Espaço Pensar +

A ESTÉTICA DO NAUFRÁGIO - 12.03.26


Compartilhe!           

Por Alex Pipkin, PhD em Administração

 

O Brasil atual é uma alucinação semântica. Vivemos o triunfo do adjetivo sobre o fato, em que a incompetência bruta é maquiada com uma estética de necrotério.
Em qualquer organismo funcional, o resultado precede o verbo; por aqui, invertemos a lógica. A lógica petista é, por natureza, ilógica.
O fracasso é o dado concreto, e a narrativa é o anestésico. É o truque mais puído do estatismo de quermesse. Quando a entrega é raquítica, o palanque precisa ser monumental.
Prometeram-nos uma sinfonia de reconstrução, mas o que se ouve é o rangido de uma estrutura que volta a apodrecer. Um crescimento de 2% não é uma marcha épica; é o espasmo de um corpo em letargia, vendido à plateia como milagre.
Enquanto o governo se embriaga com a própria retórica, o agronegócio, nosso único músculo moderno, é tratado com a hostilidade de quem odeia a eficiência. A indústria, por sua vez, definha em um museu de nostalgias protecionistas, recuando décadas em produtividade enquanto o mundo corre para a inteligência artificial.
Nas contas públicas, o cinismo beira o lírico. O gasto é sagrado, a dívida é um detalhe e a responsabilidade fiscal foi rebaixada a uma “ofensa fiscal”.
Em qualquer conselho de administração, o uso de malabarismos para esconder rombos resultaria em demissão por justa causa; no teatro oficial, resulta em bônus para a claque. É o capitalismo de compadrio retornando ao palco, com mais apetite e menos pudor, reabilitando métodos que a memória brasileira carrega como cicatrizes abertas.
A vida real, entretanto, não lê o teleprompter. Ela acontece no caixa do supermercado, na conta de luz e na bomba de combustível. Ali, onde a aritmética é cruel e apolítica, o discurso da "pacificação" se revela o que sempre foi, uma farsa.
Não há união; há uma fadiga institucional saturada de conflito, onde a elite política divide os despojos enquanto o cidadão comum, exausto, financia o banquete.
O contraste com o passado é o golpe de misericórdia na nossa ingenuidade. O "monstro" anterior, descrito com todos os epítetos do dicionário autoritário, não institucionalizou o retrocesso ético com tamanha naturalidade.
Hoje, a promiscuidade entre o poder e o capital voltou a ser o oxigênio de Brasília, e o escândalo é apenas um ruído de fundo na festa dos eleitos.
Prosperidade não nasce de slogans morais. Nasce de resultado. Sem entrega, a eloquência é apenas o barulho de um navio que aderna enquanto a orquestra toca em tom maior.
O banquete da retórica acabou, embora os “progressistas do atraso” não queiram perceber.
Resta saber quem terá estômago para a conta da realidade. No final, a lógica “lógica”, a verdade, sempre apresenta a fatura. Essa não aceita metáforas como pagamento. Definitivamente, não.