Espaço Pensar +

NO BRASIL DAS PRISÕES POLÍTICAS - 30.03.26


Por Percival Puggina
 
 Se alguém tinha dúvida sobre a natureza política da prisão de Bolsonaro e tantos outros, o ministro Alexandre de Moraes acaba de escancarar a realidade a quem tem olhos de ver.
 
Essa incerteza jamais me acometeu. Sempre vi como insanidade o fervor com que a esquerda se converteu em cortesã da Suprema Corte. Desde a indulgência plenária concedida por ela ao mestre Lula, os seguidores do profeta de Garanhuns repicavam sinos, tocavam clarins e gargalhavam felizes ante qualquer canetada dos ministros impondo restrições e penas a seus adversários. Era muita alegria de um lado só.
 
Sempre havia uma urgência incomum: salvava-se a democracia. Em cada invasão de privacidade, em cada direito humano abalroado, em cada trambolhão dado às boas práticas, salvava-se a democracia. As imposições de silêncio se transformaram em produtos refinados de uma ação civilizatória. Festejada com vivas e urras dos companheiros, elas cortavam a voz oposicionista como a guilhotina, ao som de urras e vivas, cortava pescoços na Place de la Concorde em 1789. O medo, leitores, pode ser tão silencioso quanto os cemitérios.
 
Por isso, não me espantou a decisão de autorizar a prisão domiciliar temporária de Bolsonaro. Ela não só liberava um pouco de vapor da panela de pressão em que se convertera o STF (ministros mais duros já estariam amolecendo) como criava oportunidade para ampliar as restrições impostas ao ex-presidente. Novo paradeiro, novas regras. E isso, convenhamos, era bastante oportuno. Além das visitas familiares, Bolsonaro tivera autorizadas 15 visitas de políticos no seu período em prisão.
 
Ora, para quem o quer fora do jogo, é altamente recomendável que ele não mantenha contato algum com pessoas desse ambiente. Está em curso a janela de transferência entre partidos e em tempos de organização de chapas majoritárias. Seguem-se a elaboração das listas proporcionais, as negociações que antecedem as convenções, etc. Quanto mais Bolsonaro estiver desaparecido ou dado por politicamente morto, melhor para o governo. Melhor, também, para os ministros e todos que ainda acreditam na narrativa do “funcionamento virtuoso das instituições” (credo!), mesmo que elas pareçam destroçadas por um inexorável vandalismo interno.


Leia mais  

POVO COMO PRETEXTO - 27.03.26


Por Alex Pipkin, PhD em Administração

 

Não há nação próspera sem disciplina fiscal, previsibilidade e respeito ao dinheiro extraído da sociedade. O crescimento sustentável definha onde o Estado gasta sem limites, tributa sem critérios e intervém sem medida. Tampouco há avanço onde a livre iniciativa é sufocada, o direito à propriedade é relativizado e a inovação não acontece pelo abusivo intervencionismo estatal.

A ironia trágica é que, em nome do povo, frequentemente se constrói o exato oposto daquilo que o beneficia. A inflação pune os mais pobres. A baixa produtividade os aprisiona, e a estagnação os condena. O discurso promete emancipação; a prática entrega dependência.

Mas a raiz da crise atual já não cabe nos manuais ideológicos. Ao longo das décadas, as doutrinas foram esvaziadas por dentro. O que testemunhamos hoje não é a aplicação coerente de ideias, mas a sua manipulação conveniente. Princípios viraram adorno. Conceitos, disfarce. Esquerda e direita passaram a compartilhar um traço perverso e mais profundo do que admitem; a substituição do propósito por interesses e, no limite, pelo próprio umbigo.

Os escândalos não são desvios de rota; são o próprio destino.

A política deixou de ser a disputa pela melhor forma de organizar a pólis. Tornou-se um sistema de autopreservação do poder. O resto é mera retórica.

O cidadão, nesse arranjo, não é destinatário; é argumento. Surge nos discursos com frequência litúrgica e desaparece das decisões com regularidade constrangedora. Não se governa para a realidade; (des)governa-se para a narrativa.

Não falta teoria. Falta caráter. A política não é vocação para o domínio, mas dever de serviço. Quando o poder se torna o fim e o cidadão se transforma em pretexto, nenhuma ideologia salva.

Resta apenas a repetição do mesmo erro, evidentemente com nomes diferentes, e exatamente o mesmo resultado.

Ou a política retorna ao seu único propósito legítimo, o de servir ao bem comum, ou continuaremos avançando, com convicção e discurso, rumo a um fundo do poço que não tem fundo.


Leia mais  

BALCÃO DE TOGAS - 24.03.26


Por Alex Pipkin -  PhD em Administração
 

O Brasil deixou de ser um país de cidadãos e se tornou um banquete de carcaças, onde o dono da casa assiste, pela fresta da porta, à prataria sendo derretida por convidados de capa e anel de doutor. 
Quando 60% de uma nação olha para o topo da pirâmide e não enxerga justiça, mas um entreposto de favores, percebido, na prática, como a atuação de uma legítima gangue, o contrato social não está apenas rasgado. Não, ele já não existe mais.
Não é teoria; são fatos e evidências.
O Estado continua exigindo tudo: imposto, obediência, submissão, independentemente da arbitrariedade, da promiscuidade institucional ou da ausência de justiça que entrega. O vínculo tornou-se unilateral. O cidadão permanece obrigado; o poder, não. 
Quando a obrigação só vale de um lado, não há contrato; há coerção e impunidade a serviço dessas relações promíscuas.
O dado não cria o problema. Apenas revela o conhecido padrão. O sistema deixou de proteger e passou a negociar sem constrangimento, de forma aberta, recorrente e, pior, estruturalmente promíscua.
A sujeira não está mais escondida; a gangue a tornou seu modo de ser. É o piso sobre o qual caminham decisões sob medida, conveniências travestidas de interpretação e uma Constituição convertida em instrumento elástico que expande para proteger aliados, contrai para sufocar quem desafia a engrenagem da maracutaia despudorada.
O STF deixou de ser percebido como guardião da lei e passou a operar, aos olhos do país, como mecanismo de autopreservação. Cada decisão hermética, cada seletividade evidente, cada blindagem recíproca não produz apenas discordância, mas corrosão.
Não corrói apenas a imagem, mas a vital confiança. E quando a confiança morre, não há mais instituição, sobra apenas a encenação organizada de poder usando toga para fingir legitimidade.
Aqui, a impunidade não é falha, é produto. É a consequência previsível de uma engenharia que garante que o risco não está no ato, mas na posição de quem o pratica.
O país entrou em exaustão moral. O cidadão já não espera justiça, ele calcula exposição. Já não confia, contorna. Já não respeita, tolera.
Pois quando a confiança colapsa, não há mais espaço para ajustes marginais. Impõe-se uma reconstrução institucional profunda, com a existência de mecanismos reais de responsabilização, transparência efetiva e limites claros ao exercício do poder, compulsoriamente de quem deveria ser seu guardião.
No Congresso, isso passa pelo único instrumento legítimo capaz de reorganizar o sistema. Pelo voto, porém, não como rito, mas como filtro.
No Judiciário, passa pela restauração de critérios, previsibilidade e limites que devolvam à instituição aquilo que ela perdeu: confiança.
A questão já não é quem terá coragem de enfrentar. É quem ainda finge não perceber que o que está de pé já não se sustenta, faz muito tempo.


Leia mais  

O NOME DA BARBÁRIE - 18.03.26


Por Alex Pipkin, PhD em Administração

 

Quem ainda preserva um neurônio funcional sente o ar rarefeito. 
Nós estamos vivendo o auge de um teatro do absurdo, onde a mídia dita "progressista" — do atraso — e sectários de umbigo próprio sequestraram o dicionário. 
Para essa turma, qualquer dissidência é carimbada como "extrema direita", enquanto a própria barbárie que eles alimentam é vendida como virtude sob um véu sujo de sangue.
O espetáculo é vil. O grito de ordem “Morte a Israel" deixou de ser um crime de ódio para virar "contexto" em universidades e redações. Não é metáfora; é o desejo explícito de extermínio percorrendo as ruas com a tranquilidade de quem carrega um selo invisível de legitimidade. 
É o antissemitismo saindo do armário com uma fúria global que faz ecoar os capítulos mais sombrios da história, talvez pior pelo escopo, agora blindado pelo aplauso de quem se diz "humanista".
Como podem, em nome do progresso, abraçar a teocracia iraniana? Um regime que oprime mulheres e financiou o massacre de 7 de outubro. Onde está a empatia pelos mais de 35 mil cidadãos iranianos assassinados pelo próprio Estado? A resposta é amarga. Para os fiéis do "ódio do bem", essas vidas não cabem na narrativa. O iraniano que busca liberdade e prosperidade é rechaçado por esse "clube do mal" porque comete o crime de querer dignidade em vez de ideologia.
Criou-se uma blindagem semântica onde o óbvio tornou-se controverso. Essa versão degenerada da política troca a realidade por utopias impossíveis, escolhendo quais cadáveres merecem luto e quais merecem o descarte. Enquanto bradam contra o fascismo, esses "ativistas de barro" beijam as mãos de quem aniquila direitos fundamentais.
O Irã é um país maravilhoso sequestrado por instituições corroídas, assim como o debate público foi sequestrado pelo cinismo de intelectuais de araque. 
A pergunta não é mais se esse movimento é extremista; isso já está escancarado. 
A pergunta que queima a garganta e exige honestidade é por quanto tempo o mundo vai fingir que essa força destruidora não tem nome?
É hora de arrancar as máscaras e batizar o monstro. Isso factualmente é a mais legítima, pura e cruel extrema-esquerda.
Quando eles serão classificados como merecem?


Leia mais  

O ESTADO A QUE CHEGAMOS - 16.03.26


Por Percival Puggina

 

Dezenas de milhões de brasileiros arrendaram a consciência ao senso moral do Estado, desse Estado a que chegamos. Exclamará o leitor: “Impressionante! E a que preço? Qual o valor desse arrendamento?”. Pois então: trata-se de mercadoria alienada a preço vil. A consciência desses cidadãos não vale um centavo mais do que o senso moral do Estado que tenham como senhor de seus bolsos e almas.
 
Se estas são palavras duras, a realidade que todos veem e sentem deveria cortar como lâminas do mais puro aço alemão a couraça de quantos não percebem a malignidade do patrão a que se submetem – o Estado que virou feitor da sociedade. Abriram mão da liberdade de pensar, malgrado os milhares de alertas com que Millôr Fernandes, ao longo dos anos, carimbava suas páginas afirmando que “Livre pensar é só pensar”. E ele não falava na liberdade do pensamento irrelevante, da coisa à toa, sem valor ético nem estético.
 
Para usar uma expressão da moda que não significa coisa alguma, a exemplo de tantos outros modismos como a estampa das meias, os cidadãos a que me refiro abriram mão de seu “lugar de fala”.  Como cidadãos, podem e devem falar, mas o Estado em que vivemos, esse Estado a que chegamos, esvaziou em sala de aula os pneus do pensamento, substituído por maus sentimentos contra qualquer um que ouse pensar fora da esparrela mental em que foram capturados. Só quem já observou a naturalidade com que vandalizam seus próprios ambientes e os assistiu, como que em matilha, expulsando deles, aos gritos de “Recua, fascista, recua!” quem tem a ousadia de pensar, sabe do que e de quem estou falando. E sabe quanto essa conduta faz lembrar um regimento da Hitlerjugend, a juventude hitlerista.
 
Sucessivas décadas de domínio esquerdista do ambiente educacional garantiu a esses moços a condição de face visível do Estado a que chegamos. Refiro-me a um Estado que considera totalmente ociosa a opinião pública. Em si e por si, ele detém o “notável saber”, sendo motivo de escândalo que alguém expresse um pensamento ou um argumento. Aliás, para esse Estado em que vivemos, o cidadão é, sobretudo, um chato, indesejável, de quem se espera e a quem se recomenda o silêncio eterno.
 
Quando se acumulam os escândalos, esse Estado a que chegamos investiga e inferniza a vida do denunciante. Ele interroga quem formula perguntas e se cobre de misteriosos segredos. Enquanto expõe quem incomoda, impõe sigilo sobre o incômodo que causou... Numa analogia bem gentil, faz lembrar aqueles mágicos de arrabalde que encobrem as mãos com um surrado pano preto antes de aparecer com algo já sabido entre os dedos inábeis.
 
Em outubro haverá eleições. É o último recurso disponível para nos resgatar dos abusos do Estado, desse deplorável Estado a que chegamos. Sigamos o bom ânimo inaciano que nos indica trabalhar como se fôssemos a democracia com que sonhamos e tudo dependesse de nós, mas vamos rezar colocando os resultados nas mãos de Deus.


Leia mais