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AH, AS PESQUISAS (DE NOVO) - 15.09.22


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Por Guilherme Baumhardt
    
Algo de errado não está certo. Em um intervalo de dez dias, os resultados apurados em pesquisas de intenção de voto para a Presidência da República mostram que o eleitor brasileiro tem um comportamento que beira a esquizofrenia. É isso. Ou tem gente que não está fazendo o seu trabalho direito, porque é humanamente impossível que todas estejam, ao mesmo tempo, corretas.

 

Há levantamento que mostra o atual presidente e candidato à reeleição, Jair Bolsonaro, à frente, em condição de empate técnico, dentro da margem de erro, com Lula. Outros colocam o ex-encarcerado liderando, mas com Bolsonaro empatado, em função da margem. E há um instituto que conseguiu encontrar quinze (sim, quinze!) pontos percentuais de diferença entre os dois – com Lula à frente. Detalhe: apurou isso após as gigantes manifestações do 7 de Setembro. Haja coragem.

 

Alguns podem dizer que manifestação de rua não é pesquisa eleitoral. E quem disser isso tem absoluta razão. Não há ali metodologia científica. Existem bolhas, comportamentos ou efeitos do tipo manada, grupos que são mais mobilizados do que outros. Mas quando você começa a juntar as peças do quebra-cabeças e elas não encaixam, suspeitar que há algo fedorento no ar passa a ser uma obrigação.

 

Anos atrás, em Copacabana, aconteceu a Parada Gay. A estimativa de público na época foi de 600 mil pessoas. Nas manifestações do 7 de Setembro, segundo dados divulgados pelo mesmo portal de notícias, não havia mais do que 70 mil pessoas. As fotos falam por si. Na Parada Gay havia, sim, bastante gente. Mas nada (nada!) comparado ao que ocorreu no feriado da semana passada.

 

Mesmo levando em consideração que pesquisa é retrato de momento e que as coisas podem mudar de um dia para o outro, diante de resultados tão díspares (como os mencionados na abertura da coluna) e em tão curto espaço de tempo, é quase uma obrigação alimentar não uma pulga, mas sim uma colônia de pulgas atrás das orelhas – as duas.

 

Um instituto de pesquisa precisa ter como seu principal ativo a credibilidade. Uma empresa que erra sistematicamente deveria estar naturalmente fora do mercado. Não por força de lei, mas por falta de competência. E, curiosamente, empresas que erraram (e bastante) nos últimos anos continuam sendo contratadas, não apenas por partidos políticos, mas por veículos de comunicação. Por quê?

 

Deixemos as eleições de lado por um breve instante. Eu sou dono de uma empresa e quero lançar um novo produto no mercado. Minha intenção é aumentar as chances de sucesso. Um dos caminhos para isso é fazer uma boa pesquisa. É investimento. Se pretendo reduzir o erro, eu contrato quem acerta ou quem erra? Dito isso, é inacreditável que a gente veja o que ocorre hoje quando o assunto é a disputa pelo Palácio do Planalto, ou até mesmo em levantamentos regionais.

 

Peço desculpas se volto ao assunto. Mas tenho a sensação de que nesta eleição existem grandes chances de testemunharmos o ocaso (ou a consagração, vá lá) de algumas das empresas que realizam pesquisas de intenção de voto. Eu seria irresponsável se cravasse aqui o resultado da eleição. Não tenho instrumentos para isso, não sou dono de instituto de pesquisa e tampouco tenho bola de cristal. Mas tenho experiência e estrada. E elas me ensinaram que a gente deve duvidar de certas coisas. E que uma boa dose de cautela é bem-vinda em momentos assim. Voltamos a conversar sobre isso após o dia 2 de outubro. E aí decidiremos se compramos troféus (aos que acertam) e se uma imensa lata de lixo (para quem achou que éramos otários).