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ESTELIONATO DA CLEMÊNCIA - 13.05.26


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Por Alex Pipkin, PhD em Administração

 

A revogação da chamada “taxa das blusinhas” será lembrada menos pelo impacto econômico e muito mais pelo simbolismo político que carrega. 
Em poucos meses, ela resumiu com perfeição a lógica do populismo brasileiro contemporâneo. O Estado cria o sufocamento e depois se apresenta como salvador ao aliviar parte da própria asfixia que produziu.
Não houve convicção econômica na criação da taxa; tampouco há coerência econômica em sua retirada. O óbvio “lulante”. Há apenas o frio cálculo político de sobrevivência.
O governo descobriu uma verdade inconveniente. Taxar diretamente o consumo popular produz revolta imediata. Já destruir silenciosamente o ambiente de negócios raramente mobiliza multidões. O primeiro gera indignação instantânea nas redes sociais; o segundo produz uma decadência gradual, silenciosa e quase invisível ao debate público. No Brasil, a ruína em doses homeopáticas raramente se converte em manchete.
Revoga-se o sintoma. A doença, contudo, permanece intacta.
O empreendedor brasileiro continua esmagado por um manicômio regulatório, pela insegurança jurídica, pelo excesso tributário e por um Estado que interfere em tudo. Interfere no investimento, na contratação e na inovação, transformando a autonomia econômica em uma concessão precária. O Brasil tornou-se um país onde produzir exige algo próximo do heroísmo e investir se transformou em um exercício de resiliência psicológica.
Enquanto isso, o governo tenta vender a dependência como se fosse uma benfeitoria cívica. Confisca prosperidade pela via tributária, devolve fragmentos dela sob a forma de benefícios oficiais e ainda espera a veneração pública por uma generosidade financiada pelo sangue e suor do próprio contribuinte.
É a versão tropical da política do incêndio. O Estado ateia fogo ao edifício econômico e depois distribui baldes d’água em cadeia nacional, exigindo nobre reconhecimento pelo esforço.
Governos populistas raramente eliminam a pobreza estrutural; preferem administrá-la eleitoralmente. A miséria resolvida emancipa o indivíduo; a dependência recorrente fideliza o eleitor.
Por isso, essa taxa é apenas um detalhe pitoresco de um problema muito maior e mais grave.
O verdadeiro imposto que sufoca o Brasil não está numa compra internacional de baixo valor.
Está no peso de um Estado que perdeu a noção dos próprios limites; um Leviatã que já não deseja apenas arrecadar riqueza, mas condicionar comportamentos e transformar a liberdade em uma benesse revogável do poder político.