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A TRAGÉDIA DOS IDIOTAS ÚTEIS E A FÍSICA DOS BALANÇOS - 18.08.26


Por Alex Pipkin

 

É compreensível que jovens recém-saídos de universidades, ainda encantados com a descoberta de que boas intenções aparentemente revogam restrições orçamentárias, acreditem que governos possam gastar, distribuir, subsidiar e estimular quase indefinidamente. A juventude também serve para isso.
O espantoso é encontrar economistas consagrados e grandes empresários acreditando na mesma metafísica.
A economia, essa senhora desagradável, possui um defeito de caráter, já que não se comove. Pode-se escrever um manifesto contra os juros, organizar um seminário sobre justiça social, culpar o Banco Central, o mercado ou a conhecida insensibilidade dos números. O balanço continuará fechando do mesmo jeito.
É a física dos balanços.
Durante anos, parte do empresariado brasileiro acreditou que dinheiro caro era uma perversidade fabricada dentro do Banco Central. Roberto Campos Neto tornou-se o vilão perfeito. Bastaria substituí-lo e o crédito voltaria a jorrar pelas torneiras nacionais.
Campos Neto saiu; Gabriel Galípolo entrou. A torneira não jorrou.
A pequena inconveniência chama-se realidade fiscal.
Enquanto Brasília gasta e fabrica despesas permanentes com a serenidade de quem imagina que dinheiro público nasce público, empresas precisam enfrentar uma vulgaridade chamada caixa. E o varejo, dependente de crédito, renda disponível e confiança, costuma descobrir antes dos intelectuais que juros não são uma opinião.
Casas Bahia acaba de anunciar recuperação judicial e o fechamento de cerca de 300 lojas, um terço de sua rede. Magazine Luiza enfrenta prejuízos. Famílias acumulam dívidas e inadimplência recorde. A aritmética, aparentemente, também aderiu à “extrema-direita”.
O mais delicioso, se não fosse tão caro, é assistir à elite empresarial e intelectual que ajudou a vender a fantasia descobrir uma velha crueldade da economia: idiotas úteis também pagam juros.
Eis a tragédia dos idiotas úteis. Foram úteis enquanto ajudavam a vender a fantasia. Tornaram-se idiotas quando descobriram que a fantasia também lhes enviaria o boleto.
Ideologias possuem uma extraordinária capacidade de sobreviver aos próprios fracassos. Sempre encontram uma narrativa nova. Balanços não.
O eleitor aceita explicações. O caixa exige dinheiro.
E na sua empresa, quem está pagando o boleto da fantasia?


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A INVERSÃO MORAL DA SOLIDARIEDADE -14.08.26


Por Alex Pipkin

 

Não tenho certeza. Certezas absolutas deixo para o divino e para aqueles, cada vez mais donos da verdade, que dispensam a dúvida.
Tenho, porém, uma convicção bastante resistente de que existe uma perigosa confusão moral nestes tempos de “nova consciência”, em que depender dos outros pode ser apresentado como solidariedade, enquanto desejar depender de si mesmo começa a adquirir a desagradável aparência de egoísmo.
Adam Smith jamais caiu nessa armadilha. Interesse próprio não é egoísmo. O homem smithiano deseja melhorar de vida, prosperar, cuidar dos seus, mas leva consigo o espectador imparcial, aquele juiz moral interno que nos faz enxergar nossa conduta pelos olhos dos outros. Temos empatia, limites e deveres, mas também carregamos uma responsabilidade que nenhuma boa intenção coletiva deveria apagar. Minha vida é, antes de tudo, minha responsabilidade.
Ninguém abre uma padaria para alimentar a humanidade. Abre porque deseja prosperar, mas, para isso, precisa fazer um pão que alguém queira comprar, atender bem, competir e servir para ser servido. O interesse é individual, o que não impede o benefício de chegar aos outros. Smith percebeu há séculos algo que nossa sofisticada “nova consciência” parece empenhada em esquecer.
Foi aí, desconfio, que começamos a trocar as placas. Responsabilidade passou a parecer insensibilidade, autonomia ganhou ares de egoísmo e dependência foi promovida a virtude social. O coletivismo começa pelo grupo, distribui identidades, culpas e direitos e, quando termina o serviço, sobra um indivíduo cada vez menor.
Essas ideias não ficam trancadas nas universidades. A Janela de Overton ajuda a explicar como atravessam a cultura, ganham respeitabilidade institucional e finalmente desembarcam na política, onde encontram profissionais especialmente atentos a tudo aquilo que possa ser convertido em voto.
Políticos, salvo raras exceções, não lideram o impopular. Preferem seguir o popular, atividade eleitoralmente mais saudável, e nem precisam acreditar na nova moral. Basta saber contar votos.
O Estado também sabe fazer contas. Cria um benefício novo, amplia a dependência, chama de avanço social e ganha, junto com a gratidão, mais um pedaço da autonomia que antes pertencia ao indivíduo.
Não se trata de abandonar quem verdadeiramente precisa de amparo, mas de recuperar uma ideia quase subversiva nestes novos tempos. Há dignidade em trabalhar, produzir, prosperar e responder pelas próprias escolhas.
O tecido social se esfacela quando chamamos de egoísmo o desejo de caminhar com as próprias pernas e de solidariedade o hábito de colocar a conta nas pernas dos outros.


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A IGNORÂNCIA CONSENSUAL - 12.08.2026


Por Alex Pipkin

 

Durante séculos, ser ignorante tinha uma explicação simples. Faltavam livros, escolas e acesso. Resolvemos boa parte disso, mas a ignorância não desapareceu. Pelo contrário. Ela se tornou mais sofisticada.

Nunca uma geração teve tanto conhecimento ao alcance das mãos. Em segundos, podemos confrontar teses, ler o contraditório, conhecer outras culturas, revisitar a história e, quem sabe, desarmar alguns dos nossos próprios preconceitos.

E o que fizemos com esse privilégio?

Refinamos a arte de filtrar o mundo.

Há algo além do velho viés de confirmação. Estamos aprendendo a ignorar em grupo. A isso chamo de ignorância consensual.

Incomoda-me ver o conhecimento reduzido a munição de trincheira. Usamos a história como estoque de pretextos, a sociologia como manual de condenação do vizinho e a psicologia como habeas corpus para nossos próprios vícios. É quase o avesso do conhecimento.

A sociologia deveria nos ajudar a compreender como convivemos. A antropologia, a descobrir o outro, a reciprocidade e culturas que não cabem na nossa. A psicologia, a desconfiar dos mecanismos escondidos atrás das nossas certezas. E a história deveria nos impor uma saudável humilhação. O mundo não começou conosco.

O conhecimento deveria aumentar nossa capacidade de duvidar de nós mesmos. Fizemos o contrário. Passamos a usá-lo para sofisticar nossas certezas.

Não acredito na fantasia da neutralidade intelectual. Todos temos convicções. Eu tenho as minhas.

O problema não é olhar o mundo através de uma lente. É retocar os fatos até que combinem com a armação. Uma convicção decente precisa sobreviver à realidade, não escolher qual realidade merece existir.

As redes sociais transformaram isso numa indústria. Encontramos milhares de pessoas repetindo o que pensamos e confundimos repetição com evidência, pertencimento com argumento e maioria na nossa bolha com verdade.

Não encontramos a verdade. Encontramos gente suficiente para não precisar procurá-la.

Pensar por conta própria deixou de ser apenas um exercício de inteligência. Tornou-se um teste de resistência à solidão. Discordar da própria turma custa mais do que atacar a turma adversária.

Por isso, conhecimento sem coragem intelectual vale pouco.

Conhecer de verdade exige ler quem nos incomoda, procurar o argumento capaz de demolir o nosso e admitir, sem drama, quando o “adversário” tem razão.

A ignorância mais perigosa já não é a de quem nunca entrou numa biblioteca.

É a de quem percorreu todas as estantes e voltou carregando apenas os livros que lhe deram razão.

Chamamos isso de informação.

O nome correto é ignorância consensual.

O ignorante de ontem desconhecia o mundo. O de hoje aprendeu a montá-lo para que sempre lhe dê razão.

 


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QUEM PRECISA DE PARTIDOS ASSIM? - 10.08.26


Por Percival Puggina
 
 O momento histórico, com um exemplo adequado, ilustra o que descrevi no artigo “O jogo e a regra do jogo”. Mais da metade dos deputados federais e senadores (53% nos dois casos) atua em partidos que não terão e não apoiarão qualquer dos candidatos a presidente da República no pleito que se inicia dentro de 60 dias..., mas o que é isso, senhores?
 
Vejam a lista: MDB, PSDB, PP, União Brasil, Republicanos, Cidadania e Podemos compõem a turma do “tanto faz quem ganhe”. É o Centrão. Esses partidos aprenderam que a regra do jogo permite ganhar sem jogar, sem expor as canelas; depois é só aconchegar-se, sorrateiro, entre as sedosas almofadas proporcionadas pelo vencedor. É mais fácil negociar direto com ele, seja quem for. É claro que tais práticas criam legendas medíocres, nunca partidos úteis à sociedade; não formam eleitores conscientes, menos ainda empolgados por ideias; não preparam líderes, não formam dirigentes e, menos ainda, estadistas. Com tantos ruminantes de interesses, mesmo legendas que nasceram promissoras trouxeram o niilismo para a política: nem no período eleitoral, o futuro do país e o bem do povo suscitam real interesse.
 
Pouco lhes importa se a Economia foi para o brejo, se os corruptos quebraram até o cofrinho das crianças, se a Educação nacional desqualifica mais e mais a juventude para a improvável condição de  agente de um futuro promissor, se as cirurgias do SUS são agendadas para depois dos velórios, se parte do território nacional está tomado pelo crime, se a liberdade de opinião está cerceada, se a injustiça se torna o cotidiano de tantos e se a blindagem e a desigualdade perante a lei são a sublimação dos culpados em privilégio dos cargos. Para partidos assim, tudo que realmente importa aos cidadãos vale menos do que seus interesses. Insisto: isso não é estratégia, é opção moralmente rasa em qualquer atividade.
 
Quem precisa disso? Da colheita política, tais partidos buscam apenas a frutose, ou seja, as frutas mais doces da árvore do poder. Se nada custassem ao pagador de impostos, já seriam caríssimas pelo que fazem, mas o brasileiro, do berçário à sepultura, paga para tê-las e mantê-las no mercado dos votos.
 
No horizonte do meu tempo de vida, não haverá eleição tão decisiva quanto esta. Ela está ali adiante, já visível na noite dos tempos, com as luzes piscando em sinal de alerta para um momento historicamente relevante. Veja lá o que você vai fazer! Creia: votar branco, nulo ou não votar não é um manifesto à nação. É irresponsabilidade. Não sou omisso nem ingênuo e votarei pela mudança possível porque me sinto permanentemente agredido pelo que foi feito com a nossa liberdade, com a democracia, com o Estado de Direito e com as vítimas dos abusos de autoridade. Em outubro, resgatemos, no voto, a Terra de Santa Cruz.


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A ARROGÂNCIA DAS EXCEÇÕES - 06.08.26


Segundo o correto pensador Alex Pipkin, a PROSPERIDADE nunca foi uma demonstração de INTELIGÊNCIA. Sempre foi uma demonstração de HUMILDADE. Da humildade de reconhecer que existem leis às quais nem o poder, por mais sedutor que seja, consegue impor exceções.
Nenhum agricultor persuade a terra a produzir sem plantar; nenhum empresário convence clientes a comprar indefinidamente aquilo que não entrega valor, e nenhuma família consegue gastar para sempre mais do que ganha. Essas limitações não pertencem ao campo da ideologia. São imanentes à própria realidade.
É justamente por isso que a política se transformou no único ambiente em que ainda se acredita que consequências possam ser revogadas. Gastar passou a parecer mais nobre do que produzir, endividar-se mais virtuoso do que poupar, tributar mais simples do que reformar e prometer mais confortável do que explicar quem pagará a conta.
A riqueza deixou de ser consequência do trabalho, do investimento e da segurança jurídica para tornar-se uma expectativa criada pelo poder da canetada.
Existe uma forma particularmente dispendiosa de arrogância intelectual. É a convicção de que finalmente seremos a primeira sociedade da história a enriquecer ignorando exatamente os princípios que enriqueceram todas as outras. Como se existisse uma matemática nacional, uma física tropical ou uma economia disposta a suspender relações de causa e efeito apenas porque nossas intenções parecem moralmente superiores.
Foi assim que compreendi que a decadência de uma sociedade não começa quando a dívida cresce, quando a economia perde dinamismo ou quando as contas públicas entram no vermelho. Tudo isso pertence ao último capítulo.
O verdadeiro declínio começa muito antes, no momento em que uma sociedade deixa de acreditar que a realidade estabelece limites e passa a imaginar que esses limites podem ser reescritos pela “arte da política”.
A economia nunca foi uma ideologia. Sempre foi a caligrafia da realidade. Ela apenas registra, com a serenidade dos fatos, aquilo que governos insistem em apagar.
As sociedades dificilmente empobrecem por desconhecer o caminho da prosperidade. Elas escolhem a estrada da pobreza quando acreditam que serão a primeira exceção da história.
A realidade nunca precisou vencer governo algum. Bastou continuar sendo realidade. Ela tem o péssimo hábito de não ler decretos.


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O JOGO E A REGRA DO JOGO - 04.08.26


Por Percival Puggina

 

Em qualquer jogo, a regra determina a conduta dos participantes. O futebol, sem a norma do impedimento, teria menos drible e mais trombada na área; o basquete, sem a regra do tempo jogado, seria um esporte dormente em que a bola permaneceria mais tempo parada do que em disputa; o vôlei, sem rodízio, seria repetitivo e monótono.

Na política não é diferente. Se o sistema de governo e a lei eleitoral induzem à representação política dos grupos de interesse, teremos raros estadistas e muitos políticos distribuindo privilégios para uns e mandando a conta para outros. Se a regra do jogo estimula que os parlamentares sejam porta-vozes de regiões, corporações, sindicatos patronais e de trabalhadores, etc., a mobilização e a militância se darão muito mais nessas áreas do que nos partidos. E será a tais grupos e não às respectivas legendas que os políticos serão fiéis.

Contam-se nos dedos os políticos ocupados com o bem comum porque nada estimula os votantes a ter critérios superiores. O mesmo eleitor que exige a presença do político junto a si e se satisfaz com que ele agencie apenas seus interesses pessoais ou corporativos, cobra a presença de todos os outros no parlamento para cuidar dos interesses gerais. Hipocrisia de manual! De onde sairiam tais estadistas? 

Não é paradoxal que o eleitor obediente à regra do jogo (e não poderia ser diferente) vote em defesa de seus interesses e acabe profundamente descontente com o espelho de representação que surge de cada pleito? Ele constata que, periodicamente, como que brotam do ventre da terra, para se emaranharem nos altares do poder, personagens cada vez mais interesseiros, menos honestos, menos capazes e menos comprometidos com o bem comum. E há quem conclua, dessa observação, que a política seja exatamente a lavoura onde se cultivam tais produtos e que dela nada melhor pode surgir. No entanto, reitero: é a regra do jogo que está errada.

Observe um jogo de cartas. Quando os participantes se sentam para jogar, tratam de definir as regras a que estarão submetidos. Se o jogo for de canastra, definirão o valor dos coringas, como bater, etc, mas dificilmente alguém abandonará a mesa de jogo em função da regra fixada. Na política é diferente: a regra do jogo determina objetivamente quem vai jogar. Existem regras que levam à mesa as representações classistas, as representações regionais, os economicamente poderosos, e existem outras que estimulam o surgimento de estadistas. Existem regras que promovem a formação de partidos consistentes, de longa tradição, e regras que criam representações comerciais das movediças pautas políticas.

O mosaico normativo em que já se tornou a Constituição Federal de 1988 é decorrência da regra do jogo político ao tempo de sua elaboração. Com uma Constituinte não exclusiva (decisão lamentável de José Sarney em 1985), com o modelo eleitoral estimulando a representação política dos grupos de interesse, e num ambiente de tensão ideológica, criamos a matriz dos problemas com os quais convivemos. Entre os destampatórios da esquerda que queria tudo estatal e grátis e a insensibilidade dos caciques regionais que desejavam conservar os anéis nos próprios dedos, surgiu o centrão para compor o possível. O leitor mais idoso lembra, por certo, dos “buracos negros”, temas sobre os quais não se chegava a um entendimento e que acabaram entrando para o texto unidos a preceitos do tipo “na forma da lei complementar”. Ou seja, a Constituição diz, mas não diz, para que a lei, mais tarde, quando houver acordo, venha a dizer. 

Resultaram inúteis as advertências no sentido de que a Constituição deveria definir os consensos e a lei dispor sobre os dissensos. Era fatal que, a partir da promulgação, as emendas fossem se acumulando. A Constituição é tratada como se lei ordinária fosse porque fizeram dela uma lei assim, portadora de grave pecado original decorrente da regra de jogo que selecionou seus elaboradores. Por isso, nestes dias, tantos candidatos ao Legislativo carregam no bolso Propostas de Emendas à Constituição (PECs) que refletem o equívoco dos constituintes de 1988.

Quatro décadas após aquele alvoroço democrático, fomos estacionar, com liberdades minguantes, tão longe de uma democracia quanto estamos nestes dias de burrice, estupidez, insegurança e trevas.


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