Espaço Pensar +

FUTURO ADIADO - 01.07.26


Alex Pipkin, PhD em Administração
 
Existem sociedades que resolvem problemas. Outras aprendem a conviver com eles.
No início, a diferença parece pequena. Com o tempo, torna-se a diferença entre construir o futuro e apenas sobreviver ao presente. As primeiras enfrentam as causas, mesmo quando isso exige sacrifícios. As segundas especializam-se em administrar consequências, adiar reformas e transformar soluções provisórias em modo permanente de governar.
Esse é o retrato mais preciso do Brasil.
Já não nos falta diagnóstico. Falta-nos disposição para enfrentar aquilo que o diagnóstico exige.
Substituímos a coragem de reformar pela habilidade de remendar.
Cada dificuldade produz um novo programa. Cada distorção gera uma nova regra. Cada fracasso justifica mais gasto, mais exceções e mais improviso. O problema nunca desaparece, apenas muda de lugar.
É como o navegador que passa a vida ajustando as velas enquanto se recusa a admitir que o casco faz água.
O mais inquietante é que esse mecanismo já não depende de um governo. Ele aprendeu a se reproduzir sozinho.
Todo sistema duradouro produz aquilo de que mais necessita; pessoas adaptadas ao seu funcionamento.
Governos passam, partidos passam, e narrativas passam. A engrenagem permanece.
Pouco a pouco, a política adapta seu discurso ao momento, a burocracia protege a si mesma, grupos organizados preservam seus benefícios e os cidadãos passam a considerar normal aquilo que, uma geração antes, pareceria inaceitável.
É assim que uma sociedade perde a capacidade de imaginar um futuro diferente.
Fala-se muito em empatia, mas quase nunca naquela dirigida às únicas pessoas totalmente ausentes da arena política. São as que ainda não nasceram. Elas herdarão o custo de cada reforma adiada, de cada privilégio preservado e de cada decisão substituída pela conveniência do presente.
A maior injustiça social não é a desigualdade entre os vivos. É permitir que uma geração consuma as oportunidades que pertencem à seguinte.
Civilizações não entram em declínio quando deixam de identificar seus problemas. Entram em declínio quando transformam o adiamento em estratégia, a adaptação em cultura e o futuro no lugar para onde empurram as consequências do presente.
Nesse momento, o amanhã deixa de ser uma promessa. Torna-se o espelho das escolhas que insistimos em adiar.


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OS PARASITAS USAM A FORÇA - 30.06.26


Por Roberto Rachewsky

 

Elon Musk ficou rico com o dinheiro dos outros, assim como os políticos ficaram ricos com o dinheiro alheio.

 

Não está aí o problema da riqueza. A acumulação de riqueza nunca foi um problema. O problema não é matemático, não é econômico. O problema é moral, é sobre escolhas.

 

Elon Musk ficou trilionário porque ele teve uma visão, ideias que por serem benéficas para milhões ou até bilhões de pessoas, fizeram elas escolherem livremente investir nelas ou adquirir os produtos por ele inventados, produzidos e comercializados.

 

Elon Musk se tornou o mais rico indivíduo da história porque o mundo resolveu fazê-lo assim, voluntária e espontaneamente, para terem acesso ao que ele criou, sejam os produtos ou as oportunidades oferecidas no mercado de bens de consumo ou de capitais.

 

E os políticos que também enriqueceram através dos conchavos no governo, da corrupção, da extorsão? Eles também enriqueceram com o dinheiro dos outros, como Elon Musk.

 

A diferença é que Elon Musk chegou lá exercitando o princípio do comerciante, trocando valor por valor. O valor que ele tinha pelo valor que seus investidores ou consumidores tinham e escolheram nele depositar.

 

Esses políticos que enriqueceram usando a coerção estatal ou roubo, ou fraude, ou corrupção, não deram nada em troca pelo dinheiro obtido que o público já não tivesse. É a aplicação do princípio do parasita, simplificada na máxima do assaltante quando este diz: "A bolsa ou a vida".

 

Ora a vida já temos, a bolsa também. A ameaça coercitiva do parasita implica em uma falsa escolha. Essa é a questão moral que separa os Elon Musks da vida dos ministros do STF, dos burocratas das estatais, dos políticos do Congresso ou do Executivo, dos burocratas e juízes dos tribunais.

 

Elon usa a razão, os parasitas usam a força.


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UMA PRIMAVERA PARA O BRASIL - 29.06.26


Por Percival Puggina
 
Guias cegos! Coam um mosquito, mas engolem um camelo.” (Mateus 23:24)
 
 Pelas razões de sempre, é muito provável que a imensa maioria de nossos jovens nunca tenham ouvido falar na Primavera de Praga. No entanto, aquele acontecimento primaveril contra o qual o inferno comunista brutalmente arremeteu, entrou para a história e para o vocabulário político. A Tchecoslováquia era um daqueles belos países invadidos por Hitler em 1939 e transformados em despojos de guerra pelo comunismo soviético em 1945. Bota azar nisso! Já haviam transcorridos 23 anos quando, em 1968, o chefe de Estado tcheco, Alexander Dubcek, influenciado pelas ideias liberais de Ota Sik, mobilizou a população por reformas que ele mesmo cuidou de implantar. Ao arrepio das regras impostas por Moscou para todas as nações atrás da Cortina de Ferro, ele acabou com a censura, reabilitou os presos do regime e promoveu liberdades políticas e econômicas.
 
Com grande repercussão internacional, a situação se tornou intolerável para Leonid Breznev, líder soviético de então, que mandou meio milhão de soldados e tanques russos trazerem de volta ao cativeiro a desafortunada nação. A Primavera de Praga, porém, foi tão marcante que acabou dando nome “Primavera” a eventos libertários anteriores e posteriores, como a rebelião húngara de 1956, ocorrida 12 anos antes, à Primavera Árabe, iniciada em 2010 com consequências em países do Norte da África e Oriente Médio, ao movimento popular chinês de 1989, vitimado pelo massacre da Praça da Paz Celestial e até aos recentes protestos cubanos encerrados a pauladas no ano de 2021.
 
Faço este preâmbulo porque preciso dele para dar ênfase ao tema deste artigo num país onde a História é muito mal contada, manipulada e cheia de lacunas. Temos diante de nossos olhos as razões e, no calendário, o devido tempo para promovermos, no dia 5 de outubro, uma necessária Primavera Brasileira.
 
O simples fato de você, leitor, ter severas dúvidas sobre a possibilidade de que isso venha a acontecer fornece a prova da necessidade de que aconteça. Estão muito erradas as coisas em um país onde as pessoas perderam a confiança no Estado. Um país onde, em troca, o Estado não confia nas pessoas e não esconde o desejo de limitar a expressão das opiniões para manipulá-las mediante argumentos infames.
 
Foi nessa maré que se produziu a fragorosa derrota de uma nação pela falsa revolução dos omissos de 2022, militantes no cativeiro do sofá. Entregaram a própria casa – a Pátria que herdamos de nossos antepassados – para quem lhes é adversário em tudo que importa. Parecem feitas à medida deles as palavras de Jesus em João, capítulo 10, versículo 12, sobre aqueles que fogem quando vem o lobo para as roubar e dispersar.
 
Foi assim que o Brasil se tornou, em pouco tempo, o país dos escândalos seletivos, dos guias cegos e das blindagens. Uma nação protetora de suas prósperas organizações criminosas e tóxica em relação aos bens não materiais, apreciados, até mesmo, pelos revolucionários do mau humor, na prisão domiciliar dos sofás. Sai daí, cara! Quando o inverno acabar, vamos extrair desta eleição a Primavera do Brasil.


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REGIME TIRANO, NAÇÃO PELO CANO - 24.06.26


Por Percival Puggina

 

            Há alguns anos fui convidado, por um grupo católico, a falar sobre liberdade econômica e prosperidade social. A abordagem que fiz aproveitava o ensinamento proporcionado pelas trágicas experiências da Cortina de Ferro e do Muro de Berlim. Aquelas linhas divisórias, traçadas nas reuniões de Yalta e Potsdam após a Segunda Guerra Mundial, evidenciaram ao mundo as diferenças no curto, médio e longo prazo entre economias estatizadas e economias livres. O caso alemão era o mais didático por envolver o mesmo povo e a mesma cultura. De um lado, partido único, opressão e economia centralizada; de outro, Estado de Direito, democracia, liberdades políticas, civis e econômicas. Na primeira fila do auditório, um senhor, adepto da Teologia da Libertação, contrariado, se agitava na cadeira.

Enquanto eu falava, veio-me a ideia de ilustrar a mensagem com um exemplo que era presença cotidiana em todos os lares. Falei sobre as panelas alemãs. Expliquei que, finda a guerra, era preciso fabricar panelas para uma nação bombardeada. No lado ocidental, algum empreendedor instalou sua fábrica e passou a vender o produto. Perguntei ao auditório: “Quanto terá ele cobrado por unidade?”.

Arrancando risos, adiantou-se o tal sujeito na resposta: “Como explorador do trabalho alheio, deve ter cobrado o máximo que o povo estava disposto a pagar”. “Exatamente”, respondi. E acrescentei: “Ganhou tanto dinheiro que, logo, surgiram outros fabricantes para se beneficiar de uma fatia daquele mercado. Novas fábricas, novos empregos, mais gente vendendo e preços em queda por força da concorrência.”

Prossegui a exposição sobre o que de fato aconteceu no lado ocidental, falando na geração das panelas de aço inoxidável, fáceis de limpar, nas panelas de aço com fundo triplo, nas panelas de pressão, nas cerâmicas, nas válvulas reguláveis, nas variedades de design, nos materiais de cabos e alças, nas tampas de cristal, nas cores, nas panelas que apitam. Cada vez mais fábricas, mais operários, mais panelas criando a necessidade de buscar mercados e exportar volumosos excedentes de produção.

No lado oriental, submetido ao comunismo, as fábricas se transformaram em Empresas de Propriedade do Povo (VEB em alemão) e produziam espessas panelas de alumínio, desatualizadas, feias, mas feitas para durar gerações. Demanda atendida e decrescente. Em toda parte, pobreza e miséria se instalando pela ausência de fatores e motivações essenciais ao desenvolvimento econômico. O muro se tornou inevitável para conter o êxodo.

Ao final da palestra, dirigindo-me ao incomodado interlocutor da primeira fila, disse: “De cima do Muro de Berlim, durante três décadas, as donas de casa da Alemanha Oriental, olhavam as panelas usadas por suas irmãs e primas, tão próximas quanto inalcançáveis, e pensavam em quanto não dariam pelo privilégio de possuir ao menos uma em suas cozinhas. Certamente pagariam um preço ainda maior do que o ‘explorador do trabalho alheio’ havia cobrado pelas primeiras panelas que fabricou. Para entender o monumental efeito desses contrastes entre os dois modelos, ponderem que eu falei apenas em ... panelas.” Estado tirano, nação pelo cano.


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O PREÇO DA CONVENIÊNCIA 1 - 22.06.26


Por Silvio Sibemberg


O artigo de Hélio Schwartsman publicado na Folha esta semana discorre sobre o porquê de a corrupção se manter praticamente sem maiores problemas no Brasil. Segundo ele, não há interesse em combatê-la — ela seria parte da organização social de países subdesenvolvidos. Muitos beneficiários estão no mesmo barco.
O texto se atém à corrupção, mas poderia servir igualmente à análise da sonegação no Brasil. A grande maioria das pequenas empresas sonega para continuar no mercado. Mesmo com diminuição da carga tributária, os MEIs precisam, de alguma forma, sonegar para crescer. O raciocínio fiscal é deixar que cresçam para se tornarem contribuintes mais robustos. O tamanho da malha é para deixar passar os miúdos e reter os graúdos.
Na verdade, muitas das grandes empresas que hoje sustentam a máquina pública recorreram, em maior ou menor medida, à informalidade em algum momento de sua trajetória. Faz parte da cultura de países em desenvolvimento tolerar essa travessia.
Nas rodas empresariais formadas por esses ex-sonegadores, a crítica à falta de combate à corrupção é intensa. Poucos sabem que aqueles probos senhores muito sonegaram para chegar aonde chegaram. A tese de que os meios justificam os fins corre solta nas "Farias Limas" do país. Enquanto a corrupção prefere as sombras palacianas.
As narrativas jornalísticas preferem a corrupção — sempre acontece com os outros. Já a sonegação é mais complicada: costuma morar perto de casa.
Justificativas não faltam: carga tributária excessiva, necessidade de caixa para crescer, gerar empregos. E não estão de todo errados — em meio a uma atribulada gincana fiscal e trabalhista, esse parece ser o único caminho viável.
O Estado se diz prejudicado e justifica suas mazelas pela falta de arrecadação. Saúde e educação deficientes são sempre atribuídas aos sonegadores, raramente à corrupção.
Sob o ponto de vista ético, desviar recursos públicos não é menos grave do que deixar de recolhê-los. Em ambos os casos, a sociedade é privada de recursos que deveriam retornar em serviços e investimentos.
A conta acaba sendo paga pelos mesmos: a turma menos favorecida. O andar de cima sofre menos as consequências desse festival de hipocrisia do qual é personagem atuante, quer em uma ponta, quer em outra da nau dos insensatos.
A consciência de que precisamos evoluir como sociedade constrói-se aos poucos. Décadas de investimentos em saúde, educação e fortalecimento das instituições podem minorar as deficiências morais e econômicas da nação.
Enquanto isso, vamos tentando reduzir o cinismo entre aqueles que realmente podem ajudar na formação dessa nova ordem no Brasil.


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O LEVIATÃ AMEAÇA A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - 11.06.26


Por Dagoberto Lima Godoy


O Brasil parece disposto a regular a inteligência artificial antes mesmo de compreender bem do que se trata. Em nome da proteção de direitos, da segurança e da transparência, uma nova camada de controle sobre o ambiente digital avança no Congresso e no Executivo. A intenção declarada é nobre, como quase sempre é. Mas a história ensina que o poder raramente se expande confessando seus verdadeiros apetites. O Leviatã moderno não se apresenta como tirano, mas como tutor.
A inteligência artificial é a inovação mais decisiva de nosso tempo — talvez de todos os tempos. Ela afetará a produtividade, a ciência, a indústria, a educação, a saúde, a defesa, a administração pública e será decisiva para a competitividade internacional. O país que souber usá-la ganhará velocidade; o que a constranger — por medo, burocracia ou suspeita — ficará para trás.
É claro que há riscos: fraude, manipulação, violação de intimidade, discriminação, abuso de dados e vigilância indevida. Mas a resposta não pode ser transformar a inovação em território vigiado, submetido a conceitos vagos como “alto risco”, “impacto sistêmico”, “uso responsável” ou “falha sistêmica”, entregues à interpretação de burocracias reguladoras.
A norma vaga é o instrumento preferido do Estado sedento de poder. Ela não proíbe claramente; intimida. Não censura diretamente; induz à autocensura. Não impede a inovação por decreto; torna-a cara, arriscada e juridicamente insegura.
O resultado é previsível. Plataformas e empresas passam a remover conteúdos, bloquear experiências e evitar riscos antes mesmo de qualquer ordem estatal. Ao mesmo tempo, os grandes grupos saem fortalecidos, pois têm departamentos jurídicos, equipes de compliance e acesso permanente ao Estado. Já startups, pesquisadores, pequenas empresas e empreendedores locais são empurrados para fora do jogo.
Assim, uma regulação apresentada como defesa da sociedade pode acabar concentrando mercado, sufocando a inovação nacional e aumentando a dependência de plataformas estrangeiras. O Estado diz proteger o cidadão, mas termina protegendo os gigantes e constrangendo os pequenos.
Não se trata de defender uma terra sem leis. O Brasil já as tem até em excesso, embora muitas vezes desconsideradas até por quem existe para por elas zelar. O que se contesta é a criação sucessiva de novas estruturas administrativas, com sanções, relatórios, deveres genéricos e crescente margem de intervenção política.
A inteligência artificial precisa de responsabilidade, mas precisa, sobretudo, de liberdade. Sem liberdade, não há ciência viva, mercado dinâmico nem criatividade transformadora. O perigo não está apenas nos abusos da IA, mas na tentação de usar esses abusos como pretexto para domesticar a inteligência humana.


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