplos são numerosos, tanto que seria difícil citar a maioria deles.

O que essas ONGs têm feito, então, é organizar-se em redes e criar pequenos espaços de autonomia local. A partir daí começam a interligar os nós e expandir sua influência, para depois conquistar soberania sobre estes pequenos territórios, se necessário pela força das armas, bem como com a anuência e apoio de entidades supranacionais agindo em conjunto com os entes financiadores, não-estatais e até estatais.

Simultaneamente à ocupação gradativa do território, formando uma teia que cubra os seus principais pontos de interesse, estas entidades buscam a deslegitimização do governo. É fato que isso está acontecendo atualmente. Não importa o que o governo do presidente Bolsonaro faça de bom, a interpretação dos fatos sempre será negativa. A legitimidade é um dos alvos nas G4G. É preciso destruir a legitimidade do governo, mesmo que este tenha sido eleito democraticamente consoante a lei, e apresentar-se como legitimo defensor da população abandonada.

Uma das táticas utilizadas pelos entes para-estatais estrangeiros atuantes na Amazônia é a ideologização. À semelhança dos ataques com vírus biológicos das batalhas bacteriológicas, nas G4G são utilizados os vírus ideológicos. Tais vírus têm uma curva de contaminação muito parecida com as das pandemias virais. Começam devagar e depois a taxa de crescimento é acelerada até atingir crescimento exponencial. O problema é que, inversamente aos vírus biológicos, a vacina para tais vírus, quando aplicada, leva pelo menos uma geração para gerar os efeitos desejados. Portanto, a única forma de impedir o avanço da contaminação ideológica é criar barreiras ao contato com a população ou afastar de vez os agentes infecciosos.

Ainda que nos seja difícil aceitar que brasileiros contribuam com a destruição do país pela via da entrega do nosso território a estrangeiros, parece evidente que isto ocorre em grande medida. O escandaloso disso tudo é que são autoridades que cometem estes atos impatrióticos. Dissemos que ordem e desordem são, respectivamente, alvos dos oponentes nas G4G. Ocorre que nem sempre o “estado” deseja manter a ordem. No caso em tela, membros do estado é que são os geradores das condições para o surgimento da desordem, se não diretamente, pelo menos indiretamente. Durante a suposta pandemia do Coronavirus temos visto inclusive componentes do STF liberando condenados para evitar que sejam contaminados na prisão. Desnecessário explicar a ilogicidade dessas ordens e qual o risco para a sociedade. A liberação, entretanto, atende, assim parece, à intenção de manter livre um efetivo pronto para promover violência, para amedrontar a população, e desordem, para enfraquecer o governo perante a opinião pública. Quer dizer, componentes do estado, pagos pelo povo, estão a serviço de forças estranhas para deslegitimar o governo e favorecer a sua deposição.

As estratégias, portanto, não diferem, em essência, mas sim na sua aplicação, considerando os aspectos contingenciais. Desvelar a estratégia de nossos inimigos, compreendendo sua lógica interna, é o primeiro passo para começar o trabalho de reversão da perda de parte importantíssima de nosso território, assim como da corrosão da soberania nacional.

 

 


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O DESTINO DAS BOLHAS - 19.08.2020


por Percival Puggina       

 

 

Tenho setenta e cinco anos e cheguei a essa idade prematuramente, devo dizer. Nasci no tempo da manivela. Só em Havana vi tantos carros antigos quanto na minha infância em Santana do Livramento. Aqueles, aliás, eram os brinquedos dos adultos. Os meus eram de corda como a esplêndida baratinha vermelha conversível, com seus 5 ou 6 centímetros de pura potência. Nos anos 60, cursei arquitetura fazendo operações com uma régua de cálculo e até 1993, colunista do Correio do Povo havia quase 10 anos, ainda escrevia numa Olivetti portátil porque me pareciam sofisticadas e complicadas demais as máquinas elétricas de escrever.

 

Acho que isso dá uma idéia da distância a que eu estava de um computador no início deste século. Aí, o professor Cezar Saldanha Souza Junior, mestre e querido amigo, me passou uma descompostura pelo meu atraso em relação às novas tecnologias. O doutor Eduardo Henrique de Rose, amigo de fé, irmão, camarada, me instruiu no manuseio de um notebook. O enorme constrangimento inicial com as novas máquinas foi se transformando em amável intimidade. No meio do caminho topei com as facilidades da Internet e me tornei um turista nada acidental, navegador no mundo da comunicação instantânea.

 

Assim, chego a este trecho final da vida, com a plena consciência de que nosso país não pode andar mal quando tudo se faz tão ágil. Há quase quarenta anos - quarenta! - venho  me dedicando a uma tarefa de formação da consciência política daqueles com quem me comunique. Meu sonho de um Brasil melhor nasceu na redemocratização e foi hospitalizado, logo adiante, por falta de oxigênio, nas alegorias populistas do processo constituinte. Se nele estivesse, eu teria sentado ao lado de Roberto Campos, contra cujas convicções o Brasil escolheu instituir um prodígio histórico mundial: o primeiro estado de bem estar social em nação pobre. De um modo ou outro esse sonho ainda hoje embala muitas noites, seja em mesas de bar, seja em redes sociais, seja no indisfarçável egoísmo organizado dos "coletivos". Quanto tempo perdido, Senhor!

 

"O que fazer?", me perguntam com frequência. Os caminhos da democracia, sendo ela feita por gente, precisam de convencimento e formação de amplos consensos. Então, eu creio que expor a verdade sobre atitudes e ações dos agentes políticos, ativos e passivos, é uma forma boa de acelerar isso e é o que tenho feito. O Brasil vive em crise porque seu modelo institucional as estimula e não as resolve. Apenas entra numa bolha que logo adiante cumpre o destino das bolhas. Não podemos nos permitir isso. O Brasil precisa de correções, tanto quanto alguns de seus agentes precisam de corretivos... 

 

Na atual configuração política e institucional do Brasil, não hesito em afirmar: o pior STF da história e um Congresso com os vícios habituais, dedicado, na melhor hipótese a não fazer o que deve, e na pior a fazer o que não deve, assustam tanto quanto a pandemia. Informar para a formação daqueles consensos indispensáveis, retirando da passividade a maioria da população, hoje paciente maior das crises, acaba por expor seus agentes ativos, ameaçando-lhes as carreiras. A grande mídia muito pouco tem servido para isso.

 

Eugène Ionesco afirmava serem os inimigos da história os que acabam por fazê-la. Nem sempre é, nem precisa ser assim. Se passado se descreve, o futuro se escreve e é possível agilizá-lo. A ideia da intervenção, a propósito, é apenas paralisante porque inibe alternativas e, sabidamente, não vai acontecer. Se acontecesse seria apenas mais uma bolha que explodiria restaurando a crise anterior. Como ocorreu em 1985 e se danificou ainda mais em 1988.

 


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A ARMADILHA PERFEITA - 17.08.2020


 por Abrahão Finkelstein  - Primeira parte

A armadilha é mortal e nós estamos presos nela. O aparato estatal tornou-se um fim em sí mesmo que foi aos poucos, e aos muitos, corrompendo, alterando e capturando as funções do Estado, servindo-se dele em benefício próprio.
 

     A força de trabalho da nação - acuada e extorquida pela pilhagem dos que ostentam mandatos, cargos, funções, sinecuras, direitos adquiridos, foro privilegiado, altos salários, gratificações, estabilidade, aposentadorias até após a morte - geme e sangra. Às vezes vai às ruas e protesta.

 

     O imoral e escandaloso assalto aos cofres públicos, perpetrado pelos verdadeiros donos do país cuja filosofia de vida é "Mateus Primeiro os Meus", faz beiçinho e ameaça não brincar mais se forem contrariados. Eles têm o poder de parar o país, trancar projétos, desprezar urgências e mitigar necessidades. Com eles é assim: Ou dá, ou desce.

 

     Debruçados sobre o cadáver insepulto de nossas expectativas, fazemos o que podemos. Produzimos artigos, nos mobilizamos nas redes sociais, protestamos e sonhamos em viver novamente num país normal. Mas como? se a armadilha foi construida para ser indestrutivel? Pois é desse material - democracia - que ela foi feita passo a passo, com aplicação e zelo.

     As corporações, incansáveis na busca de mais e mais benefícios para sí próprios, agem sem constrangimento junto aos poderes da República. Nem o presidente pode fazer algo pois está preso nessa armadilha como todos nós. Muitos de nossos representantes se julgam donos do mandato que o povo lhes conferiu. Eleitos, representam agora a sí mesmos. Nos traem diariamente em benefício do partido ou deles próprios.

 

     Então, metaforicamente, temos algo parecido com um grande bolo de noiva, cuja massa bem socada, é um povo que luta, luta e não chega nunca, cozido em fogo lento, e depois enfeitado com marron glace na parte superior para os mais iguais e com açucar mascavo na de baixo, servido aos pagadores de impostos, cidadãos de segunda classe que sustentam essa gigantesca cornucopia de privilegios do andar superior.

 

Tudo muito democrático, tudo muito sórdido, tudo muito canalha e tudo muito difícil de engolir.

 

Como sair desta?*


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TEMAS SENSÍVEIS E TIRANIA TOGADA - 17.08.2020


por Percival Puggina. Artigo publicado em 16.08.2020

 

Alexandre de Moraes, dizendo citar James Madison: “Toda tirania deve ser afastada, inclusive a tirania da maioria”. (1)

Deu um nó na cabeça de muita gente a frase de Alexandre de Moraes. No entanto, ela talvez seja a mais clara expressão da atual crise da democracia em nosso país. Essa crise é patrocinada, de um lado, por um Congresso Nacional habituado às piores práticas, composto por congressistas que, majoritariamente, se creem titulares do direito de dispor dos recursos públicos em modo privado. Se insatisfeitos nessas demandas, ficam emburrados e lançam pragas e maldições contra o governo. Na versão hardcore, tais recursos são usados para financiar campanhas eleitorais e partidos; na versão softcore, disponibilizados às respectivas bases, contabilizando a quem os obtém, méritos pessoais para futuros pleitos. De outro lado, a crise é patrocinada por um Supremo Tribunal Federal que, desde 2019, se tornou o principal protagonista da política em nosso país. Seus membros, performáticos, midiáticos, abandonaram as regras da prudência e da discrição e se dedicam a corrigir as pautas vitoriosas na eleição de 2018.

Senta-se nessa Corte, também conhecida como Pretório Excelso, o novato Alexandre de Moraes apreciador e aplicador da frase em epígrafe. Em tempo algum o Supremo Tribunal Federal se sentiu tão excelso, tão perto do Olimpo e de seus deuses quanto nestes dias. Na avaliação dos senhores ministros é imperioso fazê-lo. Eles tinham uma agenda que foi atropelada pelo bolsonarismo, como esclareceu o futuro presidente da Casa, ministro Luiz Fux, em entrevista à Veja.

Entendamos um pouco melhor a atual composição da Suprema Corte. Eles não são os onze melhores juristas do país, embora assim se vejam. Longe disso! Fora daquele plenário, há inúmeros mais sábios, com mais ampla visão de história, com melhores títulos e formação cultural realmente excelsa. O critério que levou oito deles para o STF é o alinhamento político-ideológico com os governos de suas excelências Lula, Dilma e Temer. Deus que os perdoe. À época de sua indicação, eles alcançaram nota máxima nesse quesito. Portanto, quando o ministro Luiz Fux manifesta em entrevista à Veja que o bolsonarismo se atravessou à agenda ele está se referindo e se atravessando, ele sim, àquela que talvez tenha sido a mais robusta razão do resultado eleitoral de 2018.

Há uma série de temas em relação aos quais a maioria conservadora e liberal vencedora do pleito tem posição firmada. Ela é a favor da Escola sem partido, do direito à vida a partir da concepção, da instituição familiar e de sua prioridade na educação dos filhos, da proteção à inocência infantil, do homeschooling, do combate à impunidade, da prisão após condenação em segunda instância; e é contra ideologia de gênero, aborto, desarmamento, impunidade, prisão apenas após trânsito em julgado de sentença penal condenatória, a falsa democracia dos conselhos corporativos inseridos nos órgãos de estado, governo e administração (sovietes). Em sua maioria, esses assuntos são temas sensíveis, como virou moda dizer, e envolvem posições conflitantes. No Ocidente, constam de três agendas: a dos conservadores, a esquerdista e a das Supremas Cortes. Passo a passo, com infatigável persistência, mesmo nos regimes democráticos, a esquerda contorna os parlamentos transferindo as decisões para o ambiente restrito dos pretórios excelsos. “Fora conservadores!”, parecem dizer suas agendas internacionais.

É assim que avança no mundo a tirania da minoria.


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LIBERAL POR CONVENIÊNCIA? Não, obrigado!


Por Roberto Rachewsky

   

Existem dois tipos de liberais. O liberal por princípio e o liberal por conveniência. O primeiro, chamado também de liberal-raiz é moralista ao extremo, radicaliza na defesa de uma ética individualista que olha o ser humano como algo munido de características únicas entre os seres vivos que fazem com que ele precise para viver de um ambiente adequado para que possa criar, produzir, manter e consumir as coisas que o irão manter.

   

    Criar, produzir, manter e consumir são ações individuais que visam prover valor para usufruto do próprio ator com o propósito deste de realizar as coisas que deseja para si ou para os seus. O liberal-raiz não responde pelos outros as inevitáveis perguntas: - "Esse bem, esse produto, esse serviço, tem valor para quem e para o quê?". O liberal-raiz permite. Ou melhor, defende, luta, para que cada indivíduo responda tais perguntas para que possa exercer o que a sua natureza, o que o seu ser exige moralmente, a liberdade e a responsabilidade de prover para si, com o próprio esforço, aquilo que o permitirá, no mínimo, existir e, no máximo, ser feliz por mérito próprio.

   

    O liberal por conveniência é utilitarista. Defende a liberdade porque entende que ela é um meio justificável, não por causalidade intrínseca, mas pelos fins que se pretende atingir. O liberal por conveniência é pragmático, tudo que tiver que ser feito para atingir os objetivos aos quais ele se dedica, deve ser feito, independentemente de qualquer princípio. O princípio do pragmático é não ter qualquer outro princípio que não esse. Para o pragmático, para quem e para o quê serve determinado valor a ser criado, produzido, mantido e consumido não é respondido individualmente pelo ator, mas sim por ele, que se vê na condição de um grande regente da vida em sociedade. Para o pragmático, o objetivo é satisfazer a vontade do maior número de pessoas da melhor forma possível, independentemente dos sacrifícios que ele tiver que causar a quem quer que seja. Menos a ele, é óbvio.

   

    Quando eu digo que há liberais por conveniência, eu quero dizer que esses não são a favor da liberdade incondicionalmente. Volúveis, acreditam que há circunstâncias nas quais a liberdade é inconveniente, mesmo sendo o seu exercício ou a sua defesa moralmente justificados. O liberal por conveniência se molda às circunstâncias como um Zelig do Woody Allen, cuja aparência e comportamento se moldam ao ambiente em que estão inseridos, não como forma de reconhecimento da realidade mas porque tolerar o intolerável é mais confortável. O liberal por conveniència, se tiver que se tornar seu oposto, não hesita nem um pouco, se adapta pragmaticamente e achará justificativas razoáveis para defender seu ponto.

   

    Há várias escolas de pensamento liberal, entre elas aquela criada por Ayn Rand que colocou de pé uma filosofia própria, baseada em pensadores clássicos como Aristóteles. Ayn Rand foi descrita por Milton Friedman, pai de outra escola de pensamento liberal, como uma radical, extremista e intolerante. Não apenas ela, mas Ludwig von Mises, outro liberal por princípio, foi por taxado de inflexível.

   

    Ayn Rand dizia que a pior filosofia que há é o pragmatismo. Para ela, e para mim também, o pragmatismo não apenas abre mão de princípios, mas subverte também o que faz com que sejamos diferentes dos outros animais, a capacidade única e indispensável de fazermos abstrações.

   

    Na política, os pragmáticos tendem ao autoritarismo. Para satisfazer o maior número possível de pessoas, não se importam de violar os direitos individuais de ninguém. Dizem saber o que é melhor para a maioria do povo e para não sofrer oposição, quando não usam de coerção exacerbada, cultuam o relativismo moral e o subjetivismo conceitual, sem deixarem de monopolizar as virtudes e as verdades sofismando para aqueles que tiveram sua capacidade de pensar tolhida com a corrupção da linguagem, tática que permite a perversão dos conceitos, a inversão dos valores e a destruição da capacidade de abstração que faz com que os seres humanos possam criar e produzir os valores necessários para civilizarem-se.

   

    Liberais por conveniência são o elo fraco dessa espécie rara. Sua falta de convicção principiológica é que transforma a luta para a implementação do capitalismo laissez faire, o sistema social onde os direitos individuais são considerados inalienáveis, numa guerra inglória. A defesa do capitalismo não pode ser utilitarista, isso seria contraditório. Nem pode se dar por mera conveniência. Não é porque o capitalismo oferece melhores condições sócio-econômicas para as sociedades, que ele deve ser defendido. O capitalismo é o melhor sistema porque é o únicoo que reconhece que o ser humano é racional e, para viver como tal, precisa necessariamente do direito à liberdade e à propriedade para realizar seus sonhos na busca incessante pela felicidade.

   

    O capitalismo não é o sistema no qual os indivíduos se associam e interagem com o objetivo de servir a sociedade. O capitalismo é o sistema social que reconhece que cada indíduo é um fim em si mesmo e sua liberdade e propriedade tem uma razão só de ser defendida, a própria felicidade de quem pensa e age livremente para usufruir dos frutos do seu trabalho.

   

    Uma sociedade é próspera no capitalismo porque toda sociedade é copmposta de indivíduos e se os indivíduos conseguem florescer e prosperar, é fácil constar que a sociedade por eles formada floresceu e prosperou. Nenhuma sociedade prospera à revelia dos indivíduos que dela fazem parte. Isso, nenhum liberal por conveniência dirá, porque pode não ser suficientemente conveniente dizer.

   

    Como eu sou um liberal-raiz, eu digo com convicção e com intrangigência que sociedades planejadas centralmente, onde economias mistas proliferam, onde os governos são imbuídos de fazer pelos indivíduos, o que estes deveriam fazer para si, não tem nada de capitalismo porque a ética do coletivismo estatista sufoca o indivíduo que se vê como um fim em si mesmo.


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INSTITUTO de FORMAÇÃO de LÍDERES - 13.08.2020


    Casualmente, no dia em que Salim Mattar demitiu-se do governo, eu estava palestrando para uma turma de jovens associados do IFL (Instituto de Formação de Líderes) de Brasília.

   

    Os IFLs são entidades independentes criadas e mantidas pelo Salim a partir da transformação dos capítulos do IEE em institutos autônomos, sendo que já há vários em funcionamento no Brasil..

   

    Por maior que fosse o bem que Salim Mattar pudesse fazer trabalhando no governo, nenhuma das suas ações se equipararia com sua contribuição para um futuro alvissareiro para o Brasil do que a formação de jovens lideranças.

   

    É evidente que os liberais chegaram ao governo um pouco cedo demais. Não apenas isso, parece que chegaram lá pelas mãos erradas. Ainda não há uma massa crítica de liberais na burocracia estatal nem no Congresso para fazer-se o que é preciso ser feito, separar o governo da economia, da educação, da saúde, da previdência. da ciência e da infra-estrutura.

   

    A possibilidade real para se fazer mudanças que resultem na consagração do individualismo na ética e do capitalismo na política, é algo que precisa ser amadurecido ao longo de décadas com a evolução cognitiva e cultural daquela parte da sociedade que decide exercendo o poder.

   

    Salim Mattar é um sujeito diferenciado, mas ele não conseguiu desarticular os ferrolhos que impedem o desenvolvimento econômico e social no Brasil porque não é essa a mentalidade reinante.

   

    No entanto, quando se sabe que milhares e milhares de jovens são formados todos os anos por instituições como o IFL, IEE, SFL, IMB, IL, Atlantos, Líderes do Amanhã e tantas outras, temos a convicção que a hora dos liberais chegará.

   

    Salim Mattar tem trabalhado incessantemente para que isso se realize. Ele exerce um papel muito mais importante atuando na iniciativa privada, tanto como empresário quanto como ativista, do que no governo.

   

    Não tenho a menor dúvida disso porque eu conversei com 22 jovens de diversos lugares do Brasil que estão vivendo em Brasília e usufruem dessa oportunidade extraordinária que Salim Mattar oferece para aqueles que acreditam na liberdade como fator de mudanças positivas para o Brasil. O que colhi dessa conversa é o que venho colhendo há anos, a convicção de que tempos de liberdade se aproximam.


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