Por Alex Pipkin
Durante séculos, ser ignorante tinha uma explicação simples. Faltavam livros, escolas e acesso. Resolvemos boa parte disso, mas a ignorância não desapareceu. Pelo contrário. Ela se tornou mais sofisticada.
Nunca uma geração teve tanto conhecimento ao alcance das mãos. Em segundos, podemos confrontar teses, ler o contraditório, conhecer outras culturas, revisitar a história e, quem sabe, desarmar alguns dos nossos próprios preconceitos.
E o que fizemos com esse privilégio?
Refinamos a arte de filtrar o mundo.
Há algo além do velho viés de confirmação. Estamos aprendendo a ignorar em grupo. A isso chamo de ignorância consensual.
Incomoda-me ver o conhecimento reduzido a munição de trincheira. Usamos a história como estoque de pretextos, a sociologia como manual de condenação do vizinho e a psicologia como habeas corpus para nossos próprios vícios. É quase o avesso do conhecimento.
A sociologia deveria nos ajudar a compreender como convivemos. A antropologia, a descobrir o outro, a reciprocidade e culturas que não cabem na nossa. A psicologia, a desconfiar dos mecanismos escondidos atrás das nossas certezas. E a história deveria nos impor uma saudável humilhação. O mundo não começou conosco.
O conhecimento deveria aumentar nossa capacidade de duvidar de nós mesmos. Fizemos o contrário. Passamos a usá-lo para sofisticar nossas certezas.
Não acredito na fantasia da neutralidade intelectual. Todos temos convicções. Eu tenho as minhas.
O problema não é olhar o mundo através de uma lente. É retocar os fatos até que combinem com a armação. Uma convicção decente precisa sobreviver à realidade, não escolher qual realidade merece existir.
As redes sociais transformaram isso numa indústria. Encontramos milhares de pessoas repetindo o que pensamos e confundimos repetição com evidência, pertencimento com argumento e maioria na nossa bolha com verdade.
Não encontramos a verdade. Encontramos gente suficiente para não precisar procurá-la.
Pensar por conta própria deixou de ser apenas um exercício de inteligência. Tornou-se um teste de resistência à solidão. Discordar da própria turma custa mais do que atacar a turma adversária.
Por isso, conhecimento sem coragem intelectual vale pouco.
Conhecer de verdade exige ler quem nos incomoda, procurar o argumento capaz de demolir o nosso e admitir, sem drama, quando o “adversário” tem razão.
A ignorância mais perigosa já não é a de quem nunca entrou numa biblioteca.
É a de quem percorreu todas as estantes e voltou carregando apenas os livros que lhe deram razão.
Chamamos isso de informação.
O nome correto é ignorância consensual.
O ignorante de ontem desconhecia o mundo. O de hoje aprendeu a montá-lo para que sempre lhe dê razão.