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A IGNORÂNCIA CONSENSUAL - 12.08.2026


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Por Alex Pipkin

 

Durante séculos, ser ignorante tinha uma explicação simples. Faltavam livros, escolas e acesso. Resolvemos boa parte disso, mas a ignorância não desapareceu. Pelo contrário. Ela se tornou mais sofisticada.

Nunca uma geração teve tanto conhecimento ao alcance das mãos. Em segundos, podemos confrontar teses, ler o contraditório, conhecer outras culturas, revisitar a história e, quem sabe, desarmar alguns dos nossos próprios preconceitos.

E o que fizemos com esse privilégio?

Refinamos a arte de filtrar o mundo.

Há algo além do velho viés de confirmação. Estamos aprendendo a ignorar em grupo. A isso chamo de ignorância consensual.

Incomoda-me ver o conhecimento reduzido a munição de trincheira. Usamos a história como estoque de pretextos, a sociologia como manual de condenação do vizinho e a psicologia como habeas corpus para nossos próprios vícios. É quase o avesso do conhecimento.

A sociologia deveria nos ajudar a compreender como convivemos. A antropologia, a descobrir o outro, a reciprocidade e culturas que não cabem na nossa. A psicologia, a desconfiar dos mecanismos escondidos atrás das nossas certezas. E a história deveria nos impor uma saudável humilhação. O mundo não começou conosco.

O conhecimento deveria aumentar nossa capacidade de duvidar de nós mesmos. Fizemos o contrário. Passamos a usá-lo para sofisticar nossas certezas.

Não acredito na fantasia da neutralidade intelectual. Todos temos convicções. Eu tenho as minhas.

O problema não é olhar o mundo através de uma lente. É retocar os fatos até que combinem com a armação. Uma convicção decente precisa sobreviver à realidade, não escolher qual realidade merece existir.

As redes sociais transformaram isso numa indústria. Encontramos milhares de pessoas repetindo o que pensamos e confundimos repetição com evidência, pertencimento com argumento e maioria na nossa bolha com verdade.

Não encontramos a verdade. Encontramos gente suficiente para não precisar procurá-la.

Pensar por conta própria deixou de ser apenas um exercício de inteligência. Tornou-se um teste de resistência à solidão. Discordar da própria turma custa mais do que atacar a turma adversária.

Por isso, conhecimento sem coragem intelectual vale pouco.

Conhecer de verdade exige ler quem nos incomoda, procurar o argumento capaz de demolir o nosso e admitir, sem drama, quando o “adversário” tem razão.

A ignorância mais perigosa já não é a de quem nunca entrou numa biblioteca.

É a de quem percorreu todas as estantes e voltou carregando apenas os livros que lhe deram razão.

Chamamos isso de informação.

O nome correto é ignorância consensual.

O ignorante de ontem desconhecia o mundo. O de hoje aprendeu a montá-lo para que sempre lhe dê razão.