Por Alex Pipkin, PhD em Administração e Consultor Empresarial
Prefiro o sincericídio ao alinhamento servil. Sempre preferi.
Mas confesso que a capacidade brasileira de transformar dependência em justiça social desafia até meu conhecido pessimismo.
Há exatos 180 anos, em 16 de outubro de 1846, William Morton demonstrou publicamente o poder anestésico do éter.
Um paciente foi operado sem sentir dor. A medicina celebrava uma conquista extraordinária. A anestesia, entretanto, não curava a doença. Apenas permitia operar sem sofrimento.
O lulopetismo em fim de feira descobriu outra utilidade para o éter. A eleitoral.
Com as contas públicas asfixiadas, o desgoverno abre sua farmácia de bondades. Perdão de dívidas para microempreendedores, transporte gratuito, benefícios ampliados.
A Brasília vermelha distribui receitas de felicidade com a desenvoltura de quem jamais precisará abrir a própria carteira.
O detalhe grotesco é que não existe almoço grátis. Muito menos anestesia.
A conta chega nos impostos, nos juros escorchantes, no supermercado, na bomba de combustível. O trabalhador paga pelo espetáculo e ainda precisa agradecer ao patrocinador da própria anestesia. É exatamente isso.
Enquanto isso, a militância de estimação, o funcionalismo aparelhado e a burguesia culpada continuam ajoelhados diante do semideus de barro. A juventude ideologizada repete a cartilha. O vulnerável recebe outra dose.
Vinte anos da mesma ladainha. Agora, finalmente, o pobre será salvo. Claro, é sempre assim.
Assistência a quem precisa é obrigação de uma sociedade decente. Transformar necessidade em fidelidade política é outra coisa. É administrar a pobreza como patrimônio eleitoral; cabresto e curral.
A anatomia da imbecilidade está nessa inversão. O cidadão confunde alívio com cura, dependência com emancipação e generosidade estatal com dinheiro sem dono. Ele não reconhece que o dinheiro é seu.
No Brasil, o paciente agradece pela anestesia, defende o médico e ainda acusa de crueldade quem lhe mostra a conta.
Em 25 de outubro, saberemos se o eleitor pretende acordar.
Ou se prefere continuar pagando pelo éter enquanto lhe amputam a autonomia.
Minha confissão novamente: estou muito esperançoso.