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LULA NA ONU: QUANDO A DIPLOMACIA VIRA PALANQUE - 24.09.26


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Dando sequência a vozes -em forma de textos-, que explicam a situação do nosso país, eis aí o artigo do jornalista e escritor Fábio Paiva.

 

Durante décadas, o Brasil cultivou a ambição de ser muito mais do que uma potência regional. O tamanho de sua economia, a dimensão territorial, a população, os recursos naturais e uma tradição diplomática construída pelo Itamaraty deram ao país condições de participar das grandes discussões internacionais.

Por isso, a Assembleia Geral das Nações Unidas deveria ser uma das maiores vitrines diplomáticas brasileiras. Durante alguns dias, Nova York concentra chefes de Estado, ministros, investidores, empresários e representantes das principais economias do planeta. É uma oportunidade rara para defender posições políticas, mas também para abrir mercados, atrair investimentos e construir relações.

Foi nesse cenário que o presidente LULA desembarcou em Nova York acompanhado por uma comitiva de pelo menos 73 pessoas nominalmente autorizadas a viajar durante o período da Assembleia e de eventos paralelos.

Uma delegação numerosa não seria, por si só, motivo de crítica se viesse acompanhada de uma agenda presidencial proporcional à importância econômica e diplomática do Brasil. Mas chama atenção aquilo que não apareceu na programação pública de Lula: não foi divulgada uma única reunião presidencial com empresários ou investidores. Em Nova York. Um dos maiores centros financeiros do planeta.

Enquanto isso, a agenda política teve escolhas bastante definidas. Lula encontrou-se com o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, com o senador Bernie Sanders e com o presidente uruguaio Yamandú Orsi.

É legítimo que um presidente escolha seus interlocutores. Também é legítimo perguntar quais interesses nacionais orientam essas escolhas.

Principalmente porque Lula recebeu cerca de 30 solicitações de encontros e manteve uma agenda bilateral bastante reduzida.

O Brasil precisa de investimentos. Precisa ampliar mercados. Precisa aumentar sua competitividade, gerar empregos, atrair capital e conquistar espaço no comércio internacional. Quando dezenas de líderes mundiais estão reunidos na mesma cidade, cada hora da agenda presidencial representa uma oportunidade diplomática.

Mas existe uma questão ainda maior.

O Brasil está perdendo relevância internacional?

A resposta não pode ser dada apenas pelo número de reuniões realizadas em uma viagem. O Brasil continua presente no G20, nos BRICS e nas Nações Unidas, participa das discussões sobre clima e reforma da governança global e mantém relações com todas as grandes potências. Lula, inclusive, assinou nesta semana, juntamente com líderes do Conselho Europeu, Canadá e Quênia, uma iniciativa internacional em defesa do multilateralismo.

Portanto, isolamento seria uma palavra inadequada.

Influência, porém, é outra coisa.

Um país pode estar presente em todos os fóruns e ainda assim ter dificuldade para transformar presença em capacidade efetiva de interferir nas grandes decisões internacionais.

E talvez seja aí que esteja o problema brasileiro.

Num mundo em rápida reorganização, as grandes potências disputam tecnologia, energia, comércio, inteligência artificial, segurança e áreas de influência. Estados Unidos e China negociam diretamente. Europa tenta reconstruir seu espaço. Rússia continua sendo protagonista inevitável na guerra da Ucrânia. Índia amplia seu peso econômico e estratégico.

Onde está o Brasil nessa nova arquitetura mundial?

Na Assembleia deste ano, enquanto algumas das principais articulações internacionais aconteciam em torno dos grandes conflitos e da relação entre Washington e Pequim, o presidente brasileiro utilizou parte importante de seu discurso para tratar de temas diretamente relacionados à disputa eleitoral brasileira. Lula advertiu contra interferências estrangeiras nas eleições de outubro, falou em “inimigos internos e externos da democracia” e declarou que o Brasil “não cabe no quintal de ninguém”. A proximidade da eleição brasileira tornou evidente a dimensão doméstica dessa mensagem.

É legítimo defender a soberania nacional.

A pergunta é se o principal púlpito diplomático do mundo deveria servir também como extensão da campanha eleitoral brasileira.

A política externa de um país não deveria mudar de identidade a cada governo. Presidentes passam. Interesses nacionais permanecem.

E essa diferença parece cada vez mais difícil de enxergar.

Até a roupa da primeira-dama carregava uma mensagem política.

Janja compareceu à Assembleia usando, pelo terceiro ano consecutivo, um casaco com o tradicional bordado palestino tatreez, presente da Embaixada da Palestina. A própria primeira-dama já explicou publicamente o simbolismo político da peça.

Não se discute aqui seu direito de manifestar solidariedade ao povo palestino. A questão é outra: em diplomacia, símbolos também falam.

Quando a primeira-dama acompanha oficialmente o presidente da República na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, sua presença deixa de ser exclusivamente privada. A escolha de uma peça explicitamente associada a uma causa envolvida em um dos conflitos mais sensíveis do planeta transmite uma mensagem.

E ela coincide com uma política externa que tem dedicado enorme espaço à guerra no Oriente Médio.

Lula voltou a condenar duramente as ações do governo israelense. Para registrar o quadro completo, também condenou os ataques terroristas do Hamas e defendeu a solução de dois Estados.

O problema não está em condenar Israel, defender palestinos ou criticar os Estados Unidos.

O problema aparece quando a política externa começa a transmitir a impressão de possuir pesos diferentes conforme o governo envolvido.

O Brasil construiu durante décadas uma tradição diplomática baseada justamente na capacidade de conversar com adversários. O Itamaraty ganhou respeito porque mantinha canais onde outros países fechavam portas.

Essa tradição não exige silêncio diante de violações de direitos humanos. Exige coerência.

Um país que pretende exercer influência precisa conseguir conversar com Washington e Pequim, Israel e Palestina, governos conservadores e governos de esquerda.

Diplomacia não deveria funcionar como um encontro entre amigos ideológicos.

É defesa de interesses nacionais.

E talvez seja justamente aí que esteja o risco de perda de relevância brasileira.

Não porque o Brasil tenha deixado de ser importante. Seria absurdo afirmar isso. Somos uma das maiores economias do planeta, uma potência agrícola, energética e ambiental, integrantes do G20 e dos BRICS e donos de uma das maiores reservas de recursos naturais do mundo.

O paradoxo é exatamente esse.

O Brasil continua grande. A dúvida é se sua influência acompanha o seu tamanho.

Uma comitiva de pelo menos 73 pessoas foi mobilizada para Nova York. Não apareceu na agenda presidencial divulgada uma reunião com empresários ou investidores. Cerca de 30 pedidos de encontros teriam chegado ao governo, enquanto a programação bilateral permaneceu limitada. Parte do discurso presidencial voltou-se para a disputa política doméstica. E até a primeira-dama levou ao plenário uma simbologia relacionada a uma das questões geopolíticas mais divisivas do momento.

Cada um desses episódios, isoladamente, pode ter explicação.

Juntos, porém, permitem uma discussão que o Brasil deveria fazer.

Política externa existe para projetar o país ou para projetar o governo?

O Brasil não precisa ser aliado automático dos Estados Unidos. Tampouco precisa hostilizar China, Rússia ou qualquer outra potência para agradar Washington. Precisa conversar com todos.

Precisa vender.

Precisa comprar.

Precisa atrair investimentos.

Precisa defender empresas brasileiras.

Precisa abrir mercados.

Precisa participar das decisões.

E, acima de tudo, precisa ser ouvido.

Porque talvez o maior perigo para uma potência como o Brasil não seja ter adversários.

É descobrir que, enquanto o mundo decide seus rumos, sua voz já não pesa como poderia.