Espaço Pensar +

UM ERRO PREVISÍVEL, MAS REINCIDENTE - 05.02.26


Compartilhe!           

Por Alex Pipkin, PhD em Administração

 

A corrupção no Brasil não é um acidente histórico nem um desvio ocasional.
Ela se impõe com a clareza de um raio de luz atravessando um céu limpo. Ainda assim, o país insiste em tratá-la como surpresa. Procrastina, relativiza, contorna, e, ao fazê-lo, transforma o previsível em rotina do atraso.
No setor privado, problemas graves não se resolvem empurrando-os para debaixo do tapete. Empresas que sobrevivem aprendem a antecipar falhas.
Uma das técnicas mais eficazes para isso é a Análise Pré-Mortem. Parte-se do fracasso como hipótese, simula-se o erro antes que ele aconteça e expõem-se as causas reais. Não se trata de pessimismo, mas de técnica e lucidez. Antecipar o desastre é a forma mais racional de evitá-lo.
Transportada para o setor público, essa lógica revela um contraste incômodo. No país, os pontos de falha são conhecidos de antemão. Entre esses, captura regulatória, promiscuidade entre poder político e grandes interesses econômicos, ausência de punição efetiva, instabilidade institucional permanente. Nada disso é invisível. O problema nunca foi diagnóstico; sempre foi decisão.
O país se especializou no ritual da reação tardia. Operações rumorosas, pacotes legislativos apressados, ciclos previsíveis de indignação. Produzem manchetes, mas, em terras verde-amarelas, raramente produzem aprendizado. Falta o passo essencial, o de usar o conhecimento acumulado para redesenhar incentivos e fechar as brechas antes que o sistema volte a falhar; como sempre volta.
A Lava Jato foi, com todos os seus limites, uma tentativa inédita de aplicar esse princípio. O objetivo era o de investigar causas estruturais, expor mecanismos, alterar expectativas. O que veio depois confirma a tese do pré-mortem às avessas. Em vez de corrigir as falhas reveladas, o sistema tratou de neutralizar quem as expôs. Quando a lição ameaça os donos do poder, o aprendizado é sufocado.
Há um agravante institucional. A cada quatro anos, mudam presidentes, ministros, cargos de confiança. Isso é próprio da democracia. O que não pode mudar é o compromisso técnico, a integridade dos processos e a memória institucional. Quando cada transição equivale, na prática, a um recomeço, institucionaliza-se a descontinuidade estrutural, sendo esse o terreno perfeito para a corrupção persistir.
Incentivos moldam comportamentos. Eles estão nas normas, nas práticas e nas leis. Se o sistema não funciona, o Legislativo deveria ter a obrigação de corrigi-lo. Se as regras são burladas, a punição precisa ser certa e exemplar. Sem isso, o recado é inequívoco conhecido e acionado. Ou seja, compensa violar.
O resultado é devastador. Um país de impostos escorchantes, serviços precários e cidadãos reduzidos a financiadores passivos de uma elite especializada em extrair renda.
Não é apenas ineficiência; é uma violação cotidiana da dignidade individual.
Países não são derrotados pelo que não enxergam, mas pelo que enxergam com nitidez e, ainda assim, toleram. Enquanto o Brasil adiar o enfrentamento das suas falhas previsíveis, o futuro deixará de ser promessa para se tornar apenas o lugar onde os mesmos erros voltam a nos esperar.
A corrupção brasileira não persiste por falta de diagnóstico, mas por escassez de coragem decisória.
Repito. O erro é previsível; a reincidência, uma escolha.
Um país que escolhe conviver com o erro deixa, lentamente, de ser uma nação, tornando-se apenas um sistema de repetição, que se alimenta da sociedade sem jamais servir a ela.