Por Alex Pipkin, PhD em Administração
Poucos personagens atravessaram o tempo com tanta elegância quanto Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Um exibia a respeitabilidade das boas maneiras; o outro revelava aquilo que as etiquetas escondiam. A diferença é que, na vida real, ambos cansaram da literatura e resolveram trabalhar na mesma redação.
Num editorial, derramam-se lágrimas pelo avanço do crime organizado, denuncia-se a infiltração das facções na economia e manifesta-se virtuosa preocupação com a erosão das instituições. No seguinte, celebra-se o gigantismo do Estado, romantizam-se burocracias cada vez menos sujeitas a controles, relativizam-se alianças politicamente convenientes e qualquer tentativa de impor limites ao poder passa a ser rotulada como ameaça à democracia.
É uma sofisticada linha de montagem de perplexidades.
Primeiro, naturalizam-se os cupins que corroem os freios institucionais. Depois, publicam-se editoriais indignados, perguntando por que o teto desabou.
O editorial de O Globo sobre as sanções americanas contra brasileiros oferece um exemplo inquestionável dessa engenharia intelectual. A preocupação com eventuais arbitrariedades merece respeito. O que causa espécie é a própria perplexidade. De onde imaginavam que surgiria a promiscuidade entre organizações criminosas, interesses econômicos e estruturas públicas? Do acaso? Da geração espontânea?
Durante anos, confundiu-se a defesa das instituições com a defesa de seus ocupantes; princípios passaram a variar conforme a conveniência do momento, e a coerência transformou-se em artigo de luxo.
Instituições não apodrecem por geração espontânea. Apodrecem quando a complacência deixa de ser exceção e passa a ser a estratégia.
Há muito tempo, parte da imprensa trocou o desconfortável dever de vigiar o poder pela confortável tarefa de administrá-lo moralmente. Os fatos passaram a valer menos do que a identidade de seus protagonistas; a régua estica ou encolhe conforme o acusado; o que ontem era um escândalo intolerável transforma-se, no dia seguinte, em detalhe irrelevante, desde que o personagem seja o “correto”.
Quando a coerência se torna seletiva, a credibilidade não desaba. Evapora, editorial após editorial, até que já ninguém consiga distinguir jornalismo de ativismo bem-redigido.
Depois aparecem os editoriais perplexos.
Como se a realidade tivesse a obrigação de bater continência para as narrativas.
Narrativas administram reputações na bolha. A realidade administra consequências no chão de fábrica.
O azar dos fabricantes de perplexidades é que a realidade não frequenta redações.
Ela frequenta os fatos.
O general Sérgio Etchegoyen, ex-ministro-chefe do GSI, deu seu parecer sobre as urnas eletrônicas:
“Eu faço sempre uma analogia: imagine se eu tivesse um banco e dissesse assim: “Eu tenho o melhor modelo, o melhor rendimento, mais fácil de lidar, mas no sistema tem uma segurança tão boa que eu não preciso lhe dar o extrato mensal, não precisa ter extrato, basta confiar no saldo que está na tela, não precisa porque nós somos muito bons.” Quem abriria conta nele? Não é uma questão de desconfiar. É uma necessidade que eu acho que existe na administração pública de confirmar o que está fazendo..”
https://x.com/iane_menezes/status/2090421728727994711?s=48&t=ts1jB9lmdeJTGP2XMTGjXw