Espaço Pensar +

COMEÇARAM O FILME DEPOIS - 07.10.26


Compartilhe!           

Por Alex Pipkin, PhD em Administração e Consultor Empresarial

 

Quem me lê sabe que prefiro escrever sobre liberdade, escolhas, mercados, Adam Smith. Há, porém, dias em que o meu assunto me escolhe.
Hoje é um deles.
Escrevo como judeu.
Escrevo porque hoje é 7 de outubro. Em memória das crianças, dos jovens, das mulheres, dos homens e dos velhos assassinados naquele dia. Escrevo porque, três anos depois, quando o antissemitismo volta às ruas, às universidades e às redes com uma desenvoltura que imaginávamos enterrada pela História, calar seria escolher o conforto errado.
Este texto é homenagem. É também desabafo.
Há três anos, terroristas atravessaram a fronteira de Israel para barbarizar e matar. Não para negociar território ou apresentar uma proposta de paz. Entraram em casas, massacraram famílias, assassinaram jovens, sequestraram civis e levaram reféns para Gaza.
Depois, alguns telefonaram para casa para contar o que haviam feito.
A guerra começou ali.
Mas encontraram uma maneira extraordinariamente eficiente de reescrevê-la.
Começaram o filme depois.
Retira-se o 7 de outubro, entra Gaza, desaparece o agressor e permanece somente a reação. Some a causa, exibe-se a consequência, e a cronologia, quando atrapalha a narrativa, sofre um pequeno acidente editorial.
Mas existe um detalhe ainda mais incômodo. Parte do mundo não esperou Gaza para mostrar o que pensava. Enquanto Israel ainda recolhia seus mortos, houve quem celebrasse a carnificina como resistência.
O antissemitismo não nasceu da resposta israelense. Em muitos lugares, apenas encontrou nela uma justificativa posterior.
Chegam também os filmes que nos fazem chorar. Crianças palestinas mortas rasgam o coração. Devem rasgar. A morte de uma criança não precisa de nacionalidade para ser intolerável. A voz de Hind Rajab comove porque ainda somos humanos.
Justamente por isso precisamos assistir à película inteira.
Nela há uma verdade constrangedora para quem diz defender os palestinos. O 7 de outubro foi uma tragédia para Israel e uma catástrofe também para Gaza. O Hamas não roubou apenas vidas israelenses. Ao escolher o massacre, roubou dos palestinos casas, famílias, anos de vida e um futuro melhor.
Reconhecer isso não diminui em uma lágrima o sofrimento palestino. Apenas devolve autoria às consequências.
Pode-se discutir cada decisão israelense, cada operação militar, cada excesso comprovado. O que não se pode fazer é começar a história na resposta e transformar quem respondeu na origem da história.
Com os judeus, essa montagem é antiga.
Durante séculos fomos o bode expiatório disponível. Mudaram os governos, as ideologias, as acusações e os uniformes. Seis milhões de judeus foram assassinados no Holocausto. Depois veio o “Nunca Mais”.
Durou menos do que imaginávamos.
Hoje, combater discriminação parece obrigação moral até que o discriminado seja judeu. Então chegam as ressalvas, as equivalências e uma pergunta que nenhuma outra minoria deveria responder antes de merecer solidariedade.
O que Israel fez?
O 7 de outubro revelou algo que ainda relutamos em admitir. O antissemitismo não desapareceu depois de Auschwitz. Aprendeu a trocar o judeu pelo sionista, o preconceito pela causa e o ódio pela virtude.
Não é preciso declarar que se odeiam judeus.
Basta mutilar a linha do tempo até que o judeu volte a parecer culpado pela violência que sofreu.
Hoje é 7 de outubro.
Não peço que esqueçam uma única criança palestina.
Peço apenas que, em memória dos mortos e em respeito aos vivos, devolvam ao filme a cena que cortaram.
Am Israel Chai.