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A Pandemia e a Indústria 4.0 – Seriam os Despertadores de nossas Habilidades? - 23.06.2020


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A história nos revela que três eventos trazem grandes mudanças na sociedade: guerra, revolução e epidemias. São eventos que tendem a acelerar transformações já em curso.

Este é um momento ímpar, no qual estamos vivenciando dois destes três eventos a pandemia do novo coronavírus, que nos pegou de surpresa, e a chamada quarta revolução industrial (I4.0).

 

Em um momento da história em que uma nova sociedade está sendo construída na qual, pelo menos na teoria, busca-se mais ética, mais empatia, mais respeito ao meio ambiente, aos animais, à sociedade e ao planeta, qual seria o ponto comum em que nos encontramos nesta intersecção pandemia e quarta revolução industrial?

Quem sabe a palavra que melhor traduza nossos sentimentos seja VULNERABILIDADE.

 

Em princípio, sentir-se vulnerável não é algo bom, mas pode nos trazer benefícios.

Por exemplo, uma pandemia nos faz sentir vulneráveis e tomar ações rápidas, já que temos como instinto a preservação de nossas vidas quando nos sentimos ameaçados.

 

Ao mesmo tempo, muitos de nós estamos nos sentindo vulneráveis em meio à revolução em curso da I 4.0, que tende a exigir mudanças no perfil profissional, mas por encararmos esse evento como uma "ameaça" lenta e gradual, não nos desperta o senso de urgência, o que pode ser uma armadilha para nossa tendência de postergar mudanças.

É fato conhecido que mudança não é o ponto forte da maioria dos seres humanos.

 

No Brasil, onde a I 4.0 caminha a passos lentos, a “ameaça” ainda é vista como lenta e gradual. Segundo pesquisa FIESP/SENAI de 2018, somente 30% dos entrevistados deram início ao processo da revolução 4.0, e com investimentos muito inferiores aos praticados no exterior.

No entanto, especialistas apontam que este é um caminho irreversível se a indústria brasileira quiser se manter no ranking das dez maiores do mundo.

 

Nesse sentido, podemos afirmar sem dúvida alguma que a pandemia nos retirou da zona de conforto, mas ao mesmo tempo, pode nos impulsionar a realizar as mudanças necessárias para que nas próximas décadas possamos sobreviver ao novo mercado de trabalho que se desenha.

 

Um exemplo concreto dessa mudança para a sobrevivência foi a necessidade de se implementar o trabalho remoto emergencial durante a pandemia, que tende a ter impactos irreversíveis, já que algumas organizações pretendem tornar essa prática permanente para algumas funções após a pandemia.

 

No entanto, um levantamento realizado pela VitalSmarts e publicado na rede profissional LinkedIn em 22/4 aponta que 1 em cada 5 líderes não sabe liderar suas equipes em home office.

A questão é: como encorajar os líderes a revisar seus processos internos e a compreenderem que a tecnologia é, cada vez mais, um ativo humano?

 

Segundo o estudo “Tendências de Marketing e Tecnologia de 2020: Humanidade Redefinida e os Novos Negócios” do professor André Miceli da FGV, "quanto mais a tecnologia avança, mais as características humanas tendem a sobressair.”

 

Embora os preceitos básicos da I4.0 impliquem em conectar máquinas e sistemas para a criação de redes inteligentes de produção quase totalmente autônomas, com o uso cada vez mais frequente da inteligência artificial, não há como desvincular o desenvolvimento destas tecnologias com profissionais capazes de lidar com a inovação, com novos desafios e com constante capacidade de aprendizagem.

 

Saber compreender, processar e gerenciar as emoções oriundas de ambiente tão variável será de extrema importância e é algo conhecido como Inteligência Emocional.

Segundo a Sociedade Brasileira de Coaching, a Inteligência emocional é um conceito relacionado com a chamada “inteligência social”, criada por Daniel Goleman.

 

Uma das grandes vantagens das pessoas com inteligência emocional é a capacidade de se automotivar e seguir em frente, mesmo diante de frustrações e desilusões. São pessoas que conseguem controlar impulsos e canalizar emoções para situações adequadas.

 

A inteligência emocional é considerada um conjunto de competências como, por exemplo, as soft skills, que quando desenvolvidas e aprimoradas se tornam grandes aliadas no processo de desenvolvimento do indivíduo, seja pessoal ou profissional. A inteligência emocional, entre outros, melhora a avaliação de determinada situação, proporciona gerenciar os imprevistos com maior sabedoria e lidar com mais tranquilidade com mudanças repentinas no cotidiano.

 

Aqueles que já experimentaram desenvolver suas atividades especialmente em grandes empresas sabem que não há como desvincular o desenvolvimento tecnológico do desenvolvimento pessoal. Mesmo em empresas muito desenvolvidas tecnologicamente, o clima organizacional é fator preponderante para seu sucesso, no sentido de reter seus talentos e promover a motivação de seus colaboradores sempre em busca de melhores resultados.

 

Os estudiosos da natureza humana apontam que a incerteza é o grande problema do mundo moderno e não há como não relacionar a evolução da inteligência artificial com a atmosfera de incerteza que ela promove entre os colaboradores de “carne e osso”. Evidente que este novo futuro exigirá nossa parcela de contribuição e que nem todos irão sobreviver, mas não enxergar que as duas coisas andam de mãos dadas é quase cometer um suicídio empresarial.

 

Assim, vivenciar o momento de uma pandemia repentina pode nos servir como um despertador para uma lição de casa que muito de nós vem postergando, que é nosso desenvolvimento emocional e intelectual para que possamos ser profissionais preparados para atender as exigências do ambiente da quarta revolução industrial.

 

A pandemia nos expõe à realidade de que mudanças significativas podem ocorrer a qualquer momento, exigindo de nós habilidades que talvez não estejam tão bem desenvolvidas e, muitas vezes, nos obrigando a nos reinventarmos pessoal e profissionalmente.

 

Dentro da nova concepção de profissionais aptos a desempenharem suas funções no contexto da indústria 4.0, podemos citar como características a capacidade de se adaptar às mudanças, a novos contextos e de inovar. Os perfis também deverão ser mais flexíveis e multidisciplinares e a capacidade de comunicação com seus pares será algo essencial. Tudo isto para que saibam como operar os novos sistemas e técnicas de produção.

 

Portanto, aproveitar o atual momento onde nos sentimos tão vulneráveis pode nos trazer a reflexão de que o futuro talvez esteja mais próximo do que imaginamos e que a preparação deve ser iniciada imediatamente, com o enfrentamento de nossas dificuldades e, assim como em qualquer gestão bem sucedida, a nossa gestão pessoal deverá abranger um planejamento de desenvolvimento que seja plausível, com objetivos e cronograma bem definidos.

 

E você acha que a Pandemia e a Indústria 4.0 juntas podem ser os despertadores de mudanças nas habilidades dos profissionais?

 

Carla Sandler

Especialista e Mentora em Processos Industriais, Melhoria Contínua e Indústria 4.0. Membro da INTERACTTI – Rede de Empreendedorismo e Negócios. Mestre em Ciências pela USP.