Espaço Pensar +

VENENO EM PALAVRAS E IMAGENS - 25.03.21


Por PERCIVAL PUGGINA

 

De repente me veio à lembrança o “Realejo” de Chico Buarque. Diz assim:
 

“Estou vendendo um realejo.
Quem vai levar? Quem vai levar? Quem vai levar?
Já vendi tanta alegra, vendi sonhos a varejo.
Ninguém mais quer hoje em dia acreditar no realejo (...)”.
 

Não dá para acreditar, mesmo, mas o realejo continua rodando a manivela, apesar do descrédito, vendendo sonhos, narrativas, utopias, mentiras e mistificações.

Os tocadores de nossos realejos quotidianos desenvolveram uma semântica astuciosa em que adjetivos como negacionistas, genocidas, fascistas, terraplanistas são usados para significados aquém e além daquele para o que existem e nunca com o intuito de serem entendidos no sentido para o qual foram criados. Delírios de linguística orwelliana. Veneno em poção verbal e visual. O mercado de veneno atrai ilustrados e apedeutas.

Recriou um “antifascismo”, sempre pronto a causar dano a algo que outros fizeram para destruir a divergência que merecem. Contudo, visto de perto, não passa do velho fascismo com estrela vermelha. Como sempre foi, aliás, desde antes do fim da Segunda Guerra Mundial.

Esse realejo que hoje toca no Brasil o dia inteiro tem como público cativo o cidadão do sofá, anatomicamente formado por corpo, membros e sei lá mais o quê. Pode haver certa má vontade minha, mas sempre achei mais fácil acreditar em Terra plana do que acreditar na Globo, por exemplo. Ademais, querer convencer pela repetição, como vem acontecendo no Brasil, desrespeita o público. É assim no adestramento, usado por humanos com animais. E nunca ao contrário. Pelo amor de Deus, nunca ao contrário!

O fato é que se por um lado isso está acontecendo, por outro nunca foi tão fácil saber em que banda toca a sujeito que fala. A linguagem impõe-se sobre as dissimulações e funciona como impressão digital da tendência política.


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JACARÉ - 23.03.21


Por Silvio Sibemberg

 

Desde criança nos acostumamos com vacinas, desde a de poliomielite (os jovens há mais tempo sabem bem do que falo) passando pelas de sarampo, caxumba, rubéola e muitas outras mais recentes que nossos filhos e netos veem experimentando há anos.
Não lembro de alguma vez ter sabido a origem delas, muito menos o país, laboratório ou farmacêutica que as tenha desenvolvido, elaborado, produzido e até mesmo envazado. Não era de nossa conta, nunca foi. Ou a vacina vinha à escola (muito comum ha meio século) ou íamos aos postos de vacinação. Dava-se o braço ou a nádega, as meninas tomavam na coxa (nunca soube o porquê dessa diferença) e era isso.  Picadinha e assunto encerrado. No outro dia poderíamos ter reação alérgica, no entorno do local da aplicação, uma febrinha e fim de conversa. Dizia-se até que esses sinais indicavam que a vacina “pegara”. Mais não sabíamos e não lembro de nossos pais falarem muito no assunto. 

Nunca foi tema de telejornais ou de qualquer outra espécie de mídia como agora. Os veículos eram úteis, anunciavam o calendário para que os pais se organizassem.

O lado bom, pode-se dizer assim, dessa novela sobre a AstraZeneca produzida pela Universidade de Oxford é que à medida que vários países da Europa tenham suspendido seu uso por conta de alguns poucos casos de efeitos colaterais suspeitos é que estão sobrando mais vacinas para o terceiro mundo. Para nós, bem entendido.
Qual a novidade? Sempre fomos o laboratório experimental deles, ou não?

Enquanto isso aumenta nossa disponibilidade e a velocidade de imunização que tanto precisamos.

Há sessenta dias os Estados Unidos estavam como nós agora, UTIs congestionadas e muitos óbitos. Com a aceleração da vacinação hoje o declínio da doença lá é notável.
Tomara sigamos, mais uma vez, o exemplo deles e em fins de maio estejamos festejando o quase fim da pandemia.
Quase porque não se sabe ainda o quanto mais essa variante do vírus chamada P1 pode causar de estrago. Dizem ser dez vezes mais transmissível e com mais poder de infectar adultos jovens na faixa de 30, 40 anos. Parece ser, até o momento, exclusividade nossa, “made in Brazil”, essa variante que teria se originado no pulmão, vejam só, do mundo, nossa tão querida e sempre polêmica Amazônia.

Mas não nos resta opção se não de seguirmos em frente tomando todos os cuidados preconizados para não fazermos parte do lado negativo das narrativas estatísticas tão ao gosto da mídia terrorista que assim como a vírus tomou conta do nosso país.

Enquanto isso vamos tomando todas que aparecerem à nossa frente  rezando para não virarmos jacaré.


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GRATUIDADE SÁO PARA QUEM PRECISA - 19.03.21


por Fernanda Barth ( publicado 18/03/21 no Jornal do Comércio)

 

Em seu discurso de aceitação ao receber Prêmio Nobel de Economia em 1993, o economista americano Douglass North alertava que as leis não necessariamente são criadas para serem socialmente eficientes"; na verdade, são criadas "para servir aos interesses daqueles com poder de barganha para criar novas regras".

 

 De fato, ao redor do mundo, a política é um campo onde os grupos de pressão tendem a levar vantagem. Cada grupo cria uma narrativa que coloca os seus interesses como sendo os interesses últimos da sociedade. Se dermos o benefício X para nós do grupo Y, todos sairemos melhor.

 

Ainda assim, em democracias desenvolvidas, essas regras parecem ter duas características adicionais: elas geralmente são a exceção, por sua própria natureza de beneficiar um único grupo em detrimento dos demais. O Brasil escolheu seguir por outro caminho.

 

Por aqui, a exceção é a regra. Aqui é a República da Meia-Entrada: temos o benefício para o estudante e para o aposentado, para o jovem e para o idoso, e assim por diante. Se você é apenas um trabalhador que não se enquadra em nenhum dos asteriscos com regras específicas em letras miúdas no rodapé, sem problemas, ainda há a "regra geral" para você que paga a conta – e essa não tem nada de miúda.

 

Se todos esses fossem destinados para os que mais precisam, tudo bem. Mas aqui também é o país onde para cada real que gastamos em Bolsa Família, 10 reais são gastos com o Bolsa Empresário. Para cada real da passagem de ônibus de Porto Alegre que o trabalhador comum paga, 30 centavos são para cobrir isentos. De novo, se o isento fosse apenas aquele que impossibilitado de pagar, podemos entender; mas o isento é também o estudante da universidade particular com a mensalidade de milhares de reais, o isento é também o funcionário público que mesmo com sua polpuda aposentadoria integral não paga nada.

 

Para o espanto de alguns, criar uma gratuidade não faz o custo do serviço sumir. Chegou a hora de mudar a Lei municipal: gratuidades devem ser só para aqueles que efetivamente não tem podem pagar. Para dar entrada gratuita ao excluído, precisamos acabar com a meia entrada para o grupo de pressão bem relacionado.


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STF, O PIOR DA POLÍTICA - 16.03.2021


por Percival Puggina

 

         Se a ideia, há dois anos, foi evitar crise institucional, agora estamos em plena crise e já se viu qual poder se agigantou com a omissão do Parlamento.

         O Supremo Tribunal Federal, como poder de Estado, exerce função política. É assim na teoria e tem sido assim na prática. Ao longo do tempo, o que se observa são certas variações em sua interferência para definir o que seja interesse público. Pode-se afirmar que a Suprema Corte, como tal, historicamente, observou seus devidos limites.

         Assim foi, até ser tomada por petistas e serem, os não petistas capturados pelo ativismo e pela rejeição ao conservadorismo e ao liberalismo. Pois não é que quando tudo estava certinho, bem combinado, hegemonizado entre marxistas e fabianos, 57 milhões de eleitores entenderam a tramoia, viram para onde se perdia o barco e disseram – “Basta!”?

         A partir daí o STF deixou de ser um dos poderes políticos para se tornar o mais político dos poderes de Estado e, por óbvio, o pior de todos. O pior no mais amplo sentido. Sem unção popular, monocrático em muitas decisões, maleficamente corporativo (tomado por aquele corporativismo que subscreve sandices para não deixar mal um companheiro). Capaz de usar o poder para constranger a opinião pública, a opinião parlamentar e o jornalismo divergente. Sempre pronto a usar mão leve para soltar criminosos e mão pesada para manter preso quem os desagrada pessoalmente (também no absolutismo monárquico o maior crime era o de lesa-majestade). E fiquemos, prudentemente, por aqui, posto que a imaginação, quando trabalha sobre fatos não esclarecidos, pode incorrer em mau juízo.

         A situação do Supremo se agrava porque, de hábito e cultura do próprio poder, seus integrantes têm o ego diariamente untado por mesuras e reverências servis e até a divergência, recebida com enfado (só falta um lencinho perfumado sob o nariz), vem enrolada em vênias e escusas. Por vezes parece faltar, apenas, o apelante se retirar curvado, dando passos em marcha ré perante tais fulgurações.

         Corresponde aos senhores senadores (são 81) pôr fim a esses abusos de poder. Reitero o que já escrevi antes: não é ao impessoal Senado, mas aos senadores individualmente que se deve clamar pela solução desse problema. É de seu querer que tudo pende. E aí o bicho pega. Um terço de laranjas podres estraga o cesto inteiro. Vinte e seis, nenhum petista, assinaram a Lava Toga em 2019 (1). Vinte e cinco perderam a liberdade de abanar a cauda porque estão sob investigação, ou respondem processo ou são réus perante o STF. O terço final se revela solidário aos colegas encrencados. Os primeiros já sabem o que tem que ser feito. Os segundos jamais o farão. É dos terceiros, dos que poderiam agir e não agem, que pode e deve ser extraída posição para fazer andar a Lava Toga ou os abundantes pedidos de impeachment de ministros do Supremo pendentes na Câmara Alta da República.
 

         Se a ideia, há dois anos, foi evitar crise institucional, agora estamos em plena crise e já se viu qual poder se agigantou com a omissão do Parlamento.


         Fora os que já se mostraram convencidos da necessidade de agir, de defender as instituições dos que sequestram seus poderes, todos os demais precisam ser conscientizados pelos cidadãos de onde vivem, ou onde quer que vão, da responsabilidade que têm sobre os ombros e do caráter imperdoável de suas omissões. Se não ouvirem o grito das ruas, ouvirão a vaia das urnas.

         O valor de um senador não se mede em verbas conquistadas, mas por coragem cívica e política, especialmente nos momentos cruciais, em que a nação se sente abandonada por instituições que surfam onde os eleitores soçobram.
    
(1) Eram 27, mas o senador Elmano Férrer (PI) retirou a assinatura e o pedido foi arquivado por insuficiência de apoio. Lista dos 27
aqui e notícia do arquivamento final, aqui.

* Publicado originalmente em Conservadores e Liberais, o site de Puggina.org


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FECHA TUDO, PELA VIDA? - 12.03.21


 

por Percival Puggina
 
         Você quer fechadas as muitas atividades de milhões de trabalhadores e empreendedores que retiram da própria iniciativa e trabalho o sustento de suas famílias?

         Eu sei. Menciono, aqui, um confronto de ideias em curso desde o início da pandemia. A pergunta, porém, persiste: você quer o lockdown?

         Se sua resposta é sim, sou capaz de apostar que você é aposentado, ou sua atividade lhe permite trabalhar em home office, ou é servidor público. Se sua resposta é sim, você está numa posição profissional não exposta aos perigos do insuperável prejuízo, seu emprego está bem substituído por outras fontes de renda, ou não está em risco. Se sua resposta é sim, seu futuro não balança, inseguro, na ponta de um fio. Ou, quem sabe, você é um jornalista que, no conforto do lar, é pago para escrever sobre a insensibilidade alheia. Em outras palavras, você é um privilegiado.

         O fato é que dezenas de milhões de brasileiros não se enquadram nessa situação. Alimentam a si e aos seus do fruto do trabalho semanal, ou mensal. Ou dependem, em ritmo cotidiano, de sua atividade nas ruas para garantir o magro prato de comida na mesa familiar. Quando as portas se fecham, a fome se torna companheira de todas as horas. A necessidade se faz mãe das escassas iniciativas e a cama no passeio público, sob um beirado, é o insalubre destino dos que se viram impedidos de trabalhar... para bem da própria saúde.

         Atividades essenciais! Ora, a atividade humana essencial é o trabalho. E trabalho não é a aplicação do lápis de cor sobre um mapa.

         As regras, necessárias, indispensáveis, deveriam ser estabelecidas e fiscalizadas com foco na permissão de funcionamento, nas condições para que seja concedido e na efetiva fiscalização de seu cumprimento. O que deve ser evitado é a aproximação horizontal, já espontaneamente instituída em incontáveis estabelecimentos de comércio e serviços. O que deve ser exigido é o cumprimento dessas regras, a boa organização dos espaços, a maior frequência (e não a menor) do transporte coletivo; o que deve ser exigido é o maior tempo de abertura para o comércio. O que deve ser evitado são os males e outras formas de morte que se seguem ao pânico. O que deve ser feito é um apelo à caridade, ao auxílio mútuo, ao amor ao próximo, o eficiente auxílio pessoal e comunitário aos carentes. Sim, porque a paralisia de atividades, a recessão e os auxílios emergenciais já quebraram o Estado brasileiro. Precisamos, também, e muito, voltar os olhos para Deus, o esquecido Senhor destes dias. Os sentimentos que mencionei vivificam a sociedade desde muito antes dos tempos das pestes que se prolongaram durante séculos.

         Sim, se você quer que tudo feche para que a vida continue e está em condições privilegiadas para segurar esse rojão, lembre-se de apoiar as dificuldades alheias, de rezar pelos mortos e pelos enfermos, pelas equipes de saúde em sua inexcedível dedicação. Pense que tudo o que você consome é produzido por quem não está sentado num sofá, protegido por uma bolha. Rompa essa bolha! Saia da frente da TV e de sua maledicência. Desperte as virtudes em seu coração.

*Publicado originalmente em Conservadores e Liberais, o site de Puggina.org


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DA DESILUSÃO PARA A AÇÃO CONCRETA - 11.03.21


por Percival Puggina
 
         Quando o pior momento se apresenta, a prudência manda pensar primeiro e agir depois. Nossa atualidade, mesmo se a examino segundo meus próprios sentimentos, une frustração, impotência, indignação.

“Sim, e daí?” – perguntam-me leitores.

         Numa síntese brevíssima, iniciemos pela frustração porque daí vêm a indignação e a sensação de impotência. Os eventos que culminaram no fracasso político de “PT & Associados” em 2018, foram bem entendidos como uma vitória para restauração conservadora em nosso país. Ocorreram dentro de uma ordem democrática e de seu sistema político.

         Esse sistema tem aspecto muito sedutor para quem põe seu voto nas mãos de um vencedor que “vem para mudar tudo”, para restaurar, retificar, corrigir, depurar, etc.. O eleito ganha, na abertura das urnas, quatro importantíssimos postos de comando! Ele é o Chefe do Estado brasileiro, chefe do governo do Brasil, chefe da administração federal, Comandante Supremo das Forças Armadas. Só que não. Principalmente após longa hegemonia do bloco político derrotado.

         Nada tem mais legitimidade do que um programa aprovado por 57 milhões de votos. Bolsonaro se deparou com um STF petista em oito de seus onze costados, sendo os três restantes tão ativistas quanto. Tinha uma base de apoio muito minoritária e impotente no Congresso. A administração pública estava e continuará entulhada de quadros militantes do lado esquerdo do arco ideológico. Fracassou a tentativa de contar com a boa vontade do parlamento, o STF impediu alterações mínimas nos quadros da administração permanente e as Forças Armadas já deixaram claro que, como tal, não trabalham para governos. Tudo isso é fato. Na experiência histórica que conheci em tantas décadas, nosso presidencialismo é assim mesmo e este é seu pior aspecto possível. Não preciso incluir na desgraceira a Covid-19 e o papel da mídia militante.

***

         O que fazer? No meu modo de ver, ilude-se quem imagina mobilizar os quartéis. Alguns tentam isso, em vão, desde 2015. O problema não é militar, mas civil. É um problema dos membros do condomínio. É político. Começa pela consciência de que esse sistema de governo é burro, exatamente por gerar situações desse tipo de modo permanente, apresentando, como instrumento de “governabilidade”, lauto serviço de bordo à corrupção, a preservação dos corporativismos e os aparelhamentos partidários do Estado e de sua administração.

         O que segue, é para um horizonte além de 2026. Um governo de gabinete confiado à maioria parlamentar, com a chefia de Estado entregue a outra pessoa, com o STF transformado num tribunal exclusivamente constitucional, composto segundo critérios melhores, nos alinharia com modelos políticos muito mais bem sucedidos e estáveis. Esse desenho para médio e longo prazo, exigirá reformas anteriores, entre as quais, as do sistema eleitoral (voto distrital puro ou misto), da forma de votação, da Lei Orgânica dos Partidos Políticos.

         “Isso não resolve o problema de atual!”, dirão muitos. Fato, mas se não tivermos essas pautas presentes como objetivos a serem buscados continuaremos resgatados, mediante o mero passar do tempo, de crises que nos põem na rabeira do desenvolvimento mundial e da credibilidade interna e externa.

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“E no curto prazo, o que fazer?”.

A democracia precisa ser salva pelos seus instrumentos. Não é um tal de Senado, lá em Brasília, que tem que adotar providências para instaurar processos de impeachment contra ministros do STF. Quem tem que fazê-lo são pessoas concretas, senadores, com mandato. A pressão tem que ser exercida sobre eles. Sobre cada um deles. E não é por e-mail. É pessoalmente, na cidade onde residem e naquelas que visitam. Eles precisam receber a consistente e sólida demanda nacional e o veemente protesto contra o mau uso do mandato que receberam, cuja renovação está em risco. Não podem eles permitir que continue a operar no Brasil uma ditadura togada à qual todos se submetem de modo constrangedor, por motivos que envergonhariam qualquer consciência bem formada. Por quê? Porque somos nós os prejudicados pelo mau uso dos mandatos que concedemos. Exclusivamente nós. Não eles.

*Publicado originalmente em Conservadores e Liberais, o site de Puggina.org


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